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Jornada 6×1: menos horas significam mais IA no varejo?

Jornada 6×1: menos horas significam mais IA no varejo?

Enquanto o debate sobre a redução da jornada de trabalho avança, especialistas avaliam como IA, automação e análise de dados podem ajudar varejistas a preservar produtividade e eficiência
Entenda como a redução da jornada de trabalho pode acelerar investimentos em tecnologia, automação e gestão no varejo alimentar brasileiro.
Consumidor utiliza terminal de autoatendimento em supermercado, ilustrando a digitalização das operações e o uso de tecnologias para ampliar a eficiência no varejo.
Shutterstock
A possível redução da jornada de trabalho pode acelerar a transformação do varejo brasileiro, impulsionando investimentos em Inteligência Artificial, automação e monitoramento para manter a produtividade. Especialistas avaliam que o desafio vai além de trabalhar menos horas e passa por redesenhar processos, desenvolver novas competências e equilibrar tecnologia com o fator humano.

Muito antes da chegada dos primeiros consumidores, o varejo brasileiro já está em movimento. Equipes abastecem gôndolas, recebem mercadorias, organizam estoques e monitoram equipamentos. Quando as lojas fecham, outra operação começa. Limpeza, reposição e preparação para o dia seguinte mantêm a engrenagem funcionando praticamente sem interrupções.

Essa dinâmica ajuda a explicar por que o varejo ocupa uma posição estratégica na economia brasileira. Segundo a Associação Brasileira de Supermercados (Abras), o comércio responde por cerca de 22,9% do Produto Interno Bruto (PIB) na metodologia restrita e supera 27% quando considerada a metodologia ampliada. Somente o varejo alimentar representa mais de 9% do PIB e gera aproximadamente 9 milhões de empregos diretos.

Ao mesmo tempo, o setor continua demonstrando capacidade de adaptação. Dados da Pesquisa Mensal de Comércio (PMC), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que o volume de vendas do comércio varejista avançou 0,1% em maio, na comparação com abril, interrompendo a retração registrada no mês anterior. No acumulado de 2026, a alta chega a 1,7%, enquanto o crescimento em 12 meses alcança 1,4%.

Esse desempenho reforça a resiliência do consumo, mesmo em um ambiente marcado por juros elevados, crédito mais restrito e mudanças no comportamento dos consumidores.

É justamente nesse cenário que ganha força outra discussão: como manter operações que funcionam durante praticamente todo o tempo caso a jornada de trabalho seja reduzida?

O novo desafio

A proposta de redução da jornada de trabalho reacendeu um debate que vai além das relações trabalhistas. Para setores intensivos em mão de obra, como o varejo, a discussão também envolve produtividade, disponibilidade de equipes e continuidade da operação.

O desafio se torna ainda mais relevante porque nem todos os segmentos apresentam o mesmo desempenho. Segundo o IBGE, hiper e supermercados, alimentos, bebidas e fumo registraram retração de 1,5% em maio, tornando-se o principal fator de contenção do resultado geral do varejo.

Em um ambiente de margens tradicionalmente apertadas, preservar eficiência operacional passa a ser uma prioridade ainda maior.

É nesse ponto que especialistas começam a olhar para a tecnologia como parte da resposta. Inteligência Artificial, automação, monitoramento remoto e análise de dados despontam como ferramentas capazes de apoiar decisões, otimizar processos e reduzir desperdícios, sem comprometer a experiência do consumidor.

Redução da jornada acelera a transformação

Se a redução da jornada de trabalho avançar, a transformação digital do varejo poderá ganhar velocidade. Especialistas avaliam que investimentos em Inteligência Artificial, automação, monitoramento remoto e análise de dados tendem a deixar de ser apenas iniciativas de inovação para se tornarem ferramentas estratégicas de produtividade.

Para Sami Diba, CEO da Neo Estech, ecossistema especializado em gestão e monitoramento inteligente de equipamentos para o varejo, a discussão não deve se limitar ao número de horas trabalhadas.

“A questão central é como manter produtividade, disponibilidade operacional e qualidade de serviço em um cenário com menos presença humana. Isso exigirá mais automação, mais monitoramento e mais inteligência aplicada à operação das lojas.”

