A Singularity University é uma instituição localizada em uma base de pesquisa da NASA, no Vale do Silício, Califórnia, Estados Unidos. Ela é reconhecida como o principal centro de inovação do mundo. Fundada em 2008 por Ray Kurzweil e Peter Diamandis, ambos inventores e futuristas, a Singularity University tem como propósito capacitar líderes e empreendedores a aplicarem tecnologias exponenciais na resolução de desafios globais.
Embora tenha iniciado como um programa acadêmico focado em inovação, com o tempo a instituição se transformou em um ecossistema de aprendizado e consultoria, distanciando-se da concepção de uma universidade tradicional.
Michelle Schneider é professora convidada na Singularity University. Com 20 anos de experiência, ela, que é uma das vozes mais influentes do Brasil no TEDx, organização sem fins lucrativos dedicada à disseminação de ideias por meio de palestras, aborda os detalhes da corrida pela liderança em Inteligência Artificial, que está em pleno curso. Em entrevista à Consumidor Moderno, ela compartilha como os protagonistas dessa disputa não serão apenas os países que utilizam a tecnologia, mas também aqueles que desenvolvem e exportam suas inovações.
Competição em IA
A competição pela liderança em IA está se acirrando. Enquanto os Estados Unidos destinam 500 bilhões ao projeto Stargate, a China prioriza a Inteligência Artificial em seu plano quinquenal, investindo cerca de 2% do PIB. A questão que se levanta é: o Brasil está preparado para participar dessa corrida?
Michelle, publicitária de formação e especialista em novas tecnologias e futuro do trabalho, acumula quase 3 milhões de visualizações com sua palestra “O Profissional do Futuro” e compartilha suas perspectivas sobre o assunto. Ela explica não só o posicionamento do país nessa competição, mas também os desafios que estão porvir e que afetarão em cheio o mercado em geral.
Confira a entrevista na íntegra!
Consumidor Moderno: Os países que incentivarem o desenvolvimento interno de tecnologias serão os protagonistas da IA nos próximos anos?
Michelle Schneider: Sem dúvida. Os protagonistas da revolução da Inteligência Artificial não serão apenas os países que a utilizam. Mas, principalmente, aqueles que desenvolvem, produzem e exportam suas próprias tecnologias. Nações que priorizam pesquisa, desenvolvimento e educação especializada estão em posição vantajosa para liderar a era tecnológica futura.
Atualmente, observamos uma verdadeira corrida global para estabelecer soberania tecnológica, que alguns especialistas já comparam a uma nova guerra fria. Com o projeto Stargate e um investimento de 500 bilhões de dólares, os EUA buscam reforçar sua liderança tecnológica. Paralelamente, a China, através de seu plano quinquenal, alocando cerca de 2% do seu PIB, destaca a IA como um setor prioritário. Por isso, o país investe em parcerias público-privadas e na formação de talentos.
Investimentos em IA
CM: O que esses investimentos significam?
Esses investimentos robustos não só evidenciam a capacidade desses países de mobilizar recursos, como também indicam que a disputa pelo protagonismo na IA tende a se reduzir, em grande parte, a uma batalha entre essas duas potências. Importante ressaltar que o país que se destacar como líder em IA não apenas definirá os padrões tecnológicos globais, mas também se posicionará como a próxima grande potência econômica mundial.
Brasil, o penúltimo colocado
CM: Onde está o Brasil nessa corrida?
Atualmente, o Brasil está significativamente atrás na corrida global pela liderança em Inteligência Artificial, ocupando a 34ª posição entre 36 países avaliados, de acordo com a Global AI Vibrancy Tool da Stanford HAI.
A pesquisa destaca que, apesar de esforços isolados e avanços em determinadas áreas, o Brasil ainda enfrenta limitações severas em termos de investimento em R&D e falta de uma infraestrutura robusta que possa suportar avanços tecnológicos em larga escala. Além disso, a educação em tecnologias emergentes não tem recebido a atenção necessária para formar a próxima geração de especialistas em IA, o que impacta diretamente na capacidade do país de competir globalmente nesta área.
