Um estudo recente do MIT gerou muita falação entre executivos e investidores: 95% das iniciativas corporativas de Inteligência Artificial não geram retorno sobre o investimento. O dado, que repercutiu fortemente no mercado, parece contradizer o hype em torno da IA generativa. Mas, o que está por trás desse aparente fracasso?
Durante o Money20/20, a jornalista Mackenzie Sigalos (CNBC) conversou com Mike Krieger, cofundador do Instagram e hoje Chief Product Officer da Anthropic, empresa que desenvolve o Claude, um dos modelos de IA mais avançados do mercado.
A conversa revelou uma mudança profunda na forma como as empresas estão aprendendo a extrair valor real da IA. Afinal, essa tecnologia está evoluindo de ferramenta experimental para infraestrutura essencial do trabalho? Ou é apenas um modismo tecnológico que está se sustentando à base de mídia espontânea.
Krieger cita um ponto decisivo: chegamos ao “threshold”, o ponto de virada em que a IA passa a executar tarefas economicamente valiosas. Algo que a metodologia do estudo do MIT não foi capaz de detectar. Nos últimos dois anos, as empresas testaram modelos para revisar textos, resumir relatórios e responder e-mails. Mas, agora, a nova geração de sistemas, como o Claude 3.5 e o GPT 5 já são capazes de criar planilhas, gerar modelos financeiros e rodar análises complexas de dados. “Hoje é o pior dia da história desses modelos, porque amanhã eles serão ainda melhores”, provocou Krieger.
Segundo o inovador, essa evolução muda completamente a dinâmica das corporações. Isso porque aqueles que testaram IA em 2023, e desistiram, desconhecem amplamente o salto exponencial de 2025.
O erro, segundo Krieger, é achar que a tecnologia amadurece linearmente, quando, na prática, ela avança em saltos cumulativos de capacidade.
IA no coração do sistema financeiro
Um exemplo concreto vem do Norwegian Sovereign Wealth Fund, o maior fundo soberano do mundo. Um fundo que não aposta em política, não enxerga eleições, não toma partido. Apenas movimenta recursos de um lado para o outro e hoje movimenta mais de US$ 1 trilhão. O projeto da Anthropic para esse fundo começou com usos simples, revisando relatórios e apoiando edições de texto. Hoje, a IA da Anthropic é usada de ponta a ponta, por analistas, gestores e equipes de backoffice, para modelar cenários, projetar fluxos de caixa e apoiar decisões de investimento.
A virada não veio apenas com o avanço técnico dos modelos, mas com a criação do “scaffold”, estrutura organizacional que permite à IA entender o contexto, os dados e os limites operacionais do fundo. Em outras palavras: não é a IA que muda o jogo, mas o modo como qualquer organização se prepara para usá-la.
A Anthropic também está reinventando sua forma de chegar ao mercado.
Inspirada no modelo da Palantir, a empresa envia engenheiros diretamente para dentro dos clientes.
Esses profissionais atuam como “consultores técnicos embarcados”, ajustando o modelo de IA à realidade e à regulação de cada setor, especialmente em indústrias sensíveis, como bancos e seguradoras. Segundo o executivo, “nós entendemos melhor como as empresas pensam, e elas aprendem a projetar com IA dentro do seu próprio fluxo de trabalho”. Essa estratégia cria clientes-farol (“lighthouse customers”), que funcionam como laboratórios vivos. Cada implantação gera aprendizados que se transformam em novos produtos e agentes cognitivos.
AgentSkills
Entre as novidades mais simbólicas, a Anthropic lançou o AgentSkills, uma estrutura que permite codificar o know-how interno das organizações.
O conceito é simples: uma pasta de instruções, scripts e conhecimentos que são fornecidos ao modelo de forma recorrente. Mas o impacto é enorme, dado que empresas e consultorias podem ensinar à IA como elas mesmas resolvem problemas, criando uma inteligência organizacional contínua. Nesse sentido, a consultoria deixa de ser uma transmissora de planilhas e frameworks, e passa a ser uma arquiteta de raciocínios e metodologias. Por isso, a IA funciona como uma amplificadora do pensamento humano e da capacidade de tomar decisões qualificadas em tempo real.
Essa versatilidade e usabilidade da IA estão alinhadas com a trajetória de Mike Krieger. A partir do Instagram, ele coletou os princípios que demonstram que a experiência do usuário também é essencial na IA empresarial. Assim, produtos como o Claude Code, direcionado para desenvolvedores, foram criados com o mesmo rigor de design que guiava o Instagram. Em resumo, foco, simplicidade e prazer de uso.
Em um mundo corporativo dominado por dashboards cinzentos e interfaces burocráticas, a ideia de “IA com UX emocional” é disruptiva. Ela conecta produtividade, prazer e confiança – o tripé da adoção sustentável.
Do conhecimento tácito à inteligência operacional
O que a Anthropic está desenhando não é apenas uma nova geração de modelos, mas uma nova anatomia da IA corporativa. Cada cliente tem potencial de se converter em um ecossistema de aprendizado contínuo, e cada modelo, um espelho do raciocínio, das qualidades e competências da empresa. Na visão de Krieger e de boa parte dos arquitetos de IA generativa, o futuro da tecnologia tem menos a ver com a potência do modelo, e mais com a capacidade das empresas de transformar seu conhecimento tácito em inteligência operacional.
É uma estratégia funcional para eliminar silos e dominar a subcultura, que vive criando alternativas defensivas que protegem as pessoas diante de situações e demandas extravagantes oriundas da alta liderança. Nesse contexto, a IA deixa de ser uma ferramenta externa e passa a funcionar como o sistema nervoso da organização. Ela absorve e coleta dados, aprendendo com decisões e devolvendo insights que tornam o negócio mais inteligente a cada iteração.
Logo, à parte o alarmismo de estudos como o realizado pelo MIT, a IA corporativa entrou na era da utilidade real, e já há mais consenso sobre ROI e aprendizado contínuo. É por isso que mais empresas pioneiras estão usando IA para institucionalizar o raciocínio humano e aprimorar a cognição organizacional. Simplesmente, design, empatia e experiência de uso se tornam parte da estratégia.
A Anthropic mostra que o futuro da Inteligência Artificial nos negócios não será feito apenas de algoritmos mais potentes, mas de organizações mais conscientes do seu próprio modo de pensar. Em vez de substituir pessoas, a IA corporativa do futuro vai ensinar empresas a raciocinar melhor, a tomar melhores decisões e a prescindir de intuição barata. Isso desde que tenham humildade para renunciar a fúteis jogos de poder em troca de ganhar mais competitividade em escala.





