- Preocupação alta, preparo baixo: 80% dos jovens de 18 a 30 anos se preocupam com o futuro financeiro, mas só 34% fazem algo concreto para se preparar. Além disso, 60% tomam decisões financeiras com horizonte de até seis meses.
- O orçamento trava a poupança: 41% não têm sobra de recursos ou convivem com dívidas, e apenas 19% têm reserva para mais de três meses de despesas.
- Autonomia é o argumento que funciona: para 59%, envelhecer bem é manter a capacidade de fazer as próprias escolhas. A independência financeira lidera os objetivos (39%), enquanto guardar dinheiro para a maturidade aparece só em sétimo lugar (19%).
Os jovens brasileiros sabem que precisam pensar no futuro financeiro. O problema está em transformar essa consciência em planejamento. Pesquisa inédita do Instituto Locomotiva, encomendada pela Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (Abrapp), mostra que 80% dos jovens de 18 a 30 anos se preocupam com o futuro financeiro, mas apenas 34% consideram que estão fazendo algo concreto para se preparar.
A distância entre intenção e prática aparece em vários pontos do levantamento. Para 65% dos entrevistados, a preparação para a aposentadoria deveria começar antes dos 30 anos. No dia a dia, porém, 60% tomam decisões financeiras com horizonte de até seis meses. E, para metade deles, pensar na aposentadoria provoca mais ansiedade do que motivação.
Autonomia vem antes da aposentadoria
Quando falam dos planos para os próximos anos, os jovens colocam a independência financeira no topo da lista, citada por 39%. Em seguida aparecem a formação de uma reserva de emergência (36%) e viagens e lazer (25%). Guardar dinheiro para a maturidade fica apenas na sétima posição, com 19% das menções.
Ao projetar as próximas duas ou três décadas, o que mais preocupa é a possibilidade de faltar dinheiro (37%), depender financeiramente de outras pessoas (27%) e enfrentar problemas de saúde (25%). A preocupação com o futuro existe, mas se expressa principalmente no desejo de conquistar autonomia e segurança financeira.
O orçamento, no entanto, impõe limites. Segundo a pesquisa, 41% dos jovens não têm sobra de recursos ou convivem com dívidas, e apenas 19% possuem reservas suficientes para cobrir mais de três meses de despesas. Entre as principais dificuldades para guardar dinheiro estão os imprevistos frequentes (28%), a renda insuficiente (26%) e o endividamento (26%).
Para a Abrapp, os números reforçam a importância de estimular o planejamento previdenciário desde a juventude, quando há mais tempo para formar uma reserva e construir condições de autonomia no futuro.
“A previdência é uma coisa de jovem, não é coisa do idoso. Quem chega à longevidade colhe apenas o resultado daquilo que conseguiu construir e estruturar financeiramente ao longo dos anos”, afirma Devanir Silva, diretor-presidente da Abrapp.
Além do aperto no bolso, o estudo aponta barreiras comportamentais que ajudam a explicar por que a preocupação raramente se converte em medidas concretas.
“A pesquisa evidencia a distância entre o que essa geração deseja para o futuro e o que consegue colocar em prática no presente. Os jovens reconhecem a importância de se preparar financeiramente e valorizam a própria autonomia, mas as necessidades imediatas acabam ocupando grande parte de suas decisões. É uma geração que pensa no amanhã, mas precisa lidar com as pressões financeiras de hoje”, analisa Renato Meirelles, fundador do Instituto Locomotiva.
A previdência como projeto de vida
O levantamento também mostra caminhos para aproximar as novas gerações do tema. Para 59% dos entrevistados, envelhecer bem significa manter a autonomia e a capacidade de fazer as próprias escolhas. Por isso, a previdência tende a ganhar relevância quando aparece como parte de um projeto de vida, e não apenas como uma preocupação distante com a aposentadoria.
“Para essa geração, falar de aposentadoria não é necessariamente falar de liberdade ou qualidade de vida. Muitas vezes, é falar de uma preocupação distante, que gera mais ansiedade do que motivação. Quando o planejamento financeiro se conecta à autonomia e à possibilidade de fazer escolhas no futuro, essa conversa passa a fazer muito mais sentido para os jovens”, afirma Meirelles.
O desconhecimento ainda pesa. Do total de entrevistados, 65% conhecem pouco ou nada sobre previdência privada, percentual que chega a 75% entre os jovens de 18 a 23 anos. Há também desconfiança sobre a segurança e a flexibilidade dos produtos: 62% receiam mudanças nas regras ao longo do tempo, e 50% têm medo de não conseguir acessar os recursos quando precisarem.
Mesmo com essas barreiras, 48% declaram alta disposição para começar a contribuir para uma solução de previdência nos próximos 12 meses, desde que encontrem uma alternativa adequada à sua realidade financeira. Outros 61% demonstram mais interesse quando entendem que começar a poupar cedo permite buscar a mesma renda futura com contribuições mensais menores.
Entre os atributos mais valorizados estão a possibilidade de interromper temporariamente as contribuições sem perder o valor acumulado (32%), a transparência sobre taxas e custos (32%) e a opção de começar com valores baixos (31%).
Para Devanir Silva, os resultados mostram que o setor precisa ampliar o diálogo com as novas gerações e tornar mais conhecidos os benefícios da previdência complementar, a solidez e a sustentabilidade do sistema e seu papel na construção de uma renda futura. O desafio, segundo ele, é comunicar tudo isso de forma simples e acessível, fortalecendo a confiança dos jovens no planejamento de longo prazo.
“Somos uma página em branco para a sociedade. Pouca gente sabe o valor dessa previdência para o futuro das pessoas. Precisamos ter uma linguagem mais simples e mais direta com esses trabalhadores”, afirma o dirigente.
Cobertura previdenciária em debate
Na avaliação da Abrapp, a discussão vai além do comportamento financeiro dos jovens. O envelhecimento da população, as mudanças nas relações de trabalho e a dificuldade de formar poupança de longo prazo pedem novas estratégias para ampliar a proteção previdenciária dos brasileiros.
“Não podemos discutir o futuro da Previdência apenas pelo lado da contenção de despesas. Precisamos olhar também para quem está fora do sistema e criar mecanismos capazes de incorporar esses trabalhadores. Ampliar a cobertura é, ao mesmo tempo, uma agenda de inclusão social e de sustentabilidade econômica”, afirma Devanir Silva.
O estudo também classifica os jovens por nível de planejamento financeiro. O grupo menos planejado representa 53% da amostra, e 40% desses entrevistados consideram viável começar a contribuir com até R$ 50 por mês.
Os dados apontam para a necessidade de soluções previdenciárias mais flexíveis e customizadas, capazes de atender diferentes perfis de trabalhadores e realidades de renda. Ampliar a cobertura passa por levar em conta as diferenças de conhecimento, capacidade de poupança e estabilidade financeira, com alternativas de contribuição acessíveis, ajustáveis e compatíveis com as condições de cada público.
A pesquisa ouviu 1.000 jovens das classes A, B e C, com renda própria, em todas as regiões do Brasil. Esse público representa aproximadamente 31 milhões de brasileiros, o equivalente a 19% da população adulta. Os resultados foram apresentados durante o 47º Congresso Brasileiro da Previdência Complementar (CBPP), em São Paulo.





