/
/
A nova anatomia da IA corporativa: o que aprendemos com a Anthropic

A nova anatomia da IA corporativa: o que aprendemos com a Anthropic

De assistente de tarefas a infraestrutura cognitiva: como a IA está aprendendo a pensar como as empresas e como isso gera resultados.
De assistente de tarefas a infraestrutura cognitiva: como a IA está aprendendo a pensar como as empresas e como isso gera resultados.
Mackenzie Sigalos (CNBC) em conversa com Mike Krieger, cofundador do Instagram e hoje Chief Product Officer da Anthropic.
Foto: Jacques Meir/Consumidor Moderno.
O cofundador do Instagram e executivo da Anthropic, Mike Krieger, afirma que a IA chegou ao ponto de realizar tarefas economicamente valiosas, contrariando estudos que apontam baixo ROI. A Anthropic mostra que o valor vem da integração da IA à estrutura e cultura das empresas, como no fundo soberano norueguês. Para Krieger, o futuro da IA corporativa está em transformar o conhecimento interno em inteligência operacional, com foco em design, empatia e aprendizado contínuo.

Um estudo recente do MIT gerou muita falação entre executivos e investidores: 95% das iniciativas corporativas de Inteligência Artificial não geram retorno sobre o investimento. O dado, que repercutiu fortemente no mercado, parece contradizer o hype em torno da IA generativa. Mas, o que está por trás desse aparente fracasso?

Durante o Money20/20, a jornalista Mackenzie Sigalos (CNBC) conversou com Mike Krieger, cofundador do Instagram e hoje Chief Product Officer da Anthropic, empresa que desenvolve o Claude, um dos modelos de IA mais avançados do mercado.

A conversa revelou uma mudança profunda na forma como as empresas estão aprendendo a extrair valor real da IA. Afinal, essa tecnologia está evoluindo de ferramenta experimental para infraestrutura essencial do trabalho? Ou é apenas um modismo tecnológico que está se sustentando à base de mídia espontânea.

Krieger cita um ponto decisivo: chegamos ao threshold, o ponto de virada em que a IA passa a executar tarefas economicamente valiosas. Algo que a metodologia do estudo do MIT não foi capaz de detectar. Nos últimos dois anos, as empresas testaram modelos para revisar textos, resumir relatórios e responder e-mails. Mas, agora, a nova geração de sistemas, como o Claude 3.5 e o GPT 5 já são capazes de criar planilhas, gerar modelos financeiros e rodar análises complexas de dados. “Hoje é o pior dia da história desses modelos, porque amanhã eles serão ainda melhores”, provocou Krieger.

Segundo o inovador, essa evolução muda completamente a dinâmica das corporações. Isso porque aqueles que testaram IA em 2023, e desistiram, desconhecem amplamente o salto exponencial de 2025.

O erro, segundo Krieger, é achar que a tecnologia amadurece linearmente, quando, na prática, ela avança em saltos cumulativos de capacidade.

IA no coração do sistema financeiro

Um exemplo concreto vem do Norwegian Sovereign Wealth Fund, o maior fundo soberano do mundo. Um fundo que não aposta em política, não enxerga eleições, não toma partido. Apenas movimenta recursos de um lado para o outro e hoje movimenta mais de US$ 1 trilhão. O projeto da Anthropic para esse fundo começou com usos simples, revisando relatórios e apoiando edições de texto. Hoje, a IA da Anthropic é usada de ponta a ponta, por analistas, gestores e equipes de backoffice, para modelar cenários, projetar fluxos de caixa e apoiar decisões de investimento.

A virada não veio apenas com o avanço técnico dos modelos, mas com a criação do scaffold, estrutura organizacional que permite à IA entender o contexto, os dados e os limites operacionais do fundo. Em outras palavras: não é a IA que muda o jogo, mas o modo como qualquer organização se prepara para usá-la.

A Anthropic também está reinventando sua forma de chegar ao mercado.

Inspirada no modelo da Palantir, a empresa envia engenheiros diretamente para dentro dos clientes.

