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Por que tantas grandes empresas estão reestruturando suas dívidas?

Por que tantas grandes empresas estão reestruturando suas dívidas?

Raízen, Casas Bahia, Ambipar, Oncoclínicas, GPA, Bombril, Tok&Stok/Mobly e Marabraz ajudam a revelar uma realidade que nem sempre aparece com a mesma intensidade nos indicadores macroeconômicos
Legenda da foto
O aumento de grandes empresas em processos de Recuperação Judicial e Extrajudicial revela um cenário de estresse financeiro que vai além dos indicadores macroeconômicos. Mesmo sem uma recessão oficial, companhias de diferentes setores enfrentam dificuldades provocadas por endividamento elevado, juros altos, perda de margem, problemas de governança e estruturas de capital desequilibradas.

Há uma diferença importante entre uma economia estar tecnicamente em recessão e suas empresas estarem enfrentando uma crise. Essa distinção talvez nunca tenha sido tão relevante quanto agora.

O debate econômico brasileiro passou a conviver com uma aparente contradição. De um lado, indicadores agregados ainda mostram atividade econômica e setores relevantes funcionando. De outro, algumas das marcas e companhias mais conhecidas do país vêm recorrendo à Recuperação Judicial, à Recuperação Extrajudicial ou a complexos processos de renegociação de passivos.

Esta semana começou com dois exemplos difíceis de ignorar.

O Grupo Casas Bahia protocolou pedido de Recuperação Judicial envolvendo R$ 17,3 bilhões em dívidas. O processo abrange dez empresas do grupo e ocorre apenas dois anos depois de uma Recuperação Extrajudicial homologada em 2024. Paralelamente, a companhia vem reduzindo significativamente sua estrutura física, com o fechamento de quase 300 lojas.

Poucas horas antes, a Marabraz havia ingressado com pedido de Recuperação Judicial para reorganizar aproximadamente R$ 140 milhões em dívidas. Segundo a empresa, a situação decorre de uma combinação de ambiente macroeconômico adverso, juros elevados, endividamento e conflitos societários e familiares que dificultaram o acesso a novas linhas de crédito.

Não são casos isolados. Pelo menos dez grandes grupos e marcas entraram em processo de reestruturação recentemente.

Cada companhia possui uma história, uma estrutura de capital e circunstâncias próprias, elas não chegaram à reestruturação pelas mesmas razões. O que chama atenção é a quantidade, a relevância das marcas, a magnitude dos passivos e, principalmente, a diversidade dos setores atingidos (energia, varejo, saúde, supermercados, indústria, serviços).

A pergunta, portanto, merece ser feita: por que tantas empresas relevantes estão precisando reorganizar suas dívidas?

A macroeconomia não conta toda a história

O IBC-Br, indicador utilizado como aproximação da atividade econômica, apresentou retração de 0,64% em junho. Apesar disso, o segundo trimestre terminou com crescimento de aproximadamente 0,2%. Na comparação com junho de 2025, o indicador ainda registrou expansão.

Portanto, seria tecnicamente inadequado concluir, a partir desses dados, que o Brasil atravessa uma recessão. Mas também seria equivocado utilizar a ausência de recessão para concluir que as empresas brasileiras atravessam um ambiente confortável.

O PIB mede a atividade econômica de um país, não a capacidade individual de uma empresa pagar suas dívidas.

Uma economia pode crescer enquanto determinados setores perdem margem. Pode gerar empregos enquanto empresas aumentam sua alavancagem. Pode registrar consumo enquanto varejistas enfrentam dificuldades para financiar estoques. E pode apresentar inflação em desaceleração enquanto companhias continuam carregando dívidas contratadas ou refinanciadas a custos elevados.

A macroeconomia apresenta uma fotografia. O caixa de cada empresa apresenta outra.

Os números mostram que não se trata apenas de percepção

Os dados da Serasa Experian reforçam essa leitura. Até março de 2026, o Brasil havia registrado 194 processos de Recuperação Judicial, envolvendo 440 CNPJs. Somente em março foram 76 processos e 176 empresas envolvidas. A própria Serasa avaliou que a acomodação observada anteriormente não representou mudança da tendência e que o ambiente financeiro das empresas permanecia desafiador.

