A menos de três semanas do primeiro turno das eleições de 2026, uma das mudanças trabalhistas mais relevantes em discussão no Congresso está pronta para chegar ao Plenário do Senado. A PEC 221/2019, que acaba com a escala 6×1, reduz gradualmente a jornada máxima de 44 para 40 horas semanais e garante dois dias de repouso, sem redução salarial, foi aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) em 2 de setembro.
Agora, a proposta aguarda inclusão na Ordem do Dia do Plenário. Por se tratar de uma emenda à Constituição, precisará passar por dois turnos e receber ao menos 49 votos em cada um para ser aprovada. A CCJ também aprovou um calendário especial para abreviar os prazos regimentais.
O avanço ocorre em plena campanha eleitoral e aumenta a pressão política em torno de uma pauta que ganhou forte apoio social, mas está longe de produzir consenso sobre seus efeitos econômicos. De um lado, pesquisas mostram que a maioria dos brasileiros quer trabalhar menos dias. De outro, entidades empresariais alertam para custos, produtividade e possíveis impactos sobre emprego, salários e preços.
Para as empresas, portanto, a questão começa a mudar. Mais do que acompanhar se a PEC será aprovada, organizações precisam avaliar como manter operações, atendimento e produtividade com menos horas disponíveis por trabalhador.
Apoio não é unanimidade
Um levantamento mais recente reforça que o apoio à mudança permanece elevado. Pesquisa nacional do Instituto Locomotiva, divulgada em setembro de 2026, aponta que 78% dos brasileiros – cerca de 128 milhões de pessoas – defendem o fim da escala 6×1 e a adoção do modelo 5×2, com jornada de 40 horas semanais. O apoio atravessa diferentes grupos: chega a 96% entre pessoas identificadas com a esquerda, 61% entre as de direita e 86% entre integrantes da Geração Z.
Pesquisa Datafolha realizada em março de 2026 mostrou que 71% dos brasileiros defendiam a redução do número máximo de dias trabalhados por semana, enquanto 27% eram contrários. O apoio havia crescido sete pontos em relação ao levantamento de dezembro de 2024, quando atingia 64%.
Entretanto, outros levantamentos mostram que a fotografia é mais complexa. Em maio, a Genial/Quaest encontrou 68% favoráveis ao fim da escala 6×1 e 22% contrários. O apoio havia recuado em relação a dezembro de 2025, quando estava em 72%. Entre os brasileiros com renda superior a cinco salários mínimos, a rejeição chegava a 30%. Já entre eleitores bolsonaristas, havia praticamente um empate: 44% apoiavam o fim da escala e 42% eram contrários.
Outro levantamento, da Nexus, apontou em fevereiro que 73% apoiariam o fim da 6×1 sem redução salarial. Ao mesmo tempo, a pesquisa revelou uma lacuna importante: 35% dos entrevistados nunca tinham ouvido falar da discussão e apenas 12% afirmavam entender bem o que estava sendo proposto.
Ou seja, existe maioria favorável à mudança, mas isso não significa consenso sobre como implementá-la, quais serão seus efeitos ou quem absorverá os custos da transição.

A conta da produtividade
É justamente nesse ponto que entra um dos principais argumentos contrários à mudança. Estudo encomendado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) à Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) estima que, se empregos e salários forem preservados, a redução da jornada provocaria queda de aproximadamente 7,8% no total de horas trabalhadas. Para compensá-la, a produtividade por hora teria de crescer entre 8,3% e 8,5%.
O problema, segundo o levantamento, é a velocidade histórica desse avanço. Entre 1981 e 2024, a produtividade por hora trabalhada cresceu, em média, 0,5% ao ano. Nesse ritmo, seriam necessários cerca de 17 anos para acumular o ganho estimado. Considerando a média dos últimos seis anos, de 0,28% ao ano, o intervalo se aproximaria de 30 anos.
“Não existe país que sustente sua competitividade sem produtividade. Ela é o que permite produzir mais e gerar mais valor com os recursos disponíveis”, afirma Ricardo Alban, presidente da CNI. Segundo ele, quando a produtividade é afetada, empresas enfrentam maior dificuldade para investir, competir e remunerar melhor os trabalhadores.
A necessidade de adaptação também muda conforme o setor. Nas estimativas da CNI, a agropecuária precisaria elevar a produtividade em até 13,6%; o comércio, em 10,6%; a indústria extrativa, em 10,4%; a construção, em 9,8%; e a indústria de transformação, em 9,3%.

Operação terá de mudar
Para Thaiz Nobrega, especialista em Direito do Trabalho do Albuquerque Melo Advogados, a redução da jornada não deve ser tratada apenas como uma mudança de quatro horas no calendário semanal.
“Mais do que uma alteração de horas trabalhadas, a mudança exigirá uma revisão da própria organização do trabalho em muitos setores. Escalas, turnos, contratos e instrumentos coletivos precisarão ser analisados”, afirma.
O próprio texto aprovado pela CCJ prevê uma transição. Dois meses após eventual promulgação, a jornada máxima cairia de 44 para 42 horas. A jornada de 40 horas entraria em vigor 14 meses depois da promulgação.
Isso coloca setores de funcionamento contínuo diante de um desafio maior. Comércio, supermercados, restaurantes, hospitais, serviços, indústrias e outras operações que dependem de cobertura extensa não podem simplesmente retirar quatro horas da semana sem redistribuir pessoas e horários.
Segundo Thaiz, não existe uma solução única. Algumas empresas poderão reorganizar turnos. Outras poderão recorrer mais à negociação coletiva, ampliar equipes ou rever contratos e horários.
“A adaptação não deverá ocorrer simplesmente reduzindo quatro horas de uma semana para outra. Empresas terão de rever escalas, turnos, contratos e instrumentos coletivos”, explica. A especialista também aponta que automação, reorganização de equipes e novas contratações podem fazer parte desse processo.