Esses profissionais atuam como “consultores técnicos embarcados”, ajustando o modelo de IA à realidade e à regulação de cada setor, especialmente em indústrias sensíveis, como bancos e seguradoras. Segundo o executivo, “nós entendemos melhor como as empresas pensam, e elas aprendem a projetar com IA dentro do seu próprio fluxo de trabalho”. Essa estratégia cria clientes-farol (“lighthouse customers”), que funcionam como laboratórios vivos. Cada implantação gera aprendizados que se transformam em novos produtos e agentes cognitivos.

AgentSkills

Entre as novidades mais simbólicas, a Anthropic lançou o AgentSkills, uma estrutura que permite codificar o know-how interno das organizações.

O conceito é simples: uma pasta de instruções, scripts e conhecimentos que são fornecidos ao modelo de forma recorrente. Mas o impacto é enorme, dado que empresas e consultorias podem ensinar à IA como elas mesmas resolvem problemas, criando uma inteligência organizacional contínua. Nesse sentido, a consultoria deixa de ser uma transmissora de planilhas e frameworks, e passa a ser uma arquiteta de raciocínios e metodologias. Por isso, a IA funciona como uma amplificadora do pensamento humano e da capacidade de tomar decisões qualificadas em tempo real.

Essa versatilidade e usabilidade da IA estão alinhadas com a trajetória de Mike Krieger. A partir do Instagram, ele coletou os princípios que demonstram que a experiência do usuário também é essencial na IA empresarial. Assim, produtos como o Claude Code, direcionado para desenvolvedores, foram criados com o mesmo rigor de design que guiava o Instagram. Em resumo, foco, simplicidade e prazer de uso.

Em um mundo corporativo dominado por dashboards cinzentos e interfaces burocráticas, a ideia de “IA com UX emocional” é disruptiva. Ela conecta produtividade, prazer e confiança – o tripé da adoção sustentável.

Do conhecimento tácito à inteligência operacional

O que a Anthropic está desenhando não é apenas uma nova geração de modelos, mas uma nova anatomia da IA corporativa. Cada cliente tem potencial de se converter em um ecossistema de aprendizado contínuo, e cada modelo, um espelho do raciocínio, das qualidades e competências da empresa. Na visão de Krieger e de boa parte dos arquitetos de IA generativa, o futuro da tecnologia tem menos a ver com a potência do modelo, e mais com a capacidade das empresas de transformar seu conhecimento tácito em inteligência operacional.

É uma estratégia funcional para eliminar silos e dominar a subcultura, que vive criando alternativas defensivas que protegem as pessoas diante de situações e demandas extravagantes oriundas da alta liderança. Nesse contexto, a IA deixa de ser uma ferramenta externa e passa a funcionar como o sistema nervoso da organização. Ela absorve e coleta dados, aprendendo com decisões e devolvendo insights que tornam o negócio mais inteligente a cada iteração.

Logo, à parte o alarmismo de estudos como o realizado pelo MIT, a IA corporativa entrou na era da utilidade real, e já há mais consenso sobre ROI e aprendizado contínuo. É por isso que mais empresas pioneiras estão usando IA para institucionalizar o raciocínio humano e aprimorar a cognição organizacional. Simplesmente, design, empatia e experiência de uso se tornam parte da estratégia.

A Anthropic mostra que o futuro da Inteligência Artificial nos negócios não será feito apenas de algoritmos mais potentes, mas de organizações mais conscientes do seu próprio modo de pensar. Em vez de substituir pessoas, a IA corporativa do futuro vai ensinar empresas a raciocinar melhor, a tomar melhores decisões e a prescindir de intuição barata. Isso desde que tenham humildade para renunciar a fúteis jogos de poder em troca de ganhar mais competitividade em escala.

