O mundo corporativo está sempre em movimento, por isso as empresas precisam inovar em seus processos e trazer soluções para problemas com certa frequência. A tecnologia trouxe agilidade para esses desafios, nos quais inclusive a inteligência artificial já é utilizada em empresas do ramo alimentício, na coleta e a distribuição de dados de fabricação, por exemplo.
O berço de muitas dessas mudanças e soluções está no Parque de Inovação Tecnológica, em São José dos Campos, interior de São Paulo. Lá, muitas startups e empresas já consolidadas no mercado mantém seus escritórios exclusivos de inovação com acesso a ferramentas de última geração – e a Nestlé é uma delas.
Lá, Pedro Silva, Gerente de Transformação Digital e Open Innovation, e sua equipe estudam diariamente táticas de resolução de problemas e otimização de processos para serem implementadas nas fábricas da marca, sejam elas em Minas Gerais, São Paulo, e até fora do Brasil. “A inteligência artificial é muito utilizada aqui, por exemplo, para otimização de processos de máquinas”, explica Pedro Silva.
“A gente consegue aprender qual seria o comportamento ideal para aplicarmos num sistema de dosagem”, completa. Essa é apenas uma das dezenas de utilidades desenvolvidas no CIT (Centro de Inovação em Tecnologia) da Nestlé’, continua.
Durante a visita passamos por diversos escritórios, como o da Climatempo, que começou e continua até hoje no Parque, o Metrô de São Paulo, e diversas outras empresas que ainda não são muito conhecidas, mas estão trabalhando para mudar isso. Ao chegar na parte da Nestlé, pudemos entender melhor o papel de quem trabalha lá. De Hong Jung, gerente de Inovação, entrou em detalhes sobre alguns projetos desenvolvidos para melhorias na fábrica e correção de erros que aconteciam não só no Brasil, mas pelo mundo todo.
“O foco aqui é buscar inovações para resolver os problemas que nós temos nas fábricas, ou seja, processos industriais, processos voltados para a qualidade ou um processo voltado para produtividade e segurança, e até mesmo sustentabilidade”, começa.
Todos os projetos começam por um desafio, revela Hong. “Nós pegamos um desafio ou um problema, uma dor que a fábrica tem, e buscamos a tecnologia ou a solução que consiga ajudar ou resolver de forma mais eficiente”, detalha.
Problemas versus soluções
Hong dá um exemplo prático de tecnologias que foram implementadas para resolver problemas que nós, consumidores, nem imaginávamos que chegariam num nível de importância global. De acordo com ele, algo que acontecia e gerava reclamações dos clientes era nas vezes em que o waffer do KitKat não entrava na forma, fazendo com que o doce tivesse um dos lados feitos de chocolate maciço, sem o recheio crocante.
“Você compra o KitKat e, às vezes, ele só tem chocolate. Para alguns isso é perfeito”, explica. “Você tá comendo mais chocolate, mas para experiência do consumidor não é tão legal”, continua. O gerente de Inovação conta que a fábrica tentou resolver utilizando raio-x, sensor de peso, dentre outras opções, mas sem sucesso. “Não conseguiram resolver e esse desafio veio para nós”.
Ele conta que esse foi um dos problemas menos simples que eles receberam no CIT, e que precisaram buscar artigos e diversos estudos para desenvolver uma estratégia de resolução. “Com ajuda de uma câmera com ajuda de um software de Inteligência Artificial, a gente conseguiu desenvolver uma parceria com uma empresa que tem um sistema que consegue ver através do chocolate”, diz.
“É uma câmera que a gente chama de ‘câmera hiper espectral’. Ela consegue identificar não só variação de cores numa imagem, mas avaliar a composição química e física dela.” Ou seja, essa tecnologia consegue diferenciar um leite em pó de bicarbonato de sódio, mesmo os dois tendo a mesma aparência. “Nós fizemos vários testes aqui e validamos essa tecnologia, então levamos para a fábrica”, completa Hong.
O sucesso dessa alternativa para identificar os chocolates sem waffer foi tanto que o escritório ganhou fama mundial. “As fábricas do Reino Unido já estão entrando em contato com a gente”, comemora. Porém, ela não será usada apenas para diferenciar os produtos com ou sem algum ingrediente. Essa câmera participará de testes em todas as linhas da Nestlé para, principalmente, detectar objetos estranhos, como vidro, plástico, e outros. “A gente tem um controle de qualidade para isso, só que hoje tem que ser manual. Tem uma pessoa que precisa estar lá e avaliar isso, mas com a câmera a gente aumenta a eficiência e produtividade.”
Inovação para segurança
Outro ponto muito importante explorado pelo CIT além da Inteligência Artificial é a segurança no trabalho. “Nosso objetivo é zero acidentes”, começa Jung. Para isso, além de educar os colaboradores, o escritório conseguiu uma parceria com uma empresa de cadeados inteligentes controlados por aplicativo.
“Quando vamos fazer a manutenção ou limpeza de uma máquina precisamos bloqueá-la para evitar acidentes. Antes, isso era feito com um cadeado tradicional e um relatório em papel, o que era trabalhoso e desencorajava os colaboradores a seguirem esse procedimento de segurança”, continua. “Agora, com o controle do cadeado por aplicativo, ficou mais simples e prático fazer esse bloqueio, além de ter todas as informações de data, hora e quem foi que fez”, acrescenta o gerente de Inovação.
A Nestlé foi uma das pioneiras no uso do 5G no Brasil, e essa tecnologia foi testada de forma simples: um robô saia do escritório da empresa no CIT e ia distribuindo chocolates pelos corredores. Assim, eles conseguiam controlar rapidamente o robô e saber quais e quantos chocolates foram distribuídos. “Pode perceber besta, mas foi um teste que conseguiu provar a eficiência do 5g, porque o robô pega o sinal do 5g e precisa mandar essa informação bem rápida para quem está visualizando ele.”
Essa facilidade foi muito utilizada quando, ainda durante a pandemia, os técnicos não podiam ir presencialmente fazer reparos nas fábricas. Assim, foi desenvolvido um óculos de realidade aumentada que via sinal 5G permitia aos profissionais realizar os serviços de forma remota. E, assim, foi criado o primeiro 5G industrial do Brasil.