Para recuperar o terreno perdido e reafirmar-se na arena global de IA, o Brasil lançou seu primeiro Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) no fim de julho do ano passado. O PBIA receberá prioridade política e recursos para incentivar a transformação digital, reconhecendo a crescente importância da IA em diversas áreas da sociedade. Intitulada “IA para o Bem de Todos”, a estratégia para desenvolver e implementar a ferramenta no Brasil prevê investimentos de até R$ 23 bilhões, em 54 iniciativas, entre 2024 e 2028, focando na melhoria de serviços públicos, inovação empresarial, capacitação profissional, e infraestrutura tecnológica. Isso inclui a atualização do supercomputador Santos Dumont e a criação de um ambiente de nuvem gerido pelo governo.
A questão do investimento é muito relevante para a realidade brasileira. Contudo, precisamos saber o que é palpável nesses R$ 23 bilhões versus o que é necessário para as pretensões brasileiras. A eficácia desses investimentos será crucial para determinar se o Brasil pode melhorar sua posição no ranking de IA e tornar-se competitivo no cenário internacional.
Regular ou investir?
CM: O País investe e apoia as empresas quando o assunto é IA e outras tecnologias? Ou o país está mais preocupado em regular a tecnologia do que de fato beneficiar a sociedade com todo o potencial que ela oferece?
O Brasil tem feito esforços para apoiar as empresas de IA, estimulando a inovação através de programas de fomento promovidos pela Finep e pelo BNDES. Além disso, conta com hubs de inovação que têm contribuído para o crescimento acelerado do setor.
Porém, o desafio de encontrar o equilíbrio entre regular e incentivar a inovação é um dilema global. Enquanto países europeus avançaram com o AI Act para criar regras que garantam segurança, ética e privacidade, há uma preocupação crescente de que esse modelo, apesar de bem-intencionado, possa acabar deixando a região para trás na guerra da IA. Isso se deve à burocracia que não só limita a agilidade de startups e empresas menores, mas também coloca pressão sobre as big techs, que enfrentam desafios para se adaptar rapidamente a um ambiente regulatório cada vez mais rígido.
Lei de IA
CM: No ano passado, o Brasil submeteu sua própria proposta de lei de IA, que, em muitos aspectos, se assemelha à abordagem europeia. Isso suscita desafios?
No ano passado, o Brasil submeteu sua própria proposta de lei de IA, que, em muitos aspectos, se assemelha à abordagem europeia. Isso levanta debates sobre o risco de impor restrições que podem inibir a criatividade e o dinamismo do setor. Assim, tanto no Brasil quanto internacionalmente, a trajetória que buscamos é uma que assegure a proteção dos cidadãos, sem comprometer a capacidade inovadora das tecnologias emergentes. Essa busca representa uma equação complexa, que equilibra segurança e liberdade criativa, essencial para que a competitividade nacional se mantenha vibrante e para que os benefícios dessas tecnologias se reflitam positivamente em toda a sociedade.
Esforço defasado
CM: Corre o risco de o Brasil estar fazendo um esforço enorme para regular a tecnologia, que não para de mudar, e daqui a pouco, essa regulação estar defasada?
Sim, há esse risco. Em um cenário em que a tecnologia evolui a passos largos, esforços regulatórios intensos podem, inadvertidamente, criar um ambiente em que as leis rapidamente se tornam ultrapassadas. Isso não é exclusivo do Brasil – é um desafio global. Enquanto as inovações acontecem em tempo real, o aparato legislativo, por sua natureza, tende a ser mais lento e deliberativo.
No caso do Brasil, a preocupação é real: a tentativa de criar um marco regulatório robusto para IA pode enfrentar dificuldades para acompanhar o ritmo acelerado das mudanças tecnológicas. O ciclo de vida de tecnologias emergentes está se encurtando, e se a regulação não for suficientemente flexível, corremos o risco de ter normas que, em poucos anos, já não refletirão a realidade do setor.
Por isso, a chave pode estar em desenvolver um modelo regulatório adaptável, capaz de ser revisado e atualizado com frequência, acompanhando as inovações sem perder de vista a proteção dos direitos dos cidadãos. Dessa forma, o Brasil pode evitar a armadilha de ter regras que, embora bem-intencionadas, se tornem um obstáculo para o desenvolvimento tecnológico. Afinal, ninguém quer investir pesado em uma legislação que logo se torne um “dinossauro” na era da IA, não é mesmo?
