Se o omnichannel redefiniu a forma como marcas e consumidores interagem, garantindo uma jornada fluida entre o digital e o físico, o próximo passo é ainda mais imersivo: o omnisense. A nova abordagem amplia a experiência ao ativar múltiplos sentidos – visão, audição, tato, olfato e até paladar –, criando conexões mais profundas e memoráveis.
Segundo a agência anacouto, a aposta agora é transformar interações em experiências sensoriais completas, onde cada detalhe contribui para gerar impacto emocional e fortalecer a relação entre marcas e clientes.
Ao combinar inovação e sensorialidade, o omnisense resgata o poder de sentir, indo além do engajamento momentâneo para construir memórias duradouras. O multissensorial se traduz em inovação: Realidade Aumentada, sons personalizados, texturas táteis, cheiros exclusivos e ambientes imersivos tornam-se ferramentas para surpreender e encantar. A tecnologia não sobrecarrega; ela se torna um meio para despertar os sentidos, equilibrando modernidade com presença real.
“O processo tem muito a ver com sinais que temos observado ao longo dos anos. Casos antigos que já discutiam um pensamento mais voltado para a sensorialidade dentro da experiência do consumidor”, comenta Hugo Rafael, sócio e vice-presidente de experiência da agência anacouto. “Outro ponto que temos observado ao longo dos anos, principalmente após a pandemia, é o fortalecimento do movimento em busca de experiências reais”.
Experiências reais
Um exemplo recente é o cansaço das pessoas com os sites e aplicativos de namoro, o que tem levado ao surgimento de comunidades onde indivíduos indicam estar solteiros trocando a meia do sapato. Esses movimentos foram sinais analisados pela agência, que trabalha há anos com o conceito de “Brand Moment“, ou momentos de encantamento da marca. São momentos memoráveis e, segundo a agência, sempre que há uma oportunidade de se conectar com o consumidor, é preciso fazer com que ele se lembre da marca.
“A maneira como o público se lembra de uma marca está diretamente ligada à capacidade de despertar sentimentos. O consumidor não lembra exatamente do produto ou serviço que utilizou, mas lembra do que sentiu”, frisa Hugo. Então, quanto mais estímulos são inseridos dentro de uma experiência para despertar sentidos, mais é possível instigar memórias afetivas em relação à marca.
A aplicação no omnisense na prática
De forma prática, o PDV (Ponto de Venda) passa a ser chamado de “Ponto de Experiência“. Isso porque foi entendido que todo momento de interação é uma oportunidade de despertar experiências. Assim, o PDV é trabalhado considerando a jornada do consumidor e buscando formas de conexão além da exposição do produto.
“Podemos criar estímulos educacionais dentro de uma gôndola, onde os consumidores aprendem algo novo, ou integrar experiências digitais relacionadas ao produto, mesmo que não estejam diretamente ligadas ao momento da compra. O objetivo é entender a jornada do consumidor, suas dúvidas, e como responder a essas questões por meio de estímulos sensoriais que vão além do simples ato de pegar um produto, colocá-lo no carrinho e levá-lo para casa”, explica.
O ambiente de loja deve ter um cheiro característico, oferecer um café e incentivar o consumidor a passar mais tempo ali. Assim, a experiência é mais imersiva e acolhedora, sem a sensação de pressa para entrar e sair rapidamente. Ao olhar para a jornada do consumidor, é importante identificar quais estímulos podem ser explorados para criar sentimentos que vão além da compra tática.
“As pessoas gostam de compartilhar momentos que estão vivenciando, e experiências diferenciadas aumentam a probabilidade de compartilhamento. Entretanto, isso não significa abandonar a tecnologia. Pelo contrário, entendemos que a tecnologia deve ser usada para resolver atritos e proporcionar encantamento, como no caso das experiências imersivas e exposições interativas”, destaca.
Desafios
Nesse cenário, o desafio é integrar interações físicas e digitais de forma surpreendente, criando memórias dentro da jornada de compra. Um dos principais desafios, que não está exclusivamente ligado às experiências multissensoriais, mas que impacta diretamente sua implementação, é a governança de dados. Para construir essas experiências, é essencial conhecer bem o consumidor. Se uma marca já se relacionou com ele, deve gerenciar esse conjunto de informações de forma estruturada para personalizar cada vez mais as interações.
Outro desafio é a mudança de mentalidade dentro das marcas, principalmente no varejo, onde há um foco muito grande na exposição de produtos. Equilibrar a necessidade de exibição dos produtos com a criação de experiências diferenciadas no ponto de venda. Assim, é essencial explorar diferentes formas de conexão com o consumidor, indo além do visual e incorporando outros estímulos sensoriais, como som, tato e até paladar. A ideia é construir marcas que realmente se diferenciam e gerem vínculos emocionais com o público.