Isso não significa que toda a economia brasileira esteja em crise. Mas significa que existe estresse financeiro empresarial mensurável. E há uma característica importante nesse processo: a redução da taxa de juros não elimina imediatamente os efeitos acumulados por anos de capital caro.

Uma empresa que passou dois ou três anos refinanciando capital de giro, antecipando recebíveis, aumentando endividamento ou utilizando crédito de curto prazo para financiar necessidades permanentes carrega esse efeito no balanço.

A taxa básica pode começar a cair, mas dívida continua lá. Em algum momento, o problema deixa de ser apenas o preço do dinheiro. Passa a ser a própria estrutura de capital.

Casas Bahia: o alerta dentro do alerta

Em 2024, a Casas Bahia entrou com uma Recuperação Extrajudicial de aproximadamente R$ 4,1 bilhões. Dois anos depois, a Recuperação Judicial protocolada é de R$ 17,3 bilhões.

O caso merece atenção não para concluir, de maneira simplista, que a primeira reestruturação fracassou. Isso exigiria comparar detalhadamente o perímetro das obrigações, as condições do primeiro acordo e os acontecimentos posteriores.

Mas permite fazer uma pergunta muito mais importante para qualquer empresário: alongar uma dívida resolve uma crise ou apenas compra tempo quando a operação e a estrutura de capital não são corrigidas?

Uma reestruturação financeira não termina quando credores aprovam um novo cronograma de pagamentos. Se o negócio continuar consumindo caixa, se a margem permanecer insuficiente, se a necessidade de capital de giro continuar aumentando ou se o endividamento voltar a crescer, o alongamento pode apenas transferir o problema para o futuro.

É por isso que reestruturação empresarial não pode ser confundida com renegociação bancária. Renegociar dívida é uma ferramenta. Reestruturar significa atuar simultaneamente sobre operação, caixa, margem, capital de giro, ativos, endividamento, governança e estrutura de capital.

Quando a crise financeira chega à operação

O caso do Grupo Toky acrescenta outra dimensão importante. Controlador das marcas Tok&Stok e Mobly, o grupo registrou prejuízo líquido de R$ 232,7 milhões no segundo trimestre de 2026, enquanto sua receita líquida caiu 37,3%. Segundo a companhia, a desconfiança de fornecedores após o pedido de recuperação provocou rupturas de estoque e aumento dos cancelamentos.

É nesse momento que uma dificuldade originalmente financeira começa a contaminar a operação. A empresa perde crédito, compra menos, o estoque diminui, as vendas são prejudicadas, a geração de caixa cai, a capacidade de crédito piora e o ciclo recomeça.

Esse fenômeno mostra por que tempo é um dos ativos mais valiosos em qualquer processo de reestruturação. Quanto antes a deterioração é identificada, maior tende a ser o conjunto de alternativas disponíveis.

Juros altos explicam tudo?

Seria simplista, e tecnicamente incorreto, atribuir todos esses processos exclusivamente à taxa de juros. Novamente, cada empresa possui sua própria história.

Há problemas de governança, decisões equivocadas de investimento, expansões excessivamente alavancadas, deterioração de margens, conflitos societários. Há também mudanças no comportamento do consumidor, empresas que utilizaram dívida de curto prazo para financiar necessidades permanentes, e modelos de negócio que precisam ser revistos.

O ambiente macroeconômico adverso não cria necessariamente todos esses problemas. Mas pode expor rapidamente fragilidades que permaneceriam escondidas durante mais tempo em um ambiente de dinheiro barato e crédito abundante. Essa distinção é fundamental.

Governança também aparece na conta

O caso da Marabraz acrescenta um componente especialmente relevante. Ao explicar o pedido de RJ, a companhia mencionou não apenas juros elevados e endividamento, mas conflitos societários e familiares que teriam prejudicado seu acesso a novas linhas de crédito.

Isso ajuda a desmontar uma ideia ainda bastante difundida no mercado empresarial: a de que governança seria um assunto separado das finanças. Não é.