Agro versus inovação
CM: Temos uma economia que depende diretamente da produção agrícola; enquanto as maiores empresas do mundo são as de tecnologia. O Brasil está fazendo algo de errado?
O Brasil tem uma economia historicamente consolidada no agronegócio – de acordo com o IBGE, o setor representa cerca de 25% do PIB nacional, gera milhões de empregos e mantém o país entre os maiores produtores e exportadores do mundo. Essa força no campo é um dos pilares da economia brasileira e não pode ser considerada algo “errado”.
No entanto, ao observarmos o cenário global, percebemos que as maiores empresas são de tecnologia, reflexo de uma tendência mundial de transformação digital e inovação. Isso demonstra que, para competir em um mercado cada vez mais conectado e dinâmico, é crucial diversificar a base econômica. Além disso, o mercado global de tecnologia para o agronegócio deve crescer de US$ 15,49 bilhões em 2023 para US$ 56,6 bilhões em 2032, segundo o relatório da Expert Market Research. Esse cenário indica que, mesmo sendo referência na produção agrícola, o Brasil precisa expandir sua atuação no setor de tecnologia para não ficar para trás.
Semente e fruto
CM: Então, o que está ocorrendo um erro?
O que está ocorrendo não é um erro, mas sim parte de um processo evolutivo que reconhece que ambos os setores – agronegócio e tecnologia – são fundamentais para a economia. O desafio está em unir essas forças: enquanto oito em cada dez produtores já utilizam alguma tecnologia, ainda existem obstáculos importantes, como a falta de conectividade, que afeta 73% das propriedades rurais, e a necessidade de investimentos em software para gerenciamento, automação e robótica, conforme apontado pelo Agtech Report 2023.
Portanto, o Brasil não está necessariamente fazendo algo de errado; está, sim, em um processo de transição e adaptação. Manter a tradição agrícola enquanto se investe e se incentiva a inovação tecnológica – inclusive no próprio agronegócio – pode ser o caminho para criar uma economia ainda mais robusta e competitiva. Afinal, a combinação entre o melhor dos dois mundos pode transformar desafios em oportunidades e garantir que o país brilhe tanto no campo quanto na era digital.
Corrida
CM: O que pode ser feito para o país entrar nessa corrida de forma saudável e ter a chance de crescer verdadeiramente?
Para que o Brasil possa entrar de forma robusta e competitiva na corrida global por tecnologia, é essencial adotar uma estratégia integrada que aborde vários aspectos chave simultaneamente.
Inicialmente, é crucial fortalecer a infraestrutura tecnológica do país. Isso envolve tanto a expansão das redes de internet de alta velocidade em áreas urbanas e rurais quanto a modernização de data centers e a criação de hubs tecnológicos. Essa melhoria na infraestrutura permitirá uma maior democratização do acesso à tecnologia e facilitará a inovação em todos os níveis.
Paralelamente, o apoio ao empreendedorismo e à inovação tecnológica deve ser intensificado. O governo e o setor privado precisam trabalhar juntos para oferecer incentivos fiscais, facilitar o acesso a capital de risco e diminuir a burocracia, criando um ambiente fértil para startups de tecnologia e grandes empresas inovarem com mais eficiência. A educação e capacitação em tecnologias emergentes também precisam ser priorizadas.
Investir em tecnologia
CM: O que é investimento em tecnologia?
Investir significativamente na formação de talentos desde a educação básica até o nível superior, focando em habilidades digitais e competências técnicas, é fundamental para preparar a força de trabalho para as demandas futuras e sustentar o crescimento contínuo do setor.
Por fim, é vital que exista uma legislação adaptável que acompanhe a velocidade das inovações tecnológicas. Leis que protejam a privacidade e a segurança dos dados, sem inibir a criatividade e a inovação, são essenciais para manter um equilíbrio saudável entre regulamentação e liberdade empresarial.
Digitalização do governo
CM: Do ponto de vista governamental, o que seria diferente no Brasil se os governos das três esferas se digitalizassem e se tornassem mais eficiente?
