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Chatbot limitado e cadastro que trava: o que ainda afasta o cliente do banco digital

Chatbot limitado e cadastro que trava: o que ainda afasta o cliente do banco digital

Com 78% das transações já no celular, o brasileiro vive no app do banco. Mas pesquisas nos EUA e no Brasil mostram que a relação ainda emperra no começo e indicam onde a disputa por clientes deve se concentrar em 2027
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Abrir conta ainda é o ponto em que muitos clientes desistem do banco digital. Nos Estados Unidos, para cada conta aberta online, mais de três pedidos são abandonados no meio do caminho. No Brasil, metade das 20 instituições avaliadas pelo FinFacts ainda não abre conta em tempo real, e quem desiste não fica sem banco: o brasileiro mantém, em média, seis contas. No atendimento, os chatbots se multiplicaram, mas seguem resolvendo só o simples e devolvendo o resto para o humano. É nesses dois pontos, a entrada e o atendimento, que a disputa por clientes deve se concentrar em 2027.

O cliente de banco já se mudou para o aplicativo. Entra nele quase todo dia, paga, transfere, consulta saldo e pede crédito sem pisar na agência. Porém, mesmo com todos os avanços digitais, essa jornada ainda encontra entraves.

O diagnóstico vem da sétima edição do Digital Banking Performance Metrics, estudo da consultoria americana Cornerstone Advisors encomendado pela Alkami, empresa que fornece plataformas digitais para bancos e cooperativas de crédito dos Estados Unidos. O levantamento reuniu dados de 2025 informados por 89 instituições, sendo 32 bancos e 57 cooperativas, e mede o que o dinheiro investido em digital entregou de fato.

Os dados são de instituições americanas, mas valem uma reflexão sobre o nosso mercado. Lá, a transferência entre pessoas ficou com aplicativos como Venmo e Cash App. Aqui, o Pix manteve essa relação dentro do app do banco. Ainda assim, alguns pontos do relatório dialogam com o que se vê no Brasil, e com o que acompanhamos ao longo de 2026.

Para cada conta aberta, três ficam pelo caminho

De acordo com o relatório, a fatia de contas correntes abertas pelo canal digital nos EUA subiu de 21% em 2024 para 27% em 2025. Pela primeira vez, mais de um quarto das contas nasce online.

O abandono, porém, não cedeu. Para cada conta concluída pela internet, as instituições registraram em média 3,36 processos abandonados no meio, praticamente o mesmo patamar do ano anterior. No quartil de pior desempenho, a relação passa de cinco desistências por conta aberta. Os autores do estudo calculam que, sem o abandono, cada instituição teria somado perto de 9 mil contas novas no ano.

Para a Cornerstone, nesses casos, a abertura digital funciona mais como filtro do que como funil. Os culpados apontados são conhecidos de qualquer pessoa que já tentou abrir uma conta pelo celular: a fricção que obriga a recomeçar do zero. Basta pedir ao cliente algo analógico, como subir um documento, ligar para a agência ou esperar retorno, para a promessa da facilidade digital ruir. A consultoria resume que não se trata de um problema de marketing, mas de experiência.

Soma-se a isso a fraude. Em média, uma em cada quatro solicitações digitais foi negada por suspeita, índice estável em relação a 2024. O relatório alerta que detectar não basta, é preciso acurácia para não barrar o cliente legítimo.

E no Brasil?

O FinFacts 2026, estudo do Google Cloud com a agência R/GA que avaliou a jornada digital de 20 instituições financeiras brasileiras, encontrou sintomas parecidos. Metade delas ainda não abre conta em tempo real, e uma levou mais de 72 horas para concluir o processo. Só quatro permitem fazer toda a abertura de forma conversacional. Há avanço, já que nove das 20 deixaram de exigir upload de documentos, mais que o dobro da edição anterior. Mas metade não oferece um processo eficiente e seguro para migrar a conta para um novo aparelho, justamente uma das armadilhas que o estudo americano aponta.

No Brasil, há outro agravante. Segundo o mesmo levantamento, o brasileiro mantém em média seis contas bancárias. Aqui, quem desiste no meio de uma experiência ruim de abertura não fica sem banco.

