A Inteligência Artificial já escala bilhões de interações no Brasil. Mas, para Arlindo Galvão, o maior risco está fora da tecnologia. No IACX 2026, o executivo faz um alerta: empresas sem preparo estrutural podem transformar a implementação de IA em um problema. E, por consequência, isso traz erros operacionais, vulnerabilidades e perda de competitividade em um cenário cada vez mais orientado por personalização.
Diretor de Internacionalização e Inovação Aberta do Centro de Excelência em Inteligência Artificial (CEIA), Galvão lidera iniciativas que conectam universidade, mercado e inovação. Em suma, o CEIA, hub de inovação da Universidade Federal do Goiás (UFG), transforma pesquisa científica em soluções aplicadas que já fazem parte do cotidiano de milhões de brasileiros.
IA brasileira já está no dia a dia – mesmo sem o usuário perceber
O executivo traz um dado que reposiciona o debate sobre Inteligência Artificial no País: as soluções desenvolvidas pelo CEIA já impactam mais de 150 milhões de brasileiros. Isso acontece por meio de aplicações integradas a serviços amplamente utilizados – como sistemas de recomendação, automação de processos e análise de dados –, muitas vezes de forma invisível para o usuário final.
Com mais de 1.100 pesquisadores, cerca de 80 contratos ativos e investimentos anuais na casa dos R$ 130 milhões, o CEIA atua na interseção entre ciência e mercado, acelerando a adoção de IA em diferentes setores.

Personalização real: quando a IA entende o indivíduo
Para ilustrar o impacto prático da Inteligência Artificial no cotidiano de consumidores e empresas, Galvão apresenta um caso do setor financeiro. Em parceria com o Itaú, o CEIA desenvolveu uma solução capaz de transformar a abordagem de recuperação de crédito.
Em vez de contatos padronizados e pouco eficientes, o sistema define:
- O melhor momento para abordagem;
- O canal ideal;
- O tom de comunicação;
- E até as condições de negociação.
Tudo com base no comportamento individual do cliente.
“Não se trata mais de estatística. É personalização real, construída a partir de cada usuário”, destaca.
Resolver a dor – e não apenas a interface
Um dos principais pontos da palestra foi a crítica à visão limitada de experiência do cliente.
Segundo Galvão, muitas empresas ainda focam em interfaces – como chatbots – sem atacar o problema central da jornada.
É o caso do iFood, que enfrentava dificuldades logísticas em entregas complexas, como shoppings e condomínios, por exemplo. A solução não foi melhorar o atendimento, mas redesenhar a operação com o uso de robótica autônoma na primeira e última milha.
O resultado foi direto: em primeiro lugar, destaque para a redução de atritos. Na sequência, melhoria na experiência, e ganho de eficiência operacional. “A relação com o cliente mudou porque o serviço melhorou – não porque a interface ficou mais bonita”, afirma.

Seguro de automóveis: da burocracia à resolução em minutos
Outro caso destacado envolve o setor de seguros. Processos que antes levavam dias – como a análise de sinistros – passaram a ser realizados em minutos com o uso de visão computacional. Na prática, a tecnologia analisa imagens do veículo, identifica automaticamente os danos, classifica os tipos de reparo e organiza toda a jornada de atendimento em um único fluxo integrado.
Como mostra a imagem, o sistema estrutura o orçamento em tempo real, detalhando impactos, peças e etapas de reparação, o que substitui etapas manuais e reduz significativamente o tempo de resposta.
Com isso, decisões que antes dependiam de perícia e validações sequenciais – como a caracterização de perda total – passam a ser tomadas no mesmo dia, aumentando a eficiência operacional e fortalecendo a confiança do cliente ao longo de toda a jornada.

O paradoxo da IA: consumidores prontos, empresas travadas
Apesar dos avanços, Arlindo Galvão chama atenção para um descompasso relevante.
De acordo com dados apresentados, 63% dos consumidores acreditam que a Inteligência Artificial vai transformar sua relação com empresas. Ainda assim, muitas organizações não conseguem avançar.
As principais barreiras são:
- Falta de maturidade em transformação digital;
- Receio de falhas na implementação;
- E ausência de estrutura organizacional adequada.
Na avaliação do executivo, o desafio deixou de ser tecnológico e passou a ser estratégico.
Da IA generativa à agêntica: sistemas que já tomam decisões
Portanto, Arlindo Galvão destaca que a Inteligência Artificial já atravessa uma mudança de patamar – deixando de atuar apenas como suporte para decisões e passando a assumir, em alguns contextos, um papel mais ativo dentro das operações. Em seu parecer, o mercado saiu de uma lógica baseada em previsões e entrou em uma fase em que os sistemas não apenas interagem com o usuário, mas começam a executar tarefas, tomar decisões e operar de forma contínua ao longo da jornada.
“A gente está caminhando para um cenário em que a IA não só responde, mas age o tempo todo”, afirma, ao indicar que essa evolução tende a redesenhar processos internos e a própria dinâmica de relacionamento com o cliente.
Nesse contexto, ao mesmo tempo em que as possibilidades se ampliam, cresce também o nível de exigência sobre as empresas. Galvão então chama atenção para o fato de que muitas dessas tecnologias – como computação distribuída, dispositivos inteligentes e novas interfaces de interação – já estão em desenvolvimento ou em fase inicial de adoção, o que antecipa um cenário mais complexo do que o atual.
Para ele, o desafio não está apenas em incorporar inovação, mas em fazer isso com estrutura e responsabilidade. Isso porque, junto com o avanço tecnológico, surgem riscos relevantes, como fragilidades em segurança digital, uso inadequado de dados e maior exposição a ataques. “Não é só sobre implementar – é sobre estar preparado para sustentar isso”, sinaliza, reforçando que a maturidade técnica e estratégica será determinante nos próximos passos das organizações.

O chamado: produzir tecnologia brasileira para brasileiros
Nesse contexto, Galvão também provoca uma reflexão sobre o próprio conceito de inovação. Para ele, nem sempre avançar significa adicionar camadas de complexidade. Pelo contrário: soluções que resolvem problemas de forma direta, com foco claro na dor do usuário, tendem a gerar mais valor e engajamento. Em um ambiente em que o consumidor compara experiências o tempo todo, simplificar pode ser mais eficiente do que sofisticar.
Ainda, o executivo amplia o olhar para além das empresas e traz o debate para o posicionamento do Brasil no cenário global. Em sua avaliação, o País vive uma oportunidade relevante de assumir um papel mais ativo na produção de tecnologia.
“O Brasil precisa deixar de ser apenas consumidor e passar a produzir soluções para a sua própria realidade”, afirma.
Segundo ele, o Centro de Excelência em Inteligência Artificial está aberto à construção de parcerias que contribuam para acelerar esse movimento e ampliar o alcance da Inteligência Artificial desenvolvida no País.





