A Inteligência Artificial (IA) tornou os golpes digitais mais convincentes. O telefone toca. Do outro lado da linha, a voz parece ser a do gerente do banco. Poucos minutos depois, chega um e-mail com o logotipo correto da instituição financeira. Em seguida, uma mensagem por aplicativo confirma a suposta atualização cadastral. Nada parece fora do lugar.
Mas, na prática, tudo pode ser uma fraude. A tecnologia mudou a forma como criminosos atuam no ambiente digital: ferramentas capazes de gerar textos, imagens, vídeos e até vozes reduziram barreiras técnicas e tornaram ataques sofisticados mais acessíveis.
Como consequência, consumidores enfrentam golpes cada vez mais convincentes, enquanto empresas precisam reforçar suas estratégias de cibersegurança para preservar a confiança dos clientes.
Esse cenário também alterou a forma como as organizações encaram a segurança digital. Se antes a cibersegurança era tratada como um tema restrito às equipes de tecnologia, hoje ela ocupa espaço nas decisões estratégicas de presidentes, conselhos de administração e lideranças empresariais.
A pesquisa CEO Outlook 2026, da EY-Parthenon, mostra que a segurança cibernética e a privacidade de dados são apontadas como o principal risco para os negócios nos próximos 12 meses, à frente de fatores como instabilidade geopolítica, incertezas regulatórias e volatilidade econômica.

“Os resultados mostram que os CEOs continuam comprometidos com investimentos que apoiem o crescimento e a transformação dos negócios, mas com uma abordagem cada vez mais criteriosa diante do cenário de incertezas. A confiança permanece elevada em iniciativas voltadas à expansão e à inovação”, diz Leandro Berbert, sócio de Estratégia e Transações da EY-Parthenon.

A IA democratizou o cibercrime
Para Fabio Brodbeck, cofundador e Chief Growth Officer (CGO) da OSTEC, empresa brasileira de cibersegurança e segurança digital, essa transformação ocorreu porque os impactos de um ataque digital deixaram de ser apenas tecnológicos.
“Um incidente cibernético pode interromper operações industriais, comprometer cadeias logísticas, afetar serviços essenciais, gerar prejuízos financeiros expressivos e colocar em risco atividades estratégicas para organizações e governos.”
Segundo o executivo, essa mudança fez com que a principal discussão deixasse de ser a compra de ferramentas de segurança. “A pergunta passou a ser ‘como garantimos que nossa organização continuará funcionando diante de uma crise cibernética?’.”
Na prática, isso significa que proteger sistemas também passou a significar proteger consumidores. Afinal, quando bancos, marketplaces, operadoras de saúde, companhias aéreas ou plataformas digitais sofrem interrupções ou fraudes, o impacto chega rapidamente à experiência do cliente.

Os golpes ficaram mais inteligentes
Se a Inteligência Artificial tornou as fraudes mais sofisticadas, uma nova transformação já começa a preocupar especialistas em segurança digital. A convergência entre IA e computação quântica promete elevar o nível das ameaças cibernéticas nos próximos anos, colocando em xeque os modelos de proteção utilizados atualmente.
Para Alessandro Buonopane, especialista em cibersegurança, o chamado Q-Day (momento em que computadores quânticos terão capacidade para quebrar boa parte da criptografia utilizada hoje) deixou de ser uma hipótese distante e passou a influenciar decisões estratégicas de governos e empresas.
“A ameaça do Q-Day não é mais futura. Ela já influencia decisões estratégicas de governos, bancos e grandes corporações.”
Na prática, enquanto a IA acelera a criação de ataques mais sofisticados, a computação quântica pode comprometer a base criptográfica que protege transações financeiras, comunicações corporativas, sistemas de defesa e serviços digitais.
Um dos conceitos que mais preocupa o setor recebeu até um nome específico: Harvest Now, Decrypt Later ou “coletar agora para descriptografar depois”.
Isso significa que criminosos podem capturar informações protegidas atualmente, armazená-las por anos e aguardar o momento em que computadores quânticos tenham capacidade para quebrar a criptografia utilizada hoje.
“Informações estratégicas, registros financeiros, propriedade intelectual e dados pessoais roubados agora poderão ser expostos no futuro.”
Embora esse cenário pareça distante do dia a dia do consumidor, seus efeitos podem ser diretos. Dados bancários, históricos médicos, informações pessoais e registros de transações digitais armazenados atualmente poderão continuar valiosos para grupos criminosos durante muitos anos.

