A Nuvem Shop, especializada em plataformas de e-commerce, dribla as crises econômicas agudas de Brasil e Argentina, onde a empresa concentra sua operação, e fecha 2018 com crescimento de 70%. Nascida na Argentina em 2011 a empresa veio ao Brasil no ano seguinte para impulsionar o mercado ascendente de lojas on-line.
Em entrevista, o argentino Santiago Sosa, fundador e CEO da startup falou ao portal NOVAREJO sobre a situação econômica do País na reta final do governo de Mauricio Macri, que foi eleito sob aplausos do empresariado e está sendo responsabilizado pela profunda crise econômica e social que se instalou nos últimos anos.
Sosa aborda também as possibilidades para 2019 no Brasil, desde o novo governo até as novas soluções em tecnologia que estão chegando ao mercado. Uma delas é o PWA, em fase de testes em outros mercados em desenvolvimento, como a Índia. A solução promete acabar com o sofrimento do consumidor na hora de carregar sites em lugares com sinal ruim de internet ou em celulares de tecnologia defasada.
A Nuvem Shop tem interesse particular na disseminação da tecnologia no Brasil. As plataformas mobile respondem por 60% do fluxo da Nuvem Shop, acima da média do mercado, que está entre 35% a 40%.
Para Sosa, a otimização das plataformas on-line para smartphones é um dos segredos da China que fazem seu varejo eletrônico crescer a impressionantes 20% ao ano. “Eles (chineses) têm a bola de cristal”, afirma.
Quais as perspectivas de crescimento do varejo on-line em 2019?
Hoje, no Brasil e no restante da América Latina, só 3% das vendas do comércio estão on-line. Na China, esse número é de 20%. Isso quer dizer que temos tudo ainda por ser feito. A tecnologia cada vez mais possibilita diferentes tipos de inovação.
Não vemos coisas radicalmente diferentes, mas grande aprimoramento de muito do que já se fazia. Se a gente falar bastante de China, uma coisa muito básica que Brasil e América Latina não entenderam ainda muito bem é a importância dos dispositivos móveis.
A gente fala disso há 10 anos, sobre o potencial dos dispositivos móveis e dos sites responsivos. Na nossa plataforma Nuvem Shop, mais de 60% das vendas são por smartphones, quando o mercado informa vendas entre 30 e 35% nesses dispositivos. Algumas plataformas vão a 40%. Eu insisto muito nesse ponto porque as vezes não se trata de pensar em coisa nova, mas como levar para o seguinte nível aquilo que já está sendo feito.
Como as novas tecnologias podem catapultar o varejo eletrônico?
O PWA promete melhorar dramaticamente a experiência do comprador. Quem é comprador em São Paulo pode ter acesso ao 4G, mas tem muita gente que tem uma conexão um pouco mais lenta e esse tipo de tecnologia faz com que os sites carreguem uma vez só e depois não precisa mais carregar. Acredito que isso pode mudar o jogo, ninguém sabe ainda ao certo porque é muita inovação. Mas a gente vai apostar na tecnologia, que é muito robusta. A Índia já tem vários testes, também os Estados Unidos. Ela é mais interessante em mercados emergentes, onde a infraestrutura não é tão boa.
Uma tendência também para mim muito clara… antigamente, o fluxo de um comprador começava no site ou em uma pesquisa no Google e acabava na loja. Isso está sendo cada vez mais louco no sentido de que começa no metrô, com o celular, às vezes no Instagram. Ele não compra na hora, chega em casa, pega o iPad e procura a marca no Google, entra no Facebook e faz nova pesquisa, mas ainda não compra. Depois, no outro dia, no Notebook da empresa, faz o pagamento. Isso é uma coisa que a gente está falando há bastante tempo, mas insisto que ainda falta muita coisa para que o omnichannel seja concretizado.
A Black Friday está mudando a sazonalidade do consumo no Brasil, como você vê isso?
