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O que significa torcer na economia da distração?

O que significa torcer na economia da distração?

O torcedor que antes protestava nas gradas agora cancela, aposta e exige resultado como quem cobra uma assinatura.
Torcedores brasileiros durante a cerimônia de abertura da Copa do Mundo de 2014, na Neo Química Arena, em São Paulo.
Torcedores brasileiros durante a cerimônia de abertura da Copa do Mundo de 2014, na Neo Química Arena, em São Paulo.
Foto: Jefferson Bernardes / Shutterstock.com.
O novo torcedor brasileiro nunca esteve tão presente no futebol e tão exigente com ele. Das redes sociais às apostas online, a relação com o esporte ganhou novas camadas de engajamento, mas também uma lógica contratual que substitui a devoção pela cobrança. Entre o fã digitalizado que sofistica a emoção apostando e o torcedor que cancela ídolos históricos nas redes, a paixão resiste, só que agora disputada com a dopamina de mil outras telas.

O torcedor de hoje já não é o mesmo que ocupava as arquibancadas há algumas décadas. Seja no estádio, seja acompanhando a partida em casa, os olhos não estão apenas no campo. A atenção está dividida entre a aposta aberta no próximo lance, um corte da última falta no Instagram, comentários no X e xingamentos no grupo de WhatsApp. Tudo isso, ao mesmo tempo.

Segundo o estudo Copa da Dopamina, da consultoria Box1824, esse é o comportamento padrão de uma geração que cresceu na economia da distração – e que leva essas ações para dentro do futebol. A diversão vai muito além da partida em si. E essa mudança transforma não só como o torcedor consome o esporte, mas como ele se relaciona com o futebol.

Novos canais de transmissão

Uma boa evidência desse novo comportamento do torcedor está nos canais utilizados para acompanhar as partidas.

No último sábado (13), o Brasil teve sua estreia na Copa do Mundo FIFA 2026, em um jogo arrastado contra o Marrocos. A CazéTV, plataforma criada em 2022 e a única a transmitir todos os jogos do Mundial em sinal aberto, pelo YouTube, atingiu 12,7 milhões de espectadores simultâneos durante a partida. O número recorde é o maior em uma partida de futebol transmitida pela plataforma em todo o mundo.

Ao mesmo tempo, a emissora Globo registrou uma média de 30,74 pontos de audiência durante a estreia da Seleção Brasileira na Grande São Paulo – a pior média da emissora durante um jogo do Brasil em uma Copa do Mundo, segundo levantamento da TV Pop. Ao todo, trata-se de uma queda de 33% no público na comparação com a estreia da Seleção na Copa do Mundo de 2022.

A CazéTV está mostrando que torcer já não significa assistir passivamente a um jogo. É também comentar no chat, participar do bolão, apostar, acompanhar os melhores momentos nas redes sociais. A Casa CazéTV materializa esse novo comportamento, criando uma experiência phygital em São Paulo e no Rio de Janeiro.

“A transmissão cresce porque a gente conseguiu conectar com uma comunidade que já estava precisando de um jeito novo de consumir conteúdo”, explica Giamile Rossato, diretora de Vendas da CazéTV. “Consumir o esporte, o esporte não só pelo esporte, mas como entretenimento. De sentar na sala da minha casa e, de fato, me divertir assistindo futebol, assistindo tênis, assistindo esportes olímpicos. E esse entretenimento, o nosso jeito da CazéTV, fez com que essa comunidade começasse a crescer – e muito.”

O goleiro Vozinha

Na segunda-feira, após uma partida emocionante contra a Espanha, a seleção de Cabo Verde conseguiu um empate em sua estreia em Copa do Mundo. A estrela da disputa foi Vozinha (Josimar Dias), goleiro que, além de protagonizar grandes defesas, é fã de Rogério Ceni e Ivete Sangalo. Ainda, seu primeiro nome, Josimar, é uma homenagem ao lateral do Botafogo, que chegou a disputar a Copa do Mundo de 1986 pelo Brasil.

A CazéTV protagonizou uma espécie de convocação, pedindo a todos os espectadores que seguissem o atleta nas redes sociais. O resultado: de 50 mil, Vozinha já conta com mais de 9 milhões de seguidores no Instagram.

Ou seja, torcer é também poder impactar o jogador, o clube ou até mesmo a Seleção.

Da torcida ao gatilho: a cultura da dopamina

A transformação do torcedor não aconteceu de uma hora para outra. A Box1824 traça uma progressão em três estágios que ajuda a entender o caminho percorrido:

  • Na cultura tradicional, o ato central era praticar o esporte.
  • Na modernidade, passou a ser assistir.
  • Na cultura da dopamina, é apostar num lance da partida.

Cada estágio não elimina o anterior, todos coexistem. O que avança é a velocidade, a fragmentação e a intensidade do estímulo.

Nesse contexto, a consultoria identifica o que chama de morte do morno: num ambiente de saturação de estímulos, a neutralidade emocional se tornou a estratégia mais arriscada. Quem não provoca emoção desaparece. Isso vale para marcas, para narradores, para clubes, e também para o próprio ato de torcer. A torcida que não grita, não cancela, não reage em tempo real simplesmente não existe no ecossistema digital.

O resultado é o que a consultoria chama de batalha dos nanossegundos. Na Copa de 2026, a atenção do torcedor não estará apenas nos 90 minutos de jogo. Ela estará distribuída por cortes, highlights, reacts e memes que se sucedem numa velocidade que o próprio jogo não consegue acompanhar.