E a negociação coletiva já ocupa papel central nessa discussão. No estudo CNI/Fipe, temas relacionados à jornada aparecem em 81,5% dos acordos e convenções coletivas analisados, mais de 37 mil instrumentos em 12 meses. Em 61,8%, existem cláusulas diretamente relacionadas à distribuição do tempo de trabalho.
Automação ganha espaço
No varejo, uma das respostas pode estar na tecnologia.
Para Hailton Santos, diretor Comercial da Sesami, empresa global de tecnologia e serviços focada na gestão e automação de ecossistemas de dinheiro (caixa e numerário) para o varejo e instituições financeiras, a discussão sobre a 6×1 expõe uma questão que o setor já enfrenta: aumentar eficiência sem comprometer a experiência do consumidor ou ampliar a sobrecarga dos funcionários.
“A discussão sobre a escala 6×1 evidencia uma realidade que o varejo já enfrenta: as empresas precisam operar com mais eficiência, mas não podem comprometer a experiência do consumidor nem sobrecarregar suas equipes”, afirma.
Segundo Santos, processos como conferência de valores, transporte de numerário, abertura e fechamento de caixas, registros operacionais e controles de segurança ainda consomem parte relevante do tempo das equipes.
A automação desses processos pode liberar trabalhadores para atendimento, reposição, organização das lojas, prevenção de perdas e resolução de problemas do consumidor.
“A automação deve ser encarada como uma aliada da força de trabalho. Ela permite que o varejista mantenha a operação funcionando com mais previsibilidade e, ao mesmo tempo, ofereça aos funcionários uma rotina menos desgastante e mais focada em atividades de maior impacto”, diz Santos.
Nesse cenário, reduzir jornada sem reduzir capacidade operacional transforma produtividade em uma discussão cada vez menos abstrata. Ela passa pela revisão de processos, incorporação de tecnologia e decisão sobre quais atividades realmente precisam consumir horas humanas.
Geração Z pressiona
Mas a discussão não é apenas econômica.
A chegada da Geração Z ao mercado intensificou uma mudança nas expectativas sobre trabalho. Pesquisa realizada pela Air Branding em parceria com a SmartCommns, com 29 empresas respondentes, identificou notas próximas do máximo para atributos ligados à remuneração e aos benefícios: remuneração condizente recebeu nota 4,88 e pacote de benefícios, 4,84, em uma escala de 1 a 5.
Entretanto, dinheiro não encerra a equação.
“Essa geração valoriza propósito e ambiente de trabalho, mas também entende o reconhecimento financeiro e o espaço para evolução pessoal como parte essencial do pacote de benefícios”, afirma Bell Gama, cofundadora e CEO da Air Branding.
Para ela, autonomia, flexibilidade e equilíbrio entre vida pessoal e profissional ganharam peso nas decisões de carreira.
Além disso, outros levantamentos confirmam essa mudança para além do universo das empresas pesquisadas pela consultoria. Levantamento Datafolha divulgado em 2025 mostrou que 68% dos jovens entre 16 e 24 anos consideravam melhor trabalhar como autônomos, reforçando o desafio do emprego formal para atrair parte dos profissionais mais jovens.
“É preciso entender que o vínculo trabalhista com uma empresa é um contrato de troca em que a remuneração é apenas uma parte desse acordo. Outras recompensas, como flexibilidade e tempo para a vida pessoal, também são prioridades, especialmente para a nova geração”, diz Bell.
Nova proposta de valor
Nesse ambiente, Bell defende que as empresas revejam seu EVP (Employee Value Proposition), ou Proposta de Valor ao Empregado.
De acordo com dados da Air Branding, uma amostra de 55 EVPs desenvolvidos ao longo de seis anos mostrou aumento de até 80% no volume de candidaturas em empresas que estruturaram sua proposta de valor. A consultoria também aponta ganhos de até 35% na capacidade de atração de talentos.
A própria consultoria produziu esses dados e, portanto, eles não representam uma projeção para todo o mercado. Ainda assim, os dados ajudam a revelar uma mudança relevante na disputa por profissionais. Nesse cenário, o salário continua essencial, mas passa a dividir espaço com autonomia, desenvolvimento e tempo disponível.
“O salto nos gatilhos de saída por falta de autonomia e work-life balance é a resposta direta contra políticas de controle e perda da flexibilidade conquistada na pandemia”, afirma Bell.
Reta decisiva
A PEC chega ao Plenário carregando justamente essas duas forças.
Para seus defensores, reduzir a jornada amplia descanso, qualidade de vida e pode estimular uma organização do trabalho mais produtiva. O relator no Senado, Omar Aziz (PSD-AM), sustentou que “trabalhador descansado rende mais e erra menos”.
Já os críticos argumentam que uma mudança constitucional uniforme pode elevar custos e reduzir a capacidade de negociação entre empresas e trabalhadores. Na CCJ, Rogério Marinho (PL-RN), Tereza Cristina (PP-MS), Hamilton Mourão (Republicanos-RS) e Jaime Bagattoli (PL-RO) votaram contra o parecer.
Portanto, a aprovação na comissão não encerrou o debate. Ela o levou para sua etapa política mais importante.
Para empresas, trabalhadores e consumidores, a questão que acompanha a PEC daqui em diante será maior do que decidir entre seis ou cinco dias de trabalho. O Brasil terá de discutir como transformar menos horas disponíveis em produtividade, como distribuir o custo dessa mudança e até que ponto tecnologia, gestão e novas relações com o trabalho conseguem fechar essa conta.
Às vésperas das eleições, essa discussão agora aguarda 49 votos no Plenário do Senado.