Se os governos das três esferas no Brasil adotassem uma digitalização completa, poderíamos esperar uma transformação significativa na eficiência dos serviços públicos e na governança. A Estônia é um exemplo claro de sucesso nesta área. Desde o início dos anos 2000, o país implementou uma digitalização abrangente, que hoje facilita a vida de seus cidadãos e serve de modelo para nações ao redor do mundo.
Na Estônia, quase todos os serviços governamentais estão disponíveis online 24/7, permitindo aos cidadãos realizar quase todas as tarefas administrativas digitalmente, desde votar até a gestão de prescrições médicas. Essa acessibilidade reduz burocracias e aumenta a transparência, permitindo uma fiscalização efetiva dos processos governamentais pelos cidadãos.
Benefícios para o Brasil
CM: Quais seriam os benefícios para o Brasil?
No contexto brasileiro, a digitalização das três esferas de governo poderia significar a redução das filas e do tempo de espera para serviços públicos. Ademais, outras vantagens são melhoria na gestão de recursos e uma resposta mais ágil em situações de emergência. Além disso, poderia ampliar o acesso a serviços em regiões remotas, reduzindo desigualdades e aumentando a inclusão digital.
Um aspecto crucial que também seria impactado pela digitalização é o combate à corrupção. Sistemas digitais, ao aumentarem a transparência e rastreabilidade de transações e decisões administrativas, dificultam a ocultação de desvios e irregularidades.
Em termos de governança, a digitalização favoreceria uma maior integração e coordenação entre diferentes níveis de governo, melhorando a implementação de políticas públicas e a eficiência administrativa. Em resumo, a adoção de um sistema de governança digital semelhante ao da Estônia poderia não só transformar a administração pública no Brasil, tornando-a mais eficiente e transparente, mas também promover uma sociedade mais inclusiva e equitativa, e mais importante, um governo mais íntegro e menos suscetível à corrupção.
O profissional do futuro

Depois de vinte anos de experiência em grandes empresas como Tik Tok, Google e LinkedIn, em que liderou times de venda de publicidade, em 2023, Michelle Schneider resolveu deixar a rotina dos escritórios para se dedicar à educação corporativa, vindo a se tornar professora convidada da Singularity University, onde ministra disciplinas que exploram temas como o futuro do trabalho e a Inteligência Artificial.
No dia 25 de março de 2025, mesmo dia do aniversário de 30 anos da Consumidor Moderno, Michelle lançará o livro “O profissional do futuro”. Como futurista formada pela Universidade Hebraica de Jerusalém e pelo Institute for the Future, a autora traz uma visão inovadora para os desafios contemporâneos. E reflete sobre como eles afetam o nosso pensamento e estado emocional. Apaixonada por música, esportes e viagens, Michelle também atua como DJ, animando pistas no Brasil e em destinos como Nova York, Ibiza e Tóquio.
Como será o futuro do trabalho?
O livro “O profissional do futuro” aborda questões como: Como será o futuro do trabalho? Quais serão as profissões do amanhã? Que habilidades precisaremos desenvolver para nos mantermos relevantes? Quem realmente será o profissional do futuro? Com as mudanças no mercado de trabalho ocorrendo em um ritmo sem precedentes, acompanhar essas transformações e se planejar se tornam atributos essenciais.
A obra discute que estamos vivendo uma era de disrupções. Nela, a ascensão da Inteligência Artificial está alterando profissões, automatizando funções e redefinindo o que significa ser relevante. Contudo, mesmo com o avanço das máquinas, algo essencial ainda nos distingue: nossa humanidade.
O livro “O profissional do futuro” é uma leitura essencial para quem quer estar à frente do seu tempo. Nas palavras de Fábio Coelho, presidente do Google Brasil, “O profissional do futuro é um livro esclarecedor e bem fundamentado. Sem dúvida, uma leitura indispensável”. Já Alok diz que “O livro mostra como aliar tecnologia e propósito para gerar um impacto positivo e significativo, no mundo e na vida”.
O economista Ricardo Amorim comenta que é “uma leitura obrigatória para quem busca sucesso e relevância no futuro, enquanto Rebeca Andrade, ginasta olímpica, aponta que “o livro é indispensável para quem deseja alcançar a excelência, não apenas como profissional, mas como ser humano do futuro”.