O cérebro do consumidor brasileiro foi permanentemente reconfigurado para buscar microdoses de entretenimento em janelas de segundos. Durante a Copa, esse hábito será ainda mais intensificado.

O torcedor fragmentado

A atenção do torcedor nunca esteve tão disputada e nem tão dividida. O brasileiro passa, em média, 9 horas por dia conectado ao celular e 3 horas nas redes sociais, segundo levantamento da Bain & Company. Durante um jogo, esse tempo é redirecionado.

O resultado é um torcedor multitarefa, simultâneo, que consome o futebol em camadas sobrepostas. A transmissão ao vivo divide atenção com os cortes de melhores momentos, os memes em tempo real, os comentários de streamers e as notificações de aposta. A partida, dentro dessa equação, é apenas uma das camadas, e não necessariamente a mais importante.

Essa reconfiguração aparece com clareza na pesquisa da Trope-se com o InstitutoZ, que ouviu jovens brasileiros sobre sua relação com a Copa do Mundo. Entre a Geração Z, 39% enxergam o Mundial como manifestação cultural, enquanto 23% se conectam pelo entretenimento. Apenas uma parcela minoritária o define primariamente como evento esportivo. Já 82% dessa geração apontam memes e humor como o tipo de conteúdo que mais os representa durante o torneio.

O futebol, para esse público, não perdeu relevância. Mas deixou de ser o único eixo da experiência. Ele funciona, cada vez mais, como plataforma. Ou seja, um contexto em torno do qual outras formas de consumo, entretenimento e sociabilidade se organizam.

O imperativo do ganhar

Esse mesmo torcedor também cobra pela performance do clube. Não mais como um apaixonado pelo escudo, mas como um sócio que espera resultados – e rápidos – de um novo técnico ou atleta. Senão, pode passar a cobrar pela substituição ou troca do profissional.

“Você consegue imaginar hoje um clube como o Corinthians vinte anos sem ganhar título?” A pergunta é do sociólogo José Paulo Florenzano, pesquisador e professor da PUC-SP, e estudioso do futebol brasileiro há décadas. Ele mesmo responde: não dá para imaginar.

Durante décadas, grandes clubes brasileiros atravessaram jejuns longos sem que a relação do torcedor com o time entrasse em colapso. A devoção sobrevivia ao revés. O pertencimento não dependia do resultado. “Torcer, mas ter em retribuição a vitória. Esse é uma outra relação que está sendo estabelecida”, diz Florenzano.

O futebol, lembra o pesquisador, tem um ensinamento estrutural para qualquer sociedade: a alternância entre vencer e perder. Aprender a lidar com a frustração, com o imponderável, com o resultado que contraria o desejo. “A gente parece que não está aprendendo mais essa lição no esporte. Pelo contrário.”

O que explica essa mudança? Em parte, a transformação do estádio em arena de consumo, que elevou o preço do ingresso e trouxe um público que exige proporcionalidade entre o que paga e o que recebe. Em parte, a lógica produtivista que permeia todas as relações contemporâneas. E em parte, as redes sociais, que deram ao torcedor um microfone com alcance ilimitado e sem mediação.

O torcedor que aposta

O brasileiro tem uma relação antiga com a aposta no futebol. A loteria esportiva dos anos 1970 foi um fenômeno de massa e já gerava, à época, o mesmo debate que existe hoje sobre o risco de o torcedor apostar contra o próprio clube para fechar a cartela. O jogo do bicho enraizou nas culturas populares uma lógica de risco e recompensa que antecede qualquer plataforma digital. “Algumas coisas já estavam presentes nas formas anteriores de aposta”, observa Florenzano.

Fabio Ritter, gerente sênior de Ativação de Patrocínios da Betano.
Foto: Reprodução/LinkedIn.

O que muda agora é a escala e a ausência de fricção. Em 2025, mais de 25 milhões de brasileiros realizaram apostas online, segundo a Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda.

Para a Copa de 2026, o número tende a crescer: pesquisa do Opinion Box aponta que 56% dos brasileiros pretendem apostar ao longo do torneio. O Brasil é hoje o quinto maior mercado de apostas esportivas do mundo, atrás apenas de EUA, Reino Unido, Itália e Rússia, segundo dados da Regulus Partners.

Para Fabio Ritter, gerente sênior de Ativação de Patrocínios da Betano, o apostador contemporâneo é um perfil distinto do jogador compulsivo que domina o debate público. “O nosso cliente é majoritariamente o fã de esportes digitalizado, que busca personalização, usabilidade fluida e segurança jurídica”, afirma.

Na leitura da empresa, a aposta aprofunda a emoção de torcer. “O torcedor passa a acompanhar estatísticas, a performance dos atletas e as nuances táticas. A aposta sofistica a emoção, não a diminui.”

A devoção no futebol

Diante desse retrato – com um torcedor fragmentado em diferentes canais, apostando, comentando e criando memes –, seria fácil concluir que a relação do brasileiro com o futebol se esvaziou. Ou seja, que o consumo, a cobrança e as apostas ocuparam o espaço que a devoção sempre teve e que define vínculo com o esporte. Mas, Florenzano não acredita nisso.

“Os valores da identidade nacional não desapareceram”, diz o pesquisador. “Eles podem vir à tona numa eventual campanha arrebatadora da seleção brasileira.” A narrativa de superação, a trajetória de ascensão social do atleta, o jeito brasileiro de jogar, tudo isso ainda ressoa. Agora, em mais telas, em novas expectativas e experiências.

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