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O limite da publicidade em apostas: entre o entretenimento e o risco

O limite da publicidade em apostas: entre o entretenimento e o risco

Mesmo com regras mais claras para operadores, ausência de normas para influenciadores e afiliados expõe lacunas e reforça a necessidade de contratos, controle e boas práticas no setor.
Mesmo com regras mais claras para operadores, ausência de normas para influenciadores e afiliados expõe lacunas e reforça a necessidade de contratos, controle e boas práticas no setor.
Foto: Shutterstock.
expansão do mercado de apostas online no Brasil tem ampliado o papel de afiliados e influenciadores na aquisição de usuários, e também sua responsabilidade. Embora ainda não exista uma regulamentação específica para esses agentes, especialistas apontam que regras gerais do direito já se aplicam, incluindo a responsabilidade compartilhada com operadores em casos de irregularidades.

A recomendação de um influenciador pode parecer apenas uma combinação de publicidade e entretenimento. Mas, no mercado de apostas online, ela pode significar uma decisão financeira real, e muitas vezes de risco, com impacto direto na proteção do consumidor. Historicamente movido por uma lógica de aquisição agressiva, o mercado de iGaming começa a mudar de tom.

Agora, cresce a percepção de que criatividade sem responsabilidade deixou de ser um diferencial e passou a ser um risco. Práticas antes comuns, como campanhas apelativas e o uso excessivo de gatilhos emocionais, começam a perder espaço em um ambiente cada vez mais atento à conformidade, à reputação e à própria sustentabilidade do setor.

“O risco não é o limite da criatividade. É a falta de criatividade que vai levar o operador e o afiliado a um tipo de comunicação nociva e rasteira. Infelizmente, foi prática por muitos anos na nossa indústria. É a falta de criatividade que vai levar aquele tipo de mensagem, de promessas, de ganhos à associação do produto com o sucesso pessoal e financeiro”, afirma Hugo Mello, Account Manager no Brasil da North Star Network.

Diferentemente de indústrias como álcool e tabaco, que tiveram décadas para ajustar suas práticas de comunicação, o iGaming ainda constrói sua legitimidade social. “A indústria é arriscada e a adicção é um fato que existe. É por isso que todo o setor tem uma responsabilidade ao falar com o público e com o usuário. Quando fazemos publicidade como afiliados, ou quando posicionamos um produto em uma estratégia de marketing, é fundamental comunicar a forma correta de utilizá-lo. O foco deve ser o entretenimento, e não o ganho de dinheiro”, pontua Sebastian Ries, Chief Revenue Officer da Mova Media.

Os limites da publicidade no iGaming

Nesse contexto, a educação do consumidor aparece como um dos principais pontos importantes para o amadurecimento do setor. A percepção de que apostas podem representar uma forma de renda ainda é disseminada, sobretudo entre novos entrantes. Jon Vlogs, influenciador digital com 30 milhões de seguidores e embaixador da Big Game na América Latina, defende que sua comunicação ocorre de forma direta com o público, adotando uma postura assertiva para compreender a mentalidade do brasileiro. Segundo ele, a educação dos usuários sobre o mercado de cassinos é fundamental.

“Os operadores informam sobre o funcionamento das apostas e seus riscos, pois o problema, por vezes, reside no comportamento do jogador”, aponta Jon Vlogs. “Por exemplo: se alguém investir 10 reais e ganhar 20, dificilmente parará, pois, esse valor não muda sua realidade financeira. É neste ponto que o Jogo Responsável se torna crucial. O jogador tenta transformar 10 reais em 1 milhão, quando, na verdade, o cassino deveria ser encarado como entretenimento e distração.”

Ao mesmo tempo, os participantes chamaram atenção para os chamados “riscos invisíveis” do marketing, que vão além das mensagens explícitas. A ausência de sinalização clara de publicidade por influenciadores, a simulação de experiências pessoais como se não fossem conteúdos pagos e a segmentação de públicos vulneráveis estão entre as práticas que podem acelerar reações regulatórias.

Em mercados europeus, movimentos nesse sentido já resultaram em limitações de horários, restrições de mídia e maior controle sobre campanhas digitais.

Outro fator que pressiona a reputação do setor é a atuação do chamado mercado ilegal. Plataformas não reguladas, que operaram com promessas agressivas e pouca transparência, contribuíram para consolidar uma percepção negativa junto ao público.