Compartilhe essa notícia:

Recomendadas

MAIS +

Veja mais noticias

IA já impacta profissionais qualificados e pode ampliar desigualdade no Brasil. Especialista da ESPM analisa efeitos no trabalho, renda e consumo.
CM Entrevista: IA vai gerar riqueza ou ampliar desigualdade?
IA já impacta profissionais qualificados e pode ampliar desigualdade no Brasil. Especialista da ESPM analisa efeitos no trabalho, renda e consumo.
CTOs e lideranças de tecnologia femininas assumem protagonismo na adoção da IA nas empresas, definindo limites, governança e impacto na experiência do cliente.
Para CTOs, se a tecnologia falha, a experiência morre
CTOs e lideranças de tecnologia femininas assumem protagonismo na adoção da IA nas empresas, definindo limites, governança e impacto na experiência do cliente.
Rodolfo Eschenbach, presidente da Accenture para Brasil e América Latina.
CM Entrevista: "IA é simples de experimentar e difícil de escalar", diz presidente da Accenture
Rodolfo Eschenbach explica por que transformar testes em resultados concretos ainda é o principal desafio das empresas brasileiras.
SXSW 2026 chama atenção muito mais pelas perguntas que ninguém fez do que pelas respostas que tentou trazer.
A nova gramática do poder
SXSW 2026 chama atenção muito mais pelas perguntas que ninguém fez do que pelas respostas que tentou trazer.
SUMÁRIO – Edição 296

A evolução do consumidor traz uma série de desafios inéditos, inclusive para os modelos de gestão corporativa. A Consumidor Moderno tornou-se especialista em entender essas mutações e identificar tendências. Como um ecossistema de conteúdo multiplataforma, temos o inabalável compromisso de traduzir essa expertise para o mundo empresarial assimilar a importância da inserção do consumidor no centro de suas decisões e estratégias.

A busca incansável da excelência e a inovação como essência fomentam nosso espírito questionador, movido pela adrenalina de desafiar e superar limites – sempre com integridade.

Esses são os valores que nos impulsionam a explorar continuamente as melhores práticas para o desenho de uma experiência do cliente fluida e memorável, no Brasil e no mundo.

A IA chega para acelerar e exponencializar os negócios e seus processos. Mas o CX é para sempre, e fará a diferença nas relações com os clientes.

CAPA: Rhauan Porfírio
IMAGEM: IA Generativa | ChatGPT


Publisher
Roberto Meir

Diretor-Executivo de Conhecimento
Jacques Meir
[email protected]

Diretora-Executiva
Lucimara Fiorin
[email protected]

COMERCIAL E PUBLICIDADE
Gerentes

Daniela Calvo
[email protected]

Elisabete Almeida
[email protected]

Érica Issa
[email protected]

Gustavo Bittencourt
[email protected]

Juliana Carvalho
[email protected]

Marcelo Malzoni
[email protected]

NÚCLEO DE CONTEÚDO
Head de Conteúdo
Larissa Sant’Ana
[email protected]

Editora do Portal 
Júlia Fregonese
[email protected]

Produtores de Conteúdo
Bianca Alvarenga
Danielle Ruas 
Jéssica Chalegra
Marcelo Brandão
Victoria Pirolla

Head de Arte
Camila Nascimento
[email protected]

Revisão
Elani Cardoso

COMUNICAÇÃO E MARKETING
Coordenadoras
Nayara Manfredi
Paula Coutinho

TECNOLOGIA
Gerente

Ricardo Domingues


CONSUMIDOR MODERNO
é uma publicação da Padrão Editorial Ltda.
www.gpadrao.com.br
Rua Ceará, 62 – Higienópolis
Brasil – São Paulo – SP – 01234-010
Telefone: +55 (11) 3125-2244
A editora não se responsabiliza pelos conceitos emitidos nos artigos ou nas matérias assinadas. A reprodução do conteúdo editorial desta revista só será permitida com autorização da Editora ou com citação da fonte.
Todos os direitos reservados e protegidos pelas leis do copyright,
sendo vedada a reprodução no todo ou em parte dos textos
publicados nesta revista, salvo expresso
consentimento dos seus editores.
Padrão Editorial Ltda.
Consumidor Moderno ISSN 1413-1226

NA INTERNET
Acesse diariamente o portal
www.consumidormoderno.com.br
e tenha acesso a um conteúdo multiformato
sempre original, instigante e provocador
sobre todos os assuntos relativos ao
comportamento do consumidor e à inteligência
relacional