A chegada recente de novos aplicativos de delivery no Brasil, como o Keeta e o 99Food, que fariam concorrência ao iFood, reacendeu o debate sobre a importância da concorrência, principalmente em mercados já consolidados, como o de entregas e mobilidade urbana.
Mas, uma questão importante costuma ficar fora do radar: nas regiões mais remotas do Brasil, não há concorrência. Pelo contrário, as grandes plataformas ainda nem chegaram.
O cenário revela um Brasil fragmentado em termos de acesso digital, mas também profundamente criativo. Onde as grandes plataformas ainda não veem escala suficiente para entrar, empreendedores locais constroem ecossistemas próprios para conectar consumidores, restaurantes e motoristas a partir de uma lógica local.
Mais do que alternativas provisórias, essas soluções se consolidam como infraestrutura essencial em cidades nas quais o digital avança em outro ritmo.
Brasil fora do eixo
Longe das capitais e das grandes regiões metropolitanas, o acesso a serviços digitais ainda segue uma dinâmica própria. A ausência de grandes plataformas não significa falta de demanda, mas sim desafios estruturais que passam por renda média, densidade populacional, logística e conectividade.
Os aplicativos regionais surgem como resposta direta às necessidades locais, operam com modelos mais simples, custos reduzidos e conhecimento do território, atendendo realidades específicas.
No interior de Rondônia, por exemplo, o aplicativo de mobilidade urbana mais utilizado se chama Urbano Norte. Já os pedidos de comidas são feitos majoritariamente pelo Delivery Much, e não pelos gigantes nacionais.
Diferentemente das grandes plataformas, que escalam nacionalmente, esses aplicativos funcionam com operações híbridas, suporte próximo e, na maioria das vezes, relacionamento direto com comerciantes e usuários.
Mobilidade local
Criada em Porto Velho para atender cidades do Norte do País, a Urbano Norte começou a atuar em Rondônia e acabou expandindo para outras regiões. Atualmente, atende 14 estados e 180 cidades, com uma base de 7 milhões de usuários.
O foco está em adaptar-se ao contexto local, conectando motoristas e passageiros, principalmente, em localidades onde serviços como Uber ou 99 ainda não estão disponíveis ou não alcançaram escala suficiente. Valorização de trajetos curtos e base de motoristas que conhece profundamente as cidades atendidas estão entre os diferenciais.
Além de facilitar a mobilidade nas cidades de interior, a plataforma também representa uma nova possibilidade de renda para a população local: o site do aplicativo divulga que um motorista recebe cerca de R$ 250 ao dia – tendo com base a capital de Rondônia.
Porém, diferente dos apps de mobilidade como 99 ou Uber, o pagamento não é feito automaticamente na plataforma, apesar de ter a opção de cadastrar um cartão. Entendendo o comportamento da população local, incentiva-se que o pagamento seja feito diretamente ao motorista, seja por Pix, cartões de débito ou crédito, ou em dinheiro em espécie.



Delivery Much
No caso do delivery de comida, o protagonismo regional se repete. Presente em mais de 200 cidades brasileiras, o Delivery Much construiu uma operação baseada na proximidade com os restaurantes e no entendimento das limitações logísticas de pequenos municípios.
Diferentemente dos grandes marketplaces, o Delivery Much adota um modelo que permite aos restaurantes maior autonomia sobre entregas, preços e relacionamento com o consumidor. Em cidades menores, essa flexibilidade se torna decisiva para a adesão dos estabelecimentos.



Criado em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, o aplicativo já atua em regiões interioranas do Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Norte, consolidando-se como a infraestrutura digital em municípios onde o delivery só passou a existir a partir de soluções regionais.
Entendendo a necessidade dos consumidores, a plataforma, antes direcionada apenas a restaurantes, passou a aceitar outros estabelecimentos, como mercado e empresas de entrega de gás.
A Consumidor Moderno testou o aplicativo, e ele funciona de forma semelhante aos grandes – porém menos automatizada. Cancelar um pedido só é possível entrando em contato com o estabelecimento por ligação telefônica. Além disso, existe a opção de retirar na loja em todos os pedidos, sem exceção.



