Imagine poder criar o seu próprio programa de televisão, como uma série ou filme. Agora, e se essa produção audiovisual pudesse ser realizada com apenas um prompt, como ao utilizar o ChatGPT ou sua ferramenta de Inteligência Artificial (IA) generativa favorita? Essa é a proposta da startup norte-americana The Simulation – anteriormente chamada Fable Studio e vencedora de um Emmy – com seu novo serviço, Showrunner.
Segundo a empresa, a nova plataforma, lançada na semana passada, permite que usuários criem seus próprios seriados utilizando IA generativa. Em 2023, The Simulation já havia publicado um episódio da animação “South Park” gerado pela tecnologia de maneira bastante convincente, com dublagem, cenários e ações de personagens quase idênticos ao seriado original. Quase porque as vozes são um tanto diferentes dos atores originais, assim como a ilustração e algumas piadas ruins.
Inicialmente, a criação de episódios de “South Park” foi feita sem a autorização dos criadores da animação como uma forma de teste da tecnologia do Showrunner. Mais tarde, a série foi utilizada como fonte de experimentação para a ferramenta, gerando um documento sobre a pesquisa e os resultados obtidos.
A plataforma de streaming conta agora com dez shows criados com o sistema de prompt, cada um com estilos diferentes de animação. Para cada um, usuários podem assistir aos episódios já prontos, ou então criar continuações a partir de comandos entre 10 e 15 palavras, resultando em cenas entre dois e 16 minutos de acordo com o estilo do programa.
IA no audiovisual brasileiro
No dia 31/5, a Globoplay – serviço de streaming da Globo – lançou o documentário “Tragédia do voo 447”, que explora a tragédia do acidente aéreo da nave da Air France no qual morreram 228 pessoas. Logo no início da série, que conta com quatro episódios, há um aviso aos espectadores de que as entrevistas concedidas em línguas estrangeiras foram dubladas por meio do uso de Inteligência Artificial com base na voz dos entrevistados.
Segundo o comunicado, “o conteúdo das dublagens é fiel às entrevistas originais. Os entrevistados que não aceitaram a dublagem foram legendados”. A decisão provocou reações positivas e negativas entre a audiência. No Brasil, o uso de IA na dublagem ainda não é regulamentado, o que inclusive levou à criação do movimento Dublagem Viva. O grupo reúne profissionais dubladores além de diretores, tradutores e técnicos do audiovisual para a criação de regras para o setor.
Greve de roteiristas
Em 2023, Hollywood parou na segunda maior greve das categorias de escritores e roteiristas após protestos para limitar o uso de IA generativa na produção de filmes e séries. A paralisação da Writers Guild of America começou em maio depois de desencontros nas negociações por aumentos salariais e direitos autorais com estúdios norte-americanos, e evoluiu para as demandas em relação ao uso da tecnologia. Em julho, o Sindicato dos Atores dos Estados Unidos (SAG-AFTRA) se uniu à paralisação.
Em outubro, a classe chegou a um acordo com a Aliança dos Produtores de Filmes e Televisão (AMPTP), estabelecendo regras para o uso de IA na produção de filmes e séries. Foi determinado que soluções baseadas na tecnologia estão proibidas de serem utilizadas para escrever ou reescrever material literário, além de não poderem serem utilizadas para prejudicar direitos autorais de escritores e roteiristas.
Mas escritores e roteiristas podem escolher utilizar a Inteligência Artificial em seus trabalhos de redação com o consentimento da empresa contratante e seguindo as políticas aplicáveis dos estúdios. O acordo ainda determina que os materiais dos profissionais de escrita não podem ser utilizados para treinar modelos de linguagem de IA generativa. O acordo tem validade até 1º de maio de 2026.
Como assistir
Hoje, é possível acessar o site do Showrunner e se cadastrar para a lista de espera dos assinantes da plataforma – que já somam mais de 50 mil pessoas, segundo a empresa. No entanto, é possível se cadastrar em uma lista premium, o Alpha program, que permite acesso antecipado e uma oportunidade para testar a tecnologia. Para isso, é preciso responder a um formulário com perguntas sobre opiniões e interesses em IA e storytelling.
Pelo site, interessados podem assistir a teasers – curtos trailers que dão um gostinho do que está por vir – de alguns dos diferentes shows produzidos pelo streaming.
A série “Ikiru Shinu” é um anime de terror criado por IA que tem como pano de fundo uma Tóquio futurística de 2046. A narrativa tem como ponto de partida um evento catastrófico que levou humanos aumentados por IA a se tornarem violentos. A série narra a história dos sobreviventes que buscam reconstruir a sociedade e resgatar entes queridos.
Já “Pixels” é uma história com estilo de animação inspirada na Pixar, na qual dispositivos aumentados por IA – como carros Tesla –, são os protagonistas, numa espécie de “Toy Story” às avessas. Mas em vez de brinquedos, são esses personagens que questionam as emoções e dramas humanos.
*Foto: avvapanf Photo / Shutterstock.com.