Defesa em transformação
Ao mesmo tempo, a própria Inteligência Artificial vem alterando o equilíbrio entre quem ataca e quem se defende.
Ferramentas de IA generativa reduziram o tempo e o conhecimento técnico necessários para produzir campanhas de phishing, desenvolver códigos maliciosos, criar mensagens altamente personalizadas e até simular atendimentos com aparência legítima.
Segundo Buonopane, esse avanço exige uma mudança na forma como empresas estruturam a proteção digital.
“A resposta não passa apenas por adquirir novas ferramentas de segurança. A convergência entre IA e computação quântica exige um novo modelo operacional baseado em visibilidade contínua, automação inteligente e proteção em tempo real.”
Na avaliação do especialista, esperar que essas tecnologias amadureçam completamente pode representar um erro estratégico. “As organizações que começarem agora a mapear sua exposição, testar criptografia pós-quântica, desenvolver competências em segurança para agentes autônomos e fortalecer sua governança digital estarão mais preparadas para atravessar a ruptura que se aproxima.”
A mensagem é clara: a corrida tecnológica deixou de acontecer apenas entre empresas inovadoras. Hoje, ela também envolve criminosos digitais. E, nesse cenário, proteger o consumidor depende da capacidade das organizações de antecipar riscos antes que eles se tornem realidade.
Falta gente para proteger o consumidor
Se a Inteligência Artificial amplia a sofisticação dos ataques, outro desafio preocupa empresas no mundo inteiro: a escassez de profissionais capazes de enfrentar esse novo cenário.
Relatórios de organismos internacionais indicam que a velocidade da inovação tecnológica supera a formação de especialistas em áreas estratégicas, como Inteligência Artificial e cibersegurança. Na prática, isso significa que, enquanto os ataques evoluem rapidamente, o mercado ainda não consegue preparar profissionais na mesma velocidade.
Segundo a ISC² (International Information System Security Certification Consortium), a força de trabalho global em cibersegurança precisaria praticamente dobrar de tamanho para garantir a proteção adequada das infraestruturas corporativas. Ao mesmo tempo, o Fórum Econômico Mundial (WEF) estima que 44% dos trabalhadores precisarão atualizar suas competências nos próximos anos, com forte demanda por habilidades ligadas à tecnologia e à proteção de dados.
Para Heliana Silva, Country Manager da SGF Global no Brasil, o problema que antes era operacional, já representar um risco estratégico para as organizações.

“A falta de especialistas em IA e cibersegurança não é apenas uma questão operacional, mas um risco estratégico para a perenidade das empresas. Não se trata apenas de preencher vagas técnicas, mas de encontrar profissionais capazes de conectar a inovação tecnológica à proteção da reputação institucional.”
Segundo a executiva, esperar encontrar profissionais completamente preparados no mercado já não é uma estratégia suficiente.
“As lideranças precisam reformular o modelo de busca por candidatos. Em vez de focar apenas em perfis ‘prontos’, as organizações devem se transformar em centros de aprendizagem, investindo em upskilling e valorizando a adaptabilidade.”
A confiança virou ativo estratégico
A falta de profissionais especializados ocorre justamente quando consumidores dependem cada vez mais de serviços digitais para realizar pagamentos, contratar crédito, fazer compras, utilizar aplicativos de mobilidade e acessar serviços de saúde, educação e governo.
Nesse contexto, uma falha de segurança deixa de representar apenas um problema tecnológico. Ela pode interromper serviços, expor dados pessoais, comprometer transações financeiras e afetar diretamente a relação de confiança entre consumidores e empresas.
Não por acaso, os investimentos em Inteligência Artificial continuam crescendo. A pesquisa CEO Outlook 2026, da EY-Parthenon, mostra que 72% dos CEOs brasileiros pretendem ampliar os recursos destinados à IA, enquanto os demais afirmam que manterão os investimentos nos níveis atuais.
Ao mesmo tempo, os executivos reconhecem que o avanço tecnológico também amplia os desafios regulatórios e exige novas estratégias de governança.
Para as empresas, portanto, proteger o consumidor deixou de significar apenas investir em tecnologia. O desafio passa por combinar inovação, profissionais qualificados e uma cultura permanente de segurança digital.
Em um cenário em que a Inteligência Artificial também fortalece os criminosos, a cibersegurança tornou-se um diferencial competitivo. Mais do que evitar ataques, ela passou a sustentar um dos ativos mais valiosos das relações de consumo: a confiança.
No fim, a corrida pela Inteligência Artificial não será vencida apenas pelas empresas que inovarem mais rápido. Será vencida por aquelas que conseguirem inovar sem perder aquilo que sustenta qualquer relação de consumo: a confiança.