Menus rígidos e respostas pré-programdas

Voltando ao estudo americano, entre 2024 e 2025, as sessões mensais de chatbot cresceram 54% e chegaram, em média, a quase 5,5 mil por instituição, acima das cerca de 3 mil conversas no chat com atendente humano. Os bancos puseram o robô na linha de frente para absorver as perguntas frequentes.

Nove em cada dez instituições com chatbot já permitem transferir a conversa para um atendente sem sair do aplicativo, e a maioria usa o robô para responder dúvidas informativas. Menos de um terço, porém, deixou o bot executar transações. Ele resolve o simples e devolve o resto.

Por outro lado, na ponta, a entrega ainda fica aquém. O FinFacts 2026 registrou que, pela primeira vez, todas as 20 instituições avaliadas oferecem chatbot, mas sete ainda dependem de menus rígidos e respostas pré-programadas.

Quando os pesquisadores escreveram que estavam muito desapontados, 11 robôs simplesmente ignoraram a emoção, e só dois encaminharam o cliente para uma solução de fato. Apenas cinco conseguiram responder como consultores financeiros, com perguntas contextualizadas sobre investimentos e objetivos.

Como nos Estados Unidos, o investimento em IA existe, mas na ponta o bot ainda serve mais para conter a demanda do que para resolvê-la.

Quem baixa o app, usa

Ainda no Digital Banking Performance Metrics, a fatia de usuários de mobile banking que de fato usam o aplicativo, estacionada perto de 73% por três anos, saltou para 82% em 2025. Nas instituições do quartil superior, chega a 90%. Em média, o usuário ativo entra no app 17 vezes por mês.

Nas instituições do quartil inferior, no entanto, o cliente aparece cerca de duas vezes por semana. Para a Cornerstone, quem entra só duas vezes está administrando a vida financeira em outro lugar e passa no banco apenas para conferir. Os autores questionam o que esse cliente faz nos outros cinco dias.

Já no Brasil, a Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2026, feita pela Deloitte com base em 2025, contou 240,8 bilhões de transações bancárias no ano, 78% delas pelo celular. Em cinco anos, as transações no mobile banking cresceram 169%, enquanto as agências ficaram com apenas 3% do total. Entre os clientes digitais, 76% já fazem mais de 80% das operações em um único canal.

As métricas não são idênticas, já que o estudo americano mede usuários ativos e o brasileiro mede transações, mas apontam na mesma direção. Nas empresas, a diferença é maior. Nos Estados Unidos, só 31% dos clientes pessoa jurídica usam ativamente o app do banco. No Brasil, 63% das transações de empresas já passam pelo celular, e o diretor responsável pela pesquisa da Febraban, Rodrigo Mulinari, credita o movimento ao Pix.

O que esperar de 2027

Nos dois países, o uso diário do aplicativo do banco está consolidado. As falhas aparecem em dois pontos: no começo da relação, quando a abertura de conta trava, e no atendimento automatizado, que responde, mas raramente resolve. É nesses dois pontos da experiência que a disputa por clientes tende a se concentrar no setor em 2027.

Uma próxima etapa já começa a aparecer por aqui, com chatbots que deixam de apenas responder e passam a executar tarefas dentro da conversa, como agentes na jornada financeira do cliente. É justamente o passo que, nos Estados Unidos, menos de um terço das instituições deu. O avanço desses agentes deve vir acompanhado de uma discussão regulatória no Brasil. O Banco Central havia sinalizado que não editaria regras específicas para IA no sistema financeiro antes do fim de 2026, o que deixa o tema em aberto para o ano que vem.

O próprio relatório da Cornerstone também traz um alerta para quem fecha o orçamento de 2027. Nos Estados Unidos, 14% dos bancos planejavam trocar a plataforma digital de varejo em 2025, mas só 9% o fizeram. Entre as cooperativas, foram 13% contra 8%.

Num mercado em que o brasileiro mantém mais de uma conta, busca as melhores condições de crédito e não quer fricção na sua jornada bancária, a instituição que repetir a distância entre plano e entrega de outros anos corre o risco de não encontrar esse cliente no seu app, muito menos na sua agência, em 2027.

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