Pense nas últimas decisões que você tomou hoje. Pesquisou no Google, pediu uma sugestão ao ChatGPT ou deixou um algoritmo escolher o que assistir.
Parece simples. Mas Ricardo Cappra, cientista de dados, filósofo da tecnologia e fundador do Cappra Institute, define esse comportamento como uma mudança na forma como pensamos.
“O que a gente pensa como um humano sozinho já não existe mais. Em toda jornada de experiência existe um humano e uma IA”, conta ele.
A ideia pode parecer exagerada à primeira vista. Mas basta observar o nosso próprio comportamento para ver que faz sentido. Hoje, toda decisão é compartilhada. Não necessariamente entre pessoas, mas entre humanos e Inteligência Artificial. “A gente acha que decidiu sozinho, mas isso já não é mais verdade.”
Se antes a tecnologia funcionava como uma ferramenta útil em momentos específicos, agora ela participa do próprio processo de pensamento. Da escolha de um restaurante à compra de um produto, passando pela busca por informações, opiniões e recomendações, a IA passou a ocupar um espaço que antes pertencia apenas ao indivíduo.
Ninguém decide sozinho
Durante décadas, empresas tentaram entender como os consumidores pensam, escolhem e tomam decisões. Mas, segundo Ricardo Cappra, talvez a pergunta precise mudar.
Para o especialista, o consumidor que o mercado passou anos estudando já não existe mais. Isso porque cada vez mais pessoas recorrem à Inteligência Artificial para pesquisar informações, tirar dúvidas, validar opiniões ou tomar decisões.
Em alguns casos, isso acontece de forma consciente. Em outros, praticamente automática. Mas o resultado é o mesmo: a experiência deixou de ser exclusivamente humana.
O nascimento do “ser híbrido”
Para explicar essa transformação, Cappra propõe um novo conceito chamado “o ser híbrido”.
Segundo ele, consumidores já não vivem experiências de forma isolada. Suas jornadas são construídas em conjunto com sistemas inteligentes que participam do processo de pensamento.
“Eu chamo isso de “ser híbrido”. É um indivíduo misturado com a IA, com seu processo cognitivo misturado à Inteligência Artificial.”
Na prática, isso significa que consumo, aprendizado, entretenimento e relacionamento passam a acontecer dentro dessa nova dinâmica.
Quando alguém pesquisa um produto, pede recomendações a um chatbot ou consulta uma IA antes de tomar uma decisão, a tecnologia deixa de ser apenas uma ferramenta e passa a fazer parte da experiência.
E, na visão de Cappra, esse movimento não tem volta. “É uma relação de interdependência entre nós e a máquina, assim como temos uma relação de interdependência com a natureza”.
Estamos perdendo o tempo da reflexão?
A consequência dessa transformação vai além do consumo. A facilidade de acessar respostas rápidas está transformando a forma como as pessoas constroem conhecimento. Aos poucos, consultar sistemas inteligentes passa a ser um reflexo automático.
“A gente começa a fazer consulta no sistema antes de pensar sobre o assunto”, explica.
Isso pode gerar uma espécie de ilusão de completude: a sensação de que compreendemos profundamente um tema quando, na prática, apenas consumimos uma resposta pronta.
O risco não está na tecnologia em si, mas na redução do espaço dedicado à reflexão profunda. “Nós não estamos tendo mais tempo para abstrair, para maturar, para entender algo com profundidade porque recebemos respostas prontas.”
Mas a tecnologia não é vilã. O especialista argumenta que a IA já faz parte da vida contemporânea e que a discussão precisa avançar para o estágio de entender como conviver com essa nova realidade.
“Assim como aprendemos a compreender nossa dependência da natureza, também precisamos entender nossa dependência da informação e da tecnologia.”
Invertendo os papéis
Para ilustrar esse comportamento, Cappra exemplificou o novo dilema com uma experiência recente: ele criou um agente de Inteligência Artificial chamado Sócrates AI, inspirado no método socrático de aprendizagem.
A diferença é que o sistema foi programado para responder perguntas com novas perguntas.
A ferramenta foi apresentada aos seus estudantes durante uma aula de ética e a reação foi imediata. “Eles ficaram muito incomodados, porque os jovens estão acostumados apenas com respostas”, contou ele.
O episódio revela que hoje o desafio não está na qualidade das respostas recebidas, mas na capacidade das pessoas de continuar fazendo perguntas.
E, para empresas que trabalham com experiência do cliente, comportamento e consumo, isso pode significar uma mudança ainda mais profunda. Se o consumidor agora divide suas decisões com uma Inteligência Artificial, talvez seja hora de entender não apenas o que as pessoas querem, mas também quem está ajudando a querer.





