A Anthropic alcançou um marco que até pouco tempo parecia improvável. Agora, mais de 90% do código que alimenta os modelos mais recentes do Claude, seu sistema de IA generativa, já é escrito pela própria ferramenta.
O dado foi confirmado pelo CEO da empresa, Dario Amodei, e valida uma previsão feita por ele em março de 2025. Na época, ele afirmou que a IA seria responsável por escrever a maior parte do código usado em sistemas de produção.
A declaração foi recebida com ceticismo por parte do mercado, que questionava se modelos generativos seriam capazes de lidar com a complexidade, os riscos e as exigências de qualidade do software corporativo.
Previsão ousada
A fala original de Amodei aconteceu durante um evento do Council on Foreign Relations, nos Estados Unidos. Na ocasião, o executivo projetou que, dentro de um intervalo de três a seis meses, a Inteligência Artificial escreveria cerca de 90% do código em ambientes internos da Anthropic e de empresas parceiras.
Para muitos observadores, a estimativa parecia otimista demais, considerando os desafios de segurança, governança e confiabilidade associados ao código gerado por IA.
Menos de um ano depois, o cenário descrito por Amodei se materializou. Em outubro de 2025, o CEO da Anthropic afirmou publicamente que a previsão havia se concretizado.
Em conversa com Marc Benioff, CEO da Salesforce, Amodei declarou que o uso intensivo de IA para desenvolvimento de software já era uma realidade tanto dentro da empresa quanto em organizações com as quais a Anthropic colabora.
“Se o Claude está escrevendo 90% do código, o que isso significa, geralmente, é que você precisa da mesma quantidade de engenheiros de software. Eles podem se concentrar nos 10% que é editar o código ou escrever os 10% que é o mais difícil, ou supervisionar um grupo de modelos de IA”, completa o CEO da Anthropic.
Esse reposicionamento redefine o papel do engenheiro, que deixa de ser apenas um escritor de linhas de código para atuar como arquiteto, revisor e orquestrador de sistemas inteligentes. A IA assume tarefas repetitivas e de grande volume, enquanto os humanos se dedicam às decisões críticas, ao desenho de soluções e ao controle de qualidade.
Desenvolvimento recursivo
A natureza recursiva desse avanço ficou ainda mais evidente no fim de 2025. Boris Cherny, criador do Claude Code, ferramenta de linha de comando da Anthropic voltada a desenvolvedores, revelou que 100% de suas contribuições de código em dezembro daquele ano foram escritas integralmente pelo próprio Claude.
Uma análise recente do Council on Foreign Relations destacou esse fenômeno como um sinal de que as melhorias em Inteligência Artificial estão se tornando autorreforçadas e aceleradas.
Ferramentas internas
O Claude Code é hoje um dos exemplos mais claros dessa transformação. A ferramenta, projetada para auxiliar desenvolvedores em tarefas complexas, tem cerca de 90% de sua base de código escrita por modelos de IA. Além disso, ela foi utilizada no desenvolvimento do Cowork, novo recurso de automação de arquivos da Anthropic, lançado em 12 de janeiro.
De acordo com a empresa, o Cowork foi construído em aproximadamente dez dias, um prazo significativamente menor do que o esperado para um produto desse porte.
Debate crescente
O avanço, no entanto, não ocorre sem controvérsias. Pesquisadores de segurança e especialistas em tecnologia alertam para os riscos associados ao uso massivo de código gerado por IA.
Entre as principais preocupações estão a possibilidade de introdução de vulnerabilidades em larga escala, falhas difíceis de detectar e a replicação de erros de forma acelerada.
Além disso, o fato de sistemas de IA ajudarem a construir sistemas de IA mais avançados levanta questionamentos éticos e operacionais. O chamado “loop recursivo” agora se apresenta como uma realidade concreta e exige novos modelos de governança, auditoria e responsabilidade.
“A engenharia de software está mudando, e estamos entrando em um novo período na história da programação”, frisa Boris Cherny.
Amodei, por sua vez, já projeta o próximo passo. Segundo ele, até março de 2026, a Inteligência Artificial pode estar escrevendo praticamente todo o código necessário para sistemas como o Claude.