Governança influencia crédito. Mas influencia também a confiança do financiador, a capacidade de oferecer ativos como garantia, a velocidade das decisões, a entrada de investidores e valuation. E, em determinadas circunstâncias, influencia diretamente o custo do capital.

Quando a governança falha, o efeito pode aparecer no caixa.

Recuperação Extrajudicial também manda um recado

Outro aspecto relevante de 2026 é que o fenômeno não está restrito às Recuperações Judiciais. Raízen e Oncoclínicas são exemplos de grandes companhias que recorreram à Recuperação Extrajudicial, instrumento que permite organizar uma negociação estruturada com determinados grupos de credores sem necessariamente submeter toda a operação aos efeitos de uma RJ.

No caso da Oncoclínicas, a estrutura em discussão pode envolver capitalização pelos acionistas, conversão de parte dos créditos em participação acionária, substituição de créditos por novas dívidas e alongamento do cronograma de amortização.

Isso mostra outra transformação importante. Reestruturação deixou de ser simplesmente uma discussão sobre desconto e prazo. Passou a envolver engenharia financeira, conversão de dívida em capital, novos investidores, venda de ativos, new money e reorganização da estrutura societária.

Em outras palavras, reestruturação empresarial e Corporate Finance estão cada vez mais próximas.

A pergunta que deveria preocupar o empresário

Quando uma companhia conhecida entra em Recuperação Judicial, é comum o empresário médio enxergar aquele episódio como algo distante de sua realidade. Mas talvez devesse fazer justamente o contrário.

Grandes companhias possuem vantagens que empresas menores normalmente não têm: acesso ao mercado de capitais, patrimônio relevante, assessores especializados, capacidade de negociar diretamente com grandes instituições financeiras e maior possibilidade de atrair investidores.

Se até organizações dessa dimensão estão enfrentando dificuldades para compatibilizar dívida e geração de caixa, existe um sinal importante para o middle market.

O empresários não devem se perguntar se a empresa está em crise, mas sim: “Se as condições atuais permanecerem pelos próximos 12, 18 ou 24 meses, minha estrutura financeira continuará sustentável?”

A resposta pode mudar a gestão. Obriga a companhia a conhecer sua verdadeira capacidade de pagamento, a projetar fluxo de caixa, a medir a necessidade de capital de giro, a calcular seu ponto de equilíbrio, a conhecer sua margem de contribuição, a avaliar sua alavancagem, a medir o serviço da dívida, e a testar diferentes cenários de juros, câmbio, receita e margem. E, principalmente, a agir enquanto ainda possui alternativas.

Crises empresariais não esperam recessões

É perfeitamente legítimo discutir se o Brasil atravessa desaceleração, estagnação ou apenas um período de crescimento mais moderado. Os economistas continuarão fazendo essa discussão necessária. Mas existe outra economia acontecendo simultaneamente: a do caixa das empresas.

Nela, o indicador decisivo não é apenas o PIB. É quanto dinheiro entra e quanto dinheiro sai. Quanto custa a dívida e quando ela vence. E quanto sobra depois que todos esses compromissos são pagos.

Raízen, Casas Bahia, Ambipar, Oncoclínicas, GPA, Bombril, Tok&Stok/Mobly, Marabraz e as demais companhias citadas pertencem a setores diferentes e possuem histórias distintas. Mas existe algo que os conecta: em algum momento, tornou-se necessário reorganizar a relação entre operação, geração de caixa e estrutura de capital.

Talvez seja esse um dos principais alertas que 2026 está deixando ao empresário brasileiro. Uma economia não precisa entrar oficialmente em recessão para que uma empresa entre em crise.

Quando a crise finalmente aparece no pedido de Recuperação Judicial, na Recuperação Extrajudicial, no fechamento de lojas, na ruptura dos estoques ou na restrição do crédito, ela provavelmente já vinha sendo construída havia muito tempo.

A crise pode até ser uma sensação para quem observa apenas os indicadores agregados. Para quem precisa fechar o caixa no fim do mês, ela é matemática.

*Benito Pedro Vieira Santos é CEO do Grupo Avante Assessoria, com atuação em Reestruturação, Governança e Gestão de crises empresariais.

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