A avaliação parte da experiência da empresa no setor supermercadista. Atualmente, o Neo Estech monitora mais de 55 mil equipamentos por meio de aproximadamente 300 mil sensores ativos, distribuídos em redes que representam mais de 52% do varejo alimentar brasileiro. Entre os clientes estão Carrefour, Assaí Atacadista, Savegnago e Supermercados Pague Menos.

Na avaliação de Diba, a automação também deve alterar o perfil da força de trabalho. Embora algumas atividades tendam a ser automatizadas, a demanda por profissionais especializados em tecnologia, monitoramento remoto, manutenção de sistemas inteligentes e análise de dados deve crescer nos próximos anos.

“O que vemos em outros mercados é que mudanças na jornada de trabalho acabam acelerando investimentos em tecnologia. Algumas atividades passam a ser automatizadas, mas isso também cria novas funções ligadas à gestão de dados, monitoramento remoto, manutenção especializada e operação de sistemas inteligentes.”

O fator humano

Se a tecnologia tende a ganhar espaço nas operações, ela não elimina outro elemento essencial para a produtividade: as pessoas. Especialistas afirmam que a redução da jornada só produzirá resultados positivos se vier acompanhada de mudanças na forma como as empresas organizam o trabalho e desenvolvem suas equipes.

Para Rodrigo de Barros, pesquisador e doutor pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), a produtividade não pode ser medida apenas pelo número de horas trabalhadas. Segundo ele, a criatividade, uma das competências mais valorizadas no futuro do trabalho, depende de condições que favoreçam a aprendizagem, a reflexão e a inovação.

“A criatividade não surge sob pressão permanente. Ela depende de processos de aprendizagem, reflexão e elaboração que exigem tempo e condições cognitivas adequadas.”

A afirmação é resultado de uma pesquisa de doutorado desenvolvida na UTFPR sobre a relação entre pressão temporal e criatividade nas organizações. O estudo deu origem a um sistema capaz de diagnosticar fatores que comprometem a inovação e recomendar intervenções para áreas de recursos humanos e lideranças.

Na avaliação do pesquisador, jornadas excessivas, interrupções constantes e a hiperconectividade levam profissionais a concentrar esforços em soluções imediatas, reduzindo a capacidade de resolver problemas complexos e desenvolver novas ideias.

Essa percepção encontra respaldo em experiências internacionais realizadas em países como Islândia, Japão, Nova Zelândia e Reino Unido. Segundo Rodrigo de Barros, empresas que adotaram jornadas reduzidas registraram aumento da produtividade, queda no absenteísmo, menor rotatividade e equipes mais engajadas. Mas, em vez de simplesmente diminuir as horas trabalhadas, essas organizações redesenharam processos, eliminaram reuniões desnecessárias e criaram mais espaço para atividades que exigem concentração.

“À medida que atividades repetitivas passam a ser automatizadas, cresce o valor das competências exclusivamente humanas, como criatividade, pensamento crítico, colaboração e capacidade de formular novas perguntas. O diferencial competitivo das empresas não estará na quantidade de horas que seus profissionais permanecem conectados, mas na qualidade das ideias que conseguem produzir.”

Na visão do pesquisador, esse cenário reforça que a discussão sobre a redução da jornada vai além da legislação trabalhista. Para ele, empresas que conseguem equilibrar tecnologia, desenvolvimento humano e ambientes favoráveis à inovação estarão mais preparadas para enfrentar um mercado cada vez mais competitivo.

O caso do Espírito Santo

Embora a proposta que reduz a jornada de trabalho ainda esteja em discussão no Congresso Nacional, uma experiência recente no Espírito Santo oferece pistas sobre os desafios que o varejo poderá enfrentar caso parte das empresas opte por fechar as portas aos domingos para adequar suas operações.

Levantamento da Scanntech, empresa especializada em inteligência de mercado para o varejo e a indústria de bens de consumo, analisou os primeiros efeitos da convenção coletiva que passou a exigir o fechamento de supermercados e atacarejos aos domingos no estado, em março deste ano.