Da esquerda para a direita: Herbert Gabin, Jon Vlogs, Sebastian Ries, Andressa Franco e Hugo Mello.

Responsabilidade compartilhada

Andressa Franco, Business Director da Brazilian Lounge, conta que nasceu praticamente nos meios dos jogos, que são muitos fortes na região Norte e Nordeste. “As pessoas já estão acostumadas a estar em contato com o jogo. O desafio do marketing das casas reguladas é muito superior ao marketing das não reguladas. É preciso combater também a forma como o governo está se comunicando, que muitas vezes joga contra as operações”, observa Andressa.

Além disso, Andressa aponta uma certa contradição cultural. No Brasil principalmente em períodos como o fim de ano, há um imaginário coletivo em torno da possibilidade de “ficar milionário”, o que acaba incentivando a participação, ainda que muitas vezes motivada mais pelo receio de ficar de fora do que por uma decisão estruturada. Esse ponto abre espaço para uma reflexão sobre diferentes produtos e narrativas. “Por que em um produto específico eu posso dizer que a pessoa vai ficar milionária, enquanto em outros não?”, questiona.

Diante desse cenário, a construção de uma comunicação mais responsável passa a ser vista não apenas como uma exigência regulatória, mas como uma estratégia de longo prazo. Inspirar-se em setores que conseguiram reposicionar suas narrativas, associando produtos a experiências, estilo de vida e valores culturais, surge como um caminho possível. “A educação é superimportante, mas eu acho que a criatividade não traz risco, não é um problema. A criatividade é a solução para a gente encontrar essas novas formas de comunicar nosso produto e conectar com o público, como a indústria do álcool fez”, diz Hugo Mello.

Um mercado ainda sem regras claras

Apesar dos avanços regulatórios para operadores de apostas, ainda não há uma legislação específica que discipline a atuação dos afiliados. Na prática, isso cria um cenário híbrido em que regras gerais do direito, como responsabilidade civil, direito de imagem e relações de consumo, passam a ser aplicadas a um ecossistema digital cada vez mais complexo.

Segundo Leandro Pamplona advogado do BKP Advogados Associados, a ausência de normas específicas não significa ausência de responsabilidade. “O afiliado, o divulgador, o vendedor no âmbito online, ele não tem ainda uma série de regramentos institucionais que o Estado impõe a ele”, afirma. Ainda assim, ele reforça que isso não significa ausência de responsabilidade. “Temos que pegar regras gerais do direito e equiparar esse sujeito a alguém que faça divulgação de um produto ou serviço, que tem que ser realizado de forma extremamente responsável.”

Esse cenário tem pressionado o mercado a adotar práticas mais rigorosas. Do lado das empresas, cresce a necessidade de estabelecer contratos com cláusulas claras sobre conduta, uso de imagem e, principalmente, mecanismos de saída, fundamentais diante de possíveis crises reputacionais. “É uma via de mão dupla. Tanto o afiliado quanto o operador podem ser impactados por escândalos envolvendo a outra parte”, afirma Pamplona,.

Na prática, a profissionalização também passa por educação e governança. Manuel Matos, diretor Comercial da Super Afiliados, ressalta que muitos afiliados ainda operam sem estrutura jurídica ou conhecimento aprofundado das regras. “Às vezes não é nem má intenção, é falta de conhecimento, falta de regra, de saber qual é o trajeto”, disse. Por isso, ele defende um papel mais ativo dos operadores e das redes na orientação. “Façam um manual, façam algumas regras do que eu posso e não posso promover.”

Lacunas para o setor de iGaming

Ainda assim, os desafios persistem. Casos envolvendo uso indevido de imagem, inclusive com o uso de tecnologias como deepfakes, e estratégias de marketing que podem ultrapassar limites éticos ou legais mostram que o setor ainda enfrenta lacunas importantes.

Durante o debate, participantes ressaltam que práticas como a associação de apostas a menores de idade ou a promessa de ganhos irreais são incompatíveis com o cenário atual da indústria.

No limite, a equação que se coloca para o setor é a de que insistir em ganhos de curto prazo pode comprometer a sustentabilidade futura.

A discussão aconteceu durante o BiS SiGMA South America 2026.

Da esquerda para a direita: Rafael Martins, Leandro Pamplona, Manuel Matos.

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