Omnisense no varejo
Dentro do varejo, o omnisense pode ser aplicado de forma ampla. No setor de moda, por exemplo, marcas de luxo têm criado espaços, como os cafés da Dior e de outras grifes, permitindo novas formas de conexão com o público.
“Essas estratégias não apenas ampliam o mercado de atuação das marcas, mas também consolidam seu posicionamento. Alguém pode não ter poder aquisitivo para comprar uma bolsa de uma marca de luxo, mas pode consumir um café da marca e, dessa forma, estabelecer um vínculo com ela. No varejo, há muita oportunidade”, pontua Hugo.
Esse tipo de abordagem gera relacionamento e percepção de valor, o que pode, no futuro, converter aquele consumidor em um cliente fiel. Portanto, essas iniciativas vão além da busca por receita. Elas são pensadas para fortalecer o posicionamento da marca e criar formas de conexão emocional com o público. “Assim, é possível abrir o mercado ao lançar diferentes artifícios que vão se conectar com outras pessoas”, complementa.
O executivo reforça ainda que as marcas precisam se conectar sensorialmente, mesmo que visualmente. Elas utilizam representações visuais para transmitir sensações, como o cheiro, por meio de imagens. Além disso, podem explorar outros elementos, como som. No ambiente digital, os sons podem ser usados para estimular emoções e criar redes, seja por meio de dispositivos móveis ou desktops. Desta forma, a imagem e o que podem ir além da simples exposição de produtos e contribuir para experiências mais envolventes.
Ativação de sentidos e memória afetiva
Trabalhar a criação de memórias é um fator fundamental para a fidelização. Isso porque o consumidor se registra mais da sensação vívida do valor gasto ou da quantidade de atrações visitadas. Criar experiências memoráveis torna a marca mais difícil de ser copiada e fortalece o vínculo com o público. Essa lógica se aplica a diversas áreas.
“Quando projetamos uma embalagem dentro de uma agência, por exemplo, não pensamos apenas no design, mas em toda a jornada do consumidor. Desde o momento em que ele vê a embalagem na prateleira, até quando a coloca no carrinho e, por fim, quando a utiliza. Há diferentes formas de interagir com esse consumidor”, explica.
No segmento de luxo, essas experiências são ainda mais relevantes, pois estão fortemente ligadas ao lifestyle. O consumidor se conecta com a marca porque ela representa seu estilo de vida. Por exemplo, algumas lojas de luxo criam espaços exclusivos para os seus clientes, como áreas de convivência com champanhe ou café, proporcionando uma experiência diferenciada. As parcerias também são estratégias interessantes para expandir as sensações que o consumidor tem com a marca.
Tendências globais do omnisense
No cenário global, há um movimento das marcas, que passaram a investir em lojas próprias, como flagships e pop-up stores, onde realizam ativações para fortalecer sua identidade. A tecnologia tem um papel fundamental nessas transformações e no relacionamento diferenciado entre marcas e consumidores. Mas, de forma geral, o foco está em expandir o posicionamento das marcas.
No entanto, mais do que apenas replicar tendências globais, o importante é entender como diferenciar-se e gerar valor para o consumidor de maneira escalável, seja apenas no Brasil ou internacionalmente. Além disso, fora do Brasil não há nada tão diferente do que tem sido buscado aqui em termos de construção de experiências. Ao mesmo tempo, por aqui, há desafios, especialmente para pequenas marcas.
“Muitos dos nossos clientes menores buscam um posicionamento diferenciado. Investem na construção de identidade e diferenciação”, explica. “Por outro lado, grandes marcas estão mais focadas na disponibilidade do produto para o consumidor, investindo fortemente em mídia aberta e remarketing digital. Nesse sentido, as marcas menores tendem a inovar mais na experiência do cliente, enquanto algumas marcas maiores ainda encaram o ponto de venda apenas como um local de transação, e não como um espaço de relacionamento com o consumidor”.
Omnisense na prática
Para aplicar o conceito omnisense, Hugo comenta que são pequenos detalhes que fazem a diferença. O segredo está em mapear a jornada do consumidor e identificar pontos-chave onde pequenos ajustes podem agregar valor e gerar mais engajamento com a marca.
O pensamento estratégico da jornada é fundamental, pois permite qualificar investimentos e criar momentos de encantamento que aumentam a relevância da marca. Além disso, é necessário conhecer melhor o consumidor, personalizar estratégias para diferentes regiões, respeitando suas particularidades culturais.
“A jornada do consumidor é cíclica, e manter esse engajamento é essencial para evitar que ele migre para a concorrência. A base da construção de experiências está na compreensão da jornada e do comportamento de consumo”, finaliza.





