Você já parou para pensar no papel dos líderes de uma empresa na construção de uma cultura de inovação? Para tratar o tema, e para fechar com chave de ouro o primeiro ciclo de palestras do CONAREC 2024, o último painel do dia 10 de setembro tratou justamente desse assunto. Na mesa de debate estiveram presentes Anne Grecco, diretora executiva na Interbrand, na condição de mediadora; Luiz Cláudio Lorenzo, CEO do Grupo Piracanjuba; Olivier Aizac, CEO do Grupo OLX; Richard Stad, CEO da Aramis; e Ricardo Wolff, managing director da Kenvue (Brasil).
Disciplina
Richard Stad começou explicando algumas práticas de liderança eficazes, como a disciplina, por exemplo. Em sua visão, essa característica permite que os líderes estabeleçam padrões elevados de desempenho e responsabilidade, essenciais para alcançar os objetivos organizacionais. Ao cultivar hábitos positivos entre os membros da equipe, um líder não só inspira confiança, mas também promove um ambiente de trabalho colaborativo e eficiente. Esses hábitos incluem a consistência na tomada de decisões, a comunicação clara e a capacidade de feedback construtivo. Quando os líderes incorporam essas práticas em seu dia a dia, eles estabelecem um modelo a ser seguido. “Isso gera um efeito em cadeia, incentivando os colaboradores a adotarem atitudes semelhantes, o que, por sua vez, fortalece a coesão da equipe e a produtividade geral”.
Além disso, Richard afirmou que a disciplina na liderança reflete-se na gestão do tempo e na priorização de tarefas. Líderes disciplinados sabem como alocar recursos de forma eficaz e estão sempre em busca de melhorias contínuas. “Esse compromisso com a excelência não só beneficia a empresa em termos de resultados, mas também melhora a moral e a motivação dos colaboradores, que se sentem mais valorizados e engajados”.
Errar é humano, mas insistir não
Luiz Claudio Lorenzo concordou com o colega e disse que, graças à disciplina, o Grupo Piracanjuba, empresa renomada do setor de laticínios, apresenta uma taxa de rotatividade na liderança muito baixa, o que é refletido para a base. “A Piracanjuba investe constantemente em inovação para atender às demandas dos consumidores, mantendo um foco em saúde e bem-estar. Lá, podemos cometer erros, afinal eles são humanos. Ademais, temos por princípio valorizar uma cultura de transparência e senso de justiça. Quando as pessoas se sentem bem, elas se dedicam a criar um ambiente de adesão que é excepcional”.
Ainda sobre os deslizes, cada erro é uma oportunidade de aprendizado e aprimoramento. “Nossa equipe trabalha incessantemente para identificar falhas e implementar soluções eficazes, sempre com foco na excelência. A busca pela melhoria contínua é o que nos diferencia e nos permite oferecer produtos que atendem às expectativas dos nossos clientes”, comentou o CEO do Grupo Piracanjuba.
Mundo caórdico
Anne Grecco então perguntou aos painelistas sobre a tensão entre o desejo de inovar e a necessidade de obter resultados de curto prazo. “Como vocês lidam com esse tipo de tensão e como tomam essas decisões?”. Ao passo que Ricardo chamou atenção do público comentando sobre o “mundo caórdico”. Este é um conceito que reflete a interseção entre a ordem e o caos, onde sistemas e processos se desenvolvem em um ambiente complexo e dinâmico. Nesse cenário, o entendimento de que a incerteza e a ambiguidade são partes inevitáveis da realidade é fundamental para a adaptação e inovação.
Organizações que operam nesse contexto precisam ser ágeis, flexíveis e abertas à mudança, uma vez que as previsões de longo prazo tornam-se mais desafiadoras. A capacidade de resposta a riscos e oportunidades emergentes é essencial. Portanto, cultivar uma cultura de aprendizado contínuo e experimentação é uma estratégia crucial para a sobrevivência e o crescimento. “A liderança também deve evoluir para abraçar a complexidade. Líderes eficazes em um mundo caórdico incentivam o pensamento colaborativo e a diversidade de opiniões, promovendo um ambiente onde os membros da equipe se sintam seguros para compartilhar suas ideias e inovações. Isso não só fomenta a criatividade, mas também constrói resiliência organizacional frente às adversidades”, pontuou Ricardo Wolff.
Amplitude de inovação
Outro tema de igual importância para os líderes presentes no painel é a amplitude da inovação. Em resumo, essa cultura diz respeito ao fato que “inovação não tange somente ao lançamento de um produto”, nas palavras de Ricardo. Pelo contrário. Trata-se de um processo contínuo que envolve a identificação de necessidades não atendidas, a exploração de novas ideias e a capacidade de adaptação às mudanças do mercado. Inovações frequentemente desafiam o status quo e requerem uma visão estratégica que unem tecnologia, design e funcionalidade.
A colaboração entre diferentes áreas do conhecimento é crucial. Profissionais de diversas disciplinas precisam trabalhar juntos para criar soluções que sejam verdadeiramente inovadoras. “A interação entre os departamentos e usuários finais pode levar a descobertas significativas e a um entendimento mais profundo das necessidades do consumidor”, complementou Richard Stad.
Quando a inovação não é bem-vinda?
A última pergunta de Anne foi: “quando uma empresa não deve inovar”, e todos os participantes concordaram que essa foi a mais desafiadora. Olivier Aizac então compartilhou sua experiência na OLX, ressaltando que, por ser uma plataforma 100% digital e sem estoque, o ambiente é propício para que as pessoas busquem inovação constantemente. No entanto, ele vê isso de uma maneira que não é tão proativa. Para Olivier, a inovação não deve ser impulsionada apenas pela pressão de estar sempre à frente. “Entretanto, ela deve ocorrer de maneira estratégica, alinhada aos objetivos da empresa e às reais necessidades dos clientes”.
Ele acredita que, em algumas situações, pode ser mais prudente focar na melhoria contínua de processos já existentes do que lançar novos produtos prematuramente. Isso é especialmente relevante em mercados onde a saturação pode gerar desperdícios de recursos. Investir em inovações sem uma análise aprofundada pode levar a falhas significativas e, em última instância, comprometer a sustentabilidade da empresa.
A discussão se aprofundou ainda mais quando os demais participantes refletiram a importância de cultivar uma cultura organizacional que favoreça a inovação, mas ressaltou que isso deve ser feito de forma equilibrada. Precipuamente, eles enfatizaram que a inovação deve ser um reflexo da missão e dos valores da empresa, evitando distorções que possam surgir a partir de pressões externas.
Visão estratégica
Dessa forma, ficou claro para o público a importância de alinhar a inovação à visão estratégica de longo prazo, lembrando que, em algumas situações, a melhor abordagem pode ser a consolidação e a eficiência nas operações atuais, garantindo que os recursos sejam usados de maneira eficaz. Em suma, a verdadeira inovação vai além de estar sempre na vanguarda; trata-se de saber quando é o momento certo para ousar e quando vale mais a pena otimizar o que já existe.
Adicionalmente, a diversificação das equipes foi apontada como outra estratégia importante para a cultura da inovação. Líderes que promovem a diversidade de pensamentos e experiências ajudam a estimular a criatividade. Equipes compostas por indivíduos de diferentes origens tendem a gerar ideias mais inovadoras, pois trazem uma variedade de perspectivas e capacidades de resolução de problemas. O desafio é garantir que todos tenham voz e que suas contribuições sejam respeitadas e valorizadas.






