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Falta de controle financeiro atinge 47% dos adolescentes e afeta saúde mental

Falta de controle financeiro atinge 47% dos adolescentes e afeta saúde mental

Desorganização financeira e pressão social gera endividamento precoce e pode trazer estresse e ansiedade; veja as análises de especialistas.
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A relação dos jovens com o dinheiro envolve emoções, pressão social e pode gerar ansiedade e endividamento precoce. Pesquisas apontam que quase metade da Geração Z não controla suas finanças, reforçando a importância da educação financeira desde cedo. Iniciativas como a da startup Investeendo usam jogos e métodos lúdicos para ensinar organização e escolhas conscientes, formando bases para uma vida adulta mais equilibrada.

Será que o dinheiro traz mesmo felicidade? A forma como os adolescentes lidam com as finanças vai muito além de cálculos matemáticos: envolve emoções, identidade e pressão social. A busca por pertencimento, a baixa tolerância à frustração e a dificuldade de planejar a longo prazo tornam os jovens mais vulneráveis ao consumo imediato e às comparações com os pares, fatores que podem desencadear ansiedade, baixa autoestima e até endividamento precoce.

Essa relação entre dinheiro e bem-estar emocional, muitas vezes invisível, é destacada por Pedro Rujano, psicólogo dos hospitais São Marcelino Champagnat e Universitário Cajuru. “Quando o jovem desenvolve autoconhecimento, controle emocional e hábitos de organização, consegue tomar decisões mais conscientes e com sentido, reduz o estresse ligado às finanças e constrói bases mais sólidas para a vida adulta”, afirma.

Geração Z não controla suas finanças

A conexão entre dinheiro e bem-estar emocional está cada vez mais evidente. Uma pesquisa da fintech Onze em parceria com a Icatu, revela que 49% dos brasileiros apontam o dinheiro como a principal fonte de preocupação – índice muito superior a temas como saúde (19%), família (15%) e trabalho (7%), violência (7%) e política (3%).

Entre os jovens, o cenário também preocupa. Um levantamento da CNDL e SPC Brasil mostra que 47% da Geração Z, nascidos entre 1995 e 2010, não controlam suas finanças pessoais. Os jovens apontam não saber fazer esse controle (19%), sentir preguiça (18%), não ter hábito ou disciplina (18%) ou não ter rendimentos (16%). Ainda de acordo com a pesquisa, 26% ainda afirmam usar um bloquinho de papel para fazer o controle das despesas do mês.

Papel da educação financeira lúdica

A educação financeira se mostra importante desde o início da vida adulta, ao ensinar não apenas conceitos como juros compostos, crédito rotativo e reserva de emergência, mas também a lidar com impulsos de consumo, negociar dívidas e diferenciar necessidades de desejos. Com práticas simples, como registrar gastos, definir metas e reservar parte da renda para imprevistos, é possível reduzir a ansiedade, conquistar maior previsibilidade e fortalecer a confiança na relação com o dinheiro.

Para aproximar os jovens do universo das finanças, a startup Investeendo desenvolveu uma metodologia que une educação financeira e gamificação. A iniciativa utiliza jogos de tabuleiro, aplicativos e totens digitais para transformar o aprendizado em uma experiência lúdica e atrativa para serem aplicados dentro e fora da sala de aula. Ao completar tarefas, os estudantes acumulam moedas fictícias que podem ser trocadas por benefícios práticos – como prazos maiores para entregar trabalhos, provas em dupla ou itens físicos disponibilizados em uma “lojinha”. Essa abordagem faz com que o tema, muitas vezes visto como chato ou distante, seja incorporado de forma natural ao dia a dia escolar.

“Quando o jovem aprende desde cedo a organizar seus gastos e a compreender a importância de escolhas conscientes, ele evita problemas financeiros no futuro e reduz significativamente os riscos emocionais que acompanham a falta de planejamento”, afirma Sam Adam Hoffmann, CEO da Investeendo.

A startup já impactou mais de seis mil jovens em três estados brasileiros, com presença em mais de 40 instituições de ensino. Até 2027, a Investeendo planeja atingir 100 mil jovens da periferia, ajudando-os a construir uma relação mais saudável e equilibrada com o dinheiro. Os jogos também podem ser feitos de forma personalizada para cada organização ou escola, além de ter a duração decidida conforme a necessidade, podendo ser de um dia ou até mesmo meses.

Conscientização começa na infância

“A educação financeira pode começar ainda na infância e evoluir conforme a idade. Pequenas dicas e orientações ao longo desse processo fazem toda a diferença, pois ajudam as crianças a criarem hábitos saudáveis desde cedo e, na juventude, contribuem para que façam escolhas mais conscientes e responsáveis”, comenta Vanessa Cristiane Motta de Matos, sócia-fundadora da Investeendo.

De acordo com Vanessa, a partir dos três anos, por exemplo, as crianças já conseguem compreender conceitos básicos ligados à quantidade, mesmo sem noção real de valores monetários. É o momento ideal para introduzir a ideia de escolhas. Em atividades simples no mercado, os pais podem permitir que o filho leve apenas um produto, reforçando que não é possível ter tudo ao mesmo tempo. Segundo educadores, mesmo que a criança se frustre, a experiência transmite responsabilidade e autonomia, já que a decisão final foi dela.

Entre os sete e os dez anos, quando passam a entender o valor das moedas e notas, as crianças podem ser estimuladas a lidar com pequenas quantias. Uma estratégia é entregar um valor fixo para compras no mercado e, depois, discutir se a escolha foi a mais adequada. Também é possível envolver os pequenos no planejamento doméstico: definir um orçamento para a lista de compras, apagar as luzes ao sair dos cômodos ou fechar torneiras ajudam a relacionar economia com ganhos futuros – como um passeio em família.

Com adolescentes, o desafio se torna maior

Muitos adolescentes já conhecem os valores monetários, mas não os relacionam com os gastos familiares. Vanessa comenta que apresentar as contas da casa, mostrar quanto entra e quanto sai a cada mês, e ensinar a analisar extratos e faturas são formas de aproximar o adolescente da realidade financeira. É também o momento de abrir uma conta bancária e explicar conceitos básicos sobre cartão de crédito, juros e investimentos.

Ao ingressar no mercado de trabalho, como estagiários ou aprendizes, os adolescentes precisam aprender a organizar o primeiro salário. A orientação é estabelecer metas e criar disciplina desde cedo. “Uma regra prática é separar 15% para investimentos, 15% para poupança destinada a objetivos maiores e utilizar o restante conforme necessidades e desejos pessoais. Assim, os jovens aprendem que educação financeira não significa abrir mão de gastos supérfluos, mas sim equilibrar consumo, economia e planejamento”, complementa Vanessa.

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