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A despedida do orelhão, um ícone das ruas brasileiras

A despedida do orelhão, um ícone das ruas brasileiras

Criados para democratizar a comunicação, os orelhões viveram o auge, a queda e agora se tornam memória em meio à revolução digital.
Orelhões no Brasil a despedida de um ícone das ruas brasileiras
Foto: Shutterstock.com / Andre Osorio
Os “orelhões”, Telefones de Uso Público (TUP), que por décadas foram símbolo de comunicação nas ruas brasileiras desde sua implantação em 1972, estão com os dias contados. Com mais de 1,5 milhão de unidades no auge, principalmente nas décadas de 80 e 90, esse ícone urbano enfrentou a revolução dos celulares. Hoje, restam menos de 40 mil espalhados pelo país, muitos em manutenção. A Anatel autorizou a retirada gradual desses aparelhos até o fim de 2028, permitindo que apenas cerca de 9 mil permaneçam em localidades sem cobertura de celular. A mudança finaliza um capítulo da história das telecomunicações brasileiras.

Em janeiro de 2026, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) autorizou a retirada definitiva dos orelhões do espaço urbano. Assim, deu início à etapa final de um processo que já vinha há anos.

A decisão, que está alinhada às transformações tecnológicas e aos novos hábitos de consumo, define que os aparelhos serão removidos progressivamente até 31 de dezembro de 2028.

A exceção fica por conta de localidades isoladas: em municípios onde não houver cobertura mínima de telefonia móvel (como 4G), um número menor de aparelhos, estimado em cerca de 9 mil unidades, poderá continuar em funcionamento até o prazo final. Isso irá garantir que ninguém fique sem possibilidade de contato em emergências.

“As empresas assumiram compromissos de manutenção da oferta de serviço de telecomunicações com funcionalidade de voz (incluindo os orelhões), em regime privado, por meio de quaisquer tecnologias, em localidades nas quais as empresas forem as únicas prestadoras presentes, até o prazo máximo de 31 de dezembro de 2028”, diz a Anatel.

O nascimento dos orelhões

Em 4 de abril de 1972, os primeiros orelhões ganharam as ruas brasileiras. Projetados pela arquiteta Chu Ming Silveira, eles vieram com um propósito claro: democratizar o acesso à comunicação num País ainda com infraestrutura limitada.

Nas calçadas, eles logo se tornaram parte do cenário urbano, facilmente reconhecíveis por sua cabine oval e cor vibrante. Mais do que equipamentos, os orelhões tornaram-se parte da memória afetiva de gerações. Era comum ver uma fila de espera em frente a esses aparelhos nas manhãs e tardes das décadas de 1980 e 1990.

O auge da telefonia pública

Durante décadas, os orelhões dominaram a paisagem das cidades brasileiras. Eles eram essenciais em um País onde o acesso à telefonia era restrito, e o telefone público significava conexão com o mundo.

Enquanto muitos brasileiros só teriam um telefone pessoal décadas depois, o orelhão representava a porta de entrada para comunicar notícias urgentes, marcar encontros ou manter a comunicação com pessoas distantes.

No auge, estima-se que a rede chegasse a mais de 1,5 milhão de terminais em todo o Brasil, tanto em centros urbanos quanto nas pequenas cidades e estradas federais.

A tecnologia que mudou tudo

Nos anos 1970 e 1980, o uso de orelhões era tão comum que praticamente todo brasileiro tinha alguma história ligada a eles. Na década de 1990, com o fim do sistema estatal de telecomunicações e a privatização, o orelhão ganhou novas versões e cores. Mas a cultura já vinha mudando com a popularização dos celulares.

Entrando no século XXI, o avanço das tecnologias móveis, a expansão dos smartphones e a cobertura quase universal de telefonia celular transformaram o orelhão de ícone urbano em relíquia. O uso dos telefones públicos caiu de maneira rápida e consistente.

À medida que o mercado de telecomunicações evoluiu, o modelo de prestação de serviços também mudou. Com o fim das concessões de telefonia fixa e a adaptação de contratos ao regime de autorização em 2025, as empresas deixaram de ter obrigação de manter esses equipamentos no mesmo patamar de antes.

Números que contam história

Segundo dados da Anatel, o Brasil passou por uma redução extraordinária no número de orelhões:

  • Início da década de 2020: eram mais de 202 mil aparelhos espalhados pelo País;
  • Final de 2024: cerca de 84.938 unidades foram registradas;
  • Dezembro de 2025: o total caiu para aproximadamente 38.454.

Desses, 86,8% estavam em funcionamento ou ativos (o que significa que eram capazes de realizar chamadas), e uma parte (13,2%) estava em manutenção, aguardando reparos ou sem uso imediato.

A tendência de queda radical reflete anos de desuso e abandono, à medida que a população migrou para celulares cada vez mais acessíveis e confiáveis.

Operadoras e o legado dos TUPs

Os Telefones de Uso Público (TUP) eram implantados e mantidos pelas concessionárias de telefonia fixa como parte das obrigações regulatórias. Com a renovação das regras de telecomunicações no Brasil, essas obrigações mudaram.

Hoje, operadoras como Oi figuram como detentoras de muitos dos últimos aparelhos remanescentes: cerca de 6.707 unidades, segundo a Anatel. Vivo, Claro/Telefônica e Algar, estão gradualmente retirando os cerca de 2 mil aparelhos operados por elas.

Esse movimento é um reflexo da modernização do setor: as empresas agora focam em tecnologias de banda larga e telefonia móvel, segmentos que hoje atendem à maioria absoluta das necessidades de comunicação dos brasileiros.

Memória e legado

Os orelhões não foram apenas equipamentos de telecomunicação, mas parte da experiência urbana brasileira. Eles conectaram pessoas em uma época em que fazer uma ligação muitas vezes exigia procurar o telefone mais próximo, ter troco nas mãos e enfrentar filas em horários de pico.

Hoje, com a extinção planejada até 2028, o País se despede desse símbolo, custeado por décadas pelas operadoras e exigido em contratos de universalização. A história do orelhão conta a história da democratização da comunicação no Brasil.

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