Os dados mostram uma mudança no comportamento do consumidor e no desempenho das vendas. No segundo bimestre de 2026, o faturamento do varejo alimentar no Espírito Santo recuou 1,3%, enquanto o restante do País registrou crescimento de 0,7%. Antes da mudança, porém, o cenário era diferente: o estado crescia 3%, acima da média nacional, de 2,3%.

Para Priscila Ariani, diretora de Marketing da Scanntech, é importante separar o fechamento das lojas da discussão sobre a escala de trabalho.

“O estudo trata do fechamento comercial aos domingos, e não da forma como as escalas de trabalho são organizadas. São questões distintas, já que a mudança na escala dos funcionários não implica, necessariamente, no fechamento da loja. Ainda assim, o cenário do Espírito Santo serve como referência para avaliar, na prática, possíveis impactos sobre o varejo alimentar brasileiro.”

Além da redução do faturamento, o levantamento identificou mudanças na rotina de compras. No primeiro mês da medida, consumidores concentraram as compras no início da semana. As vendas cresceram 15% nas segundas-feiras e 25,3% nas terças-feiras, em comparação com fevereiro. Já em abril, o fluxo passou a migrar para o meio da semana, com altas de 14,8% nas quartas-feiras e 34,3% nas quintas-feiras, indicando adaptação gradual à nova dinâmica.

Segundo a executiva, algumas categorias sentiram impactos mais intensos por contarem com canais alternativos de venda.

“Os resultados reforçam que categorias com maior presença em outros canais tendem a ser mais afetadas nos supermercados quando o domingo deixa de ser uma opção de compra. Nesses casos, o consumidor encontra alternativas mais próximas para migrar, como açougues, farmácias e lojas especializadas.”

Por enquanto, o estudo representa um recorte inicial. Ainda assim, os dados indicam que mudanças na organização das operações podem influenciar não apenas a rotina das empresas, mas também a forma como os consumidores compram.

Automação exige novas competências

À medida que a discussão sobre a redução da jornada avança, especialistas também chamam a atenção para outro desafio: preparar os profissionais para um varejo cada vez mais tecnológico. Na avaliação de Fred Torrës, sócio sênior do Grupo Hub, consultoria especializada em recrutamento e seleção de pessoas, a possível mudança na legislação pode acelerar investimentos em IA e automação, antecipando decisões que muitas empresas planejavam adotar apenas nos próximos anos.

“Quando o custo da mão de obra aumenta em decorrência de mudanças regulatórias, as empresas tendem a buscar alternativas para preservar eficiência e competitividade. No varejo, isso já vinha acontecendo em ritmo gradual, com caixas de autoatendimento, gestão automatizada de estoque e chatbots no ambiente online. O que a PEC faz é acelerar esse processo.”

De acordo com o especialista, a transformação deve começar pelas operações internas, como gestão de estoque e logística, áreas em que a automação pode ser implementada com menor impacto direto na experiência do consumidor. Já o atendimento tende a mudar de forma mais gradual, já que o relacionamento continua sendo um importante fator de fidelização no varejo brasileiro.

Para Torrës, a tecnologia também deve transformar o mercado de trabalho. Algumas funções repetitivas tendem a perder espaço, enquanto novas atividades ligadas à análise de dados, automação e experiência digital ganham relevância.

“O principal desafio não é apenas a substituição de determinadas atividades, mas a velocidade dessa transformação. Se ela ocorrer rápido demais, sem uma política consistente de requalificação profissional, há o risco de um descompasso entre a adoção tecnológica e a preparação da mão de obra.”

Um movimento que já começou

Embora a proposta de redução da jornada de trabalho ainda esteja em tramitação no Congresso Nacional, o varejo já passa por um processo de transformação. Segundo especialistas, esse movimento é impulsionado por fatores que vão além da legislação. Entre eles, a dificuldade para preencher vagas operacionais, o avanço da Inteligência Artificial e a digitalização das lojas.

A revisão de processos também é impulsionada por investimentos em novas formas de gestão. Ao mesmo tempo, a tecnologia passa a dividir espaço com outro ativo estratégico: o desenvolvimento das pessoas.

Nesse cenário, a discussão deixa de envolver apenas a redução da jornada. O desafio passa a ser outro: construir operações mais produtivas, sustentáveis e preparadas para atender às novas expectativas de consumidores e trabalhadores.

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