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O que “Três Graças” revela sobre a relação da GenZ com a cultura brasileira

O que “Três Graças” revela sobre a relação da GenZ com a cultura brasileira

Novela dialoga diretamente com a GenZ, embarcando nos memes, em personagens marcantes e em narrativas que se aproximam de experiências reais.
.Novela Três Graças dialoga diretamente com a GenZ, embarcando nos memes, em personagens marcantes e em narrativas que se aproximam.
Foto: Shutterstock.
A novela Três Graças foi um sucesso entre a Geração Z. Ao embarcar em memes, personagens marcantes, tramas que se aproximam da experiência real e spin-offs voltados para os assuntos das redes sociais, o produção revela que o consumo de entretenimento desse público não acontece de forma linear.

A novela Três Graças, escrita por Aguinaldo Silva, Virgílio Silva e Zé Dassilva, exibida pela TV Globo, chega à reta final no dia 15 de maio depois de se consolidar como um dos maiores fenômenos culturais recentes da televisão brasileira. Em um cenário onde frequentemente se questiona a relevância das novelas entre os mais jovens, a trama fez justamente o contrário: transformou a faixa das nove novamente em assunto constante entre a GenZ.

No mês de março, a novela registrou sua maior audiência nacional desde a estreia, alcançando 25 pontos no Painel Nacional de Televisão (PNT). Considerando a atratividade geral, também houve ainda um crescimento de +12% entre espectadores de 18 a 24 anos. Nas redes sociais, houve um aumento de engajamento com um pico de 441 mil menções na oitava semana de exibição. 

O resultado ajuda a desmontar uma percepção que se tornou comum nos últimos anos de que novelas teriam perdido força entre as novas gerações. O que Três Graças mostra é que o interesse continua existindo, mas acompanhado de uma mudança importante na maneira como esse público se relaciona com entretenimento. A novela voltou a ocupar espaço no cotidiano digital, movimentando comentários, memes, cortes, fandoms e debates que ultrapassam o capítulo exibido na televisão.

Diálogo com gerações

Um dos motivos para isso está na maneira como a trama dialoga com conversas que já fazem parte do repertório online dos mais jovens. Muitos conflitos e diálogos são construídos de forma bastante consciente para refletir tensões, referências e códigos que circulam diariamente nas redes sociais, sem que a narrativa pareça artificialmente jovem.

Nesse sentido, a novela também acerta na intersecção entre gerações. Não deixando de lado o público tradicional que acompanha dramaturgia há décadas, mas encontra caminhos muito eficientes para dialogar com quem cresceu consumindo conteúdo em uma lógica completamente diferente. O uso do absurdismo atravessa cenas, personagens e reações da trama, algo que conversa diretamente com o tipo de humor e intensidade emocional que costuma ganhar força hoje na internet.

Como a novela constrói identificação com a GenZ

Existe uma mudança importante na maneira como as novas gerações se relacionam com personagens. A GenZ dificilmente se conecta com protagonistas totalmente perfeitos ou emocionalmente estáveis. Existe uma busca muito maior por personagens contraditórios, impulsivos e vulneráveis, justamente porque isso aproxima a narrativa de experiências mais reais.

A personagem Gerluce, interpretada por Sophie Charlotte, funciona muito dentro dessa lógica. Ao mesmo tempo em que é intensa e impulsiva, também demonstra fragilidade e insegurança em diferentes momentos da trama. Isso cria uma identificação muito mais imediata com o público jovem. A partir dessa construção, a novela trabalha os conflitos sem simplificar totalmente os personagens em heróis ou vilões absolutos, o que alimenta discussão constante entre quem acompanha a evolução narrativa.

Outro aspecto importante é a maneira como os extremos são construídos dentro da narrativa. As personagens atravessam situações moralmente desconfortáveis, tomam decisões extremas e acabam pressionadas por estruturas maiores, como corrupção, lavagem de dinheiro, tráfico de bebês e conflitos familiares.

A novela também estrutura uma agenda temática ampla sem comprometer a fluidez da história. A trama incorpora discussões sobre inserção de pessoas trans no mercado de trabalho e em relações afetivas, consolida um casal de mulheres com protagonismo contínuo e amplia a representatividade ao incluir personagens LGBTQIA+ em diferentes fases da vida. 

Dramaturgia pensada para repercussão digital

Mas existe outro contexto importante. As novas gerações não necessariamente acompanham conteúdos de maneira linear. Muitas vezes, o primeiro contato com uma obra acontece através de cortes soltos, edits, comentários ou vídeos de reação. Uma novela que deseja dialogar com esse público precisa funcionar também fora da televisão.

Determinadas cenas parecem construídas exatamente para continuar repercutindo depois do capítulo acabar. Não como momentos virais artificiais, mas como sequências fortes o suficiente para serem reinterpretadas em diferentes plataformas. A cena de Arminda ao som de Freak Le Boom Boom viralizou justamente porque funciona dentro da narrativa, como meme, trend ou recorte isolado no TikTok e no X. 

Na reta final, outra sequência que ganhou enorme repercussão foi o momento em que Arminda empurra o carrinho da própria neta escada abaixo. Depois da exibição, Aguinaldo Silva revelou nas redes sociais que a cena fazia referência direta à Escadaria de Odessa, sequência clássica do filme O Encouraçado Potemkin, de Sergei Eisenstein, lançado em 1925. Esse tipo de referência funciona especialmente bem, porque a GenZ gosta de identificar conexões culturais, homenagens e códigos escondidos dentro das produções que consome.

O uso de zooms dramáticos, trilhas exageradas, vilãs caricatas, nomes sonoros e referências ao próprio universo de Aguinaldo Silva ajuda a criar uma identidade muito forte para a novela. São elementos que reforçam a memorização e incentivam o comentário constante nas redes.

Quando a novela vira conversa coletiva

Do ponto de vista estético, existe uma construção bastante estratégica em relação aos nomes dos personagens, que são incomuns e sonoros, o que estimula a criação de apelidos e reforça a memorização. Cada núcleo possui figurino, estética e gestualidade muito marcados, ampliando a diferenciação entre personagens e fortalecendo o reconhecimento imediato do público. Assim como a construção das vilãs, da mais caricata até a mais sofisticada e manipuladora. Cada perfil gera um tipo diferente de reação, comentário e meme, alimentando o debate contínuo.

Essa dinâmica também amplia a sensação de pertencimento do público. Um exemplo claro foi o casal Lorena e Juquinha, que ganhou nas redes o apelido de “Loquinha”. O termo viralizou entre fãs e acabou sendo incorporado pela própria Globo, que lançou um spin-off oficial em formato de microdrama vertical, usando o nome criado espontaneamente pelo público.

Esse ecossistema de conversa ultrapassa inclusive as estratégias conduzidas pela própria emissora. Assim como já aconteceu com Vale Tudo, os atores de Três Graças entenderam rapidamente o potencial da creator economy brasileira e da importância de consolidar seus próprios fandoms. Bastidores, cenas, interações entre atores e conteúdos paralelos ajudam a manter a novela circulando durante todo o dia.

No fim, o que se observa é menos uma adaptação de formato e mais a construção de uma narrativa que favorece reconhecimento e leitura múltipla entre diferentes públicos. Em um ambiente marcado pela fragmentação da atenção e pelo consumo individualizado de conteúdo, conseguir ainda mobilizar atenção coletiva em grande escala já indica um grande fenômeno cultural.

Luiz Menezes é fundador da Trope-se, consultoria de Geração Z que ajuda marcas a rejuvenescerem suas estratégias de negócio. Luiz é nativo digital, creator, apresentador, empresário e empreendedor.

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