A lógica das grandes
Do ponto de vista das grandes plataformas, a expansão territorial é guiada por critérios objetivos, que envolvem viabilidade econômica, infraestrutura e potencial de escala. A 99, por exemplo, já atua em importantes regiões metropolitanas e tem planos de crescimento no delivery.
A entrada em novas cidades, especialmente fora dos grandes centros, porém, envolve uma combinação de fatores que vão além da demanda aparente. O desafio, para a empresa, está em equilibrar risco, custo e retorno, sem perder de vista a adaptação ao contexto local.
“Ainda há espaço no mercado para que cada vez mais pessoas peçam em aplicativos de entrega de comida e, consequentemente, mais restaurantes possam entrar nesse mercado”, comenta Bruno Rossini, diretor sênior de Comunicação da 99.
Regiões como Norte e Nordeste, especialmente fora das capitais, costumam ser tratadas como desafiadoras pelas grandes plataformas. Ainda assim, a 99 afirma enxergar essas localidades como estratégicas para o crescimento do delivery no País.
“A 99 está investindo R$ 2 bilhões para a expansão da 99Food, com meta de chegar a 100 cidades ainda neste semestre. As regiões Norte e Nordeste são estratégicas e prioridade para a empresa”, afirma Rossini.
Infraestrutura real
A instabilidade da infraestrutura digital e logística já foi um entrave importante para a expansão de aplicativos no interior do País. Hoje, segundo a 99, esse fator passou a ser tratado mais como variável de planejamento do que como barreira definitiva.
“O serviço de mobilidade está presente em mais de 3.300 cidades, então entendemos as particularidades e necessidades que cada praça exige. O tema é tratado, sobretudo, como um aspecto a ser considerado no planejamento e na adequação do modelo de atuação, e não mais como uma barreira estrutural definitiva ao crescimento”, explica o executivo.
A empresa também reconhece que não existe um único modelo capaz de atender todas as cidades brasileiras da mesma forma. A adaptação local passa a ser parte da estratégia de crescimento.
“Cada cidade é um caso. Levamos o modelo de negócios proposto pela 99Food às 8 regiões metropolitanas em que estamos adaptando as suas particularidades”, destaca.
Concorrência local e visão estratégica
A presença de aplicativos regionais fortes não é vista como um impeditivo à expansão, mas como parte natural de um mercado em amadurecimento.
“Acreditamos que a concorrência é boa para expansão do mercado e proporciona novas opções para restaurantes e todos os brasileiros”, frisa. “Estamos apostando no crescimento do setor de delivery de comida, que tem potencial para ser ainda maior no Brasil. Nosso foco atual é oferecer um modelo de negócios mais sustentável a todo o ecossistema”, complementa.
Do ponto de vista estratégico, a ausência em determinadas localidades não é encarada como desinteresse, mas como uma escolha de crescimento gradual e estratégico. Além disso, a empresa quer avaliar todos os fatores decisivos para o crescimento da plataforma de delivery de comida.
“Temos o objetivo de trazer facilidade e acessibilidade a serviços essenciais à vida dos brasileiros, gerando impacto positivo a todos os envolvidos: consumidores, restaurantes e entregadores”, pontua Bruno.
O olhar do iFood
Em nota, o iFood afirma não possuir restrições para atuar em nenhuma cidade brasileira e destaca sua ampla presença nacional. A empresa reforça que a expansão ocorre de forma contínua, baseada em critérios integrados que consideram características demográficas, econômicas e digitais de cada região.
“Atualmente, a empresa está presente em quase 2 mil cidades em todo o país, refletindo o compromisso com a democratização do acesso ao delivery em um Brasil plural e diverso”, disse a empresa.
A estratégia de expansão é contínua e planejada com base em critérios integrados, como número de habitantes, renda per capita, potencial de pedidos, nível de digitalização da população e proximidade com regiões metropolitanas.
O iFood também avalia toda a viabilidade econômica, infraestrutura logística e digital, segurança, disponibilidade de parceiros comerciais e regulação local, o que permite decisões estratégicas regulares e assertivas.
“Como empresa brasileira que entende do Brasil, o iFood transforma particularidades regionais em oportunidades de inovação, buscando soluções criativas e tecnológicas em vez de focar apenas em desafios”, destaca.
Entre os destaques estão o modelo de entrega via barco para populações ribeirinhas, o serviço de entregas com drone em Aracaju e o iFood Chip, que garante melhor conectividade para entregadores mesmo em regiões com infraestrutura digital limitada.
“Nos últimos anos, a empresa registrou avanços consideráveis em capilaridade nacional, incluindo pequenos municípios. O foco permanece em encontrar soluções para as particularidades de cada região, levando oportunidades para restaurantes, entregadores e consumidores de forma responsável e sustentável”, finaliza.