Eu sou cético e esse tipo de data eu acredito que seja muito positiva porque chama a atenção. Sempre oferece uma boa oportunidade para fazer uma coisa diferente, para pensar uma coisa que a concorrência não pensou. Mas, no fim das contas, é muito difícil fazer dinheiro de verdade porque a margem do mercado eletrônico já é apertada e fazer desconto de 60, 70%…
Acredito que as datas especiais sejam muito importantes, a gente ajuda e fomenta muito os lojistas nesse momento, mas eu sempre falo para eles quando vejo alguém tão preocupado com a Black Friday que é preciso ter cuidado porque o negócio não vive disso. Se prepare para ter um bom negócio no resto do ano.
A Black Friday é uma tendência que não vai parar. É só tomar cuidado para não fazer coisas loucas que possam colocar o negócio em perigo. A China tem o Single’s Day e a bola de cristal. A gente vê que cada vez o Singles’ Day fica maior e maior. Assim como lá, não acho que a Black Friday vá parar por aqui. Pelo contrário, ela vai crescer.
No Single’s Day, a venda via mobile na primeira hora foi acima de 95%. Isso apenas para reforçar esse ponto que a gente precisa insistir em aprimorar os conceitos que existem há alguns anos.
O que explica o Instagram tomando o lugar do Facebook como principal rede social impulsionadora de vendas?
Nossos números relacionados ao tráfego social do Instagram crescem cada vez mais, e os do Facebook diminuem. É impressionante! O que causa isso é difícil, não sei nem se eles mesmo sabem. Mas acredito que em algum ponto o Facebook acabou ficando muito poluído, muitas informações e grupos. O Instagram, em algum ponto, está sendo uma rede com melhor curadoria. Onde o conteúdo é melhor selecionado. Acredito que as pessoas estão gostando mais de consumir informações com apelo visual. E o Instagram tem uma força muito grande nisso. Os números são gritantes.
Eu estive no Facebook neste ano. Eles apresentaram o número de crescimento e a melhor coisa que o Facebook como empresa fez foi comprar o Instagram e o WhatsApp.
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Por que a mudança para o on-line ainda não se reflete totalmente em participação em vendas?
É muito relacionado com esse ponto da omnicanalidade. Antigamente isso se limitava a esse conceito de pesquisar on-line e comprar off-line ou o contrário. Só que isso fica cada vez mais complexo. Hoje, é um processo que talvez tenha quatro ou cinco contatos com a marca.
Quais suas percepções sobre o agravamento da crise econômica argentina?
Como empresa, temos o privilégio de atuar num setor que cresce muito rápido, é como se a crise não fosse aqui. Para quem é privilegiado, como a gente, que tem empresa, estudou, tem formação, não está tão ruim assim, você acaba perdendo a possibilidade de economizar, mas para os mais pobres essa crise está deixando tudo mais apertado, está criando um enorme mal-estar social e o País está bastante polarizado.
Hoje, nosso negócio está metade no Brasil e metade na Argentina. Só que na Argentina, que é menor, tem menos concorrência, nossa presença lá é muito mais notória. E lá também começamos antes. (A empresa foi inaugurada em 2011 e chegou no Brasil em 2012)
O que esperar do novo governo brasileiro?
A gente acaba caindo um pouco na questão ideológica e política. Eu não gosto de ouvir muitas das coisas que o novo presidente fala, me assustam. Mas por outro lado, talvez tendo uma visão um pouco mais fria por ser de fora, sinto que o País pode se beneficiar de uma mudança. Tomara que seja uma mudança mais saudável e positiva. A gente torce muito por isso.
A agenda econômica que foi aplicada na Argentina nos últimos anos é parecida com o que se pretende aplicar aqui. Pode haver um resultado diferente no Brasil?
Eu acredito em ideologias um pouco mais liberais e acho que podem ser produtivas. Agora, se eu tiver que julgar pelo resultado que estamos tendo, não está sendo positivo. É difícil porque depois de 15 anos de governo kirchnerista, de um modelo que, na minha opinião, não funcionava bem… Além disso, a gente está tendo nossa própria versão da Laja Jato Argentina. É muito difícil você fazer uma virada em dois ou três anos. Por outro lado, todo mundo estava esperando muito mais do que foi entregue e muitas pessoas que acreditavam nesse governo estão começando a perder um pouco da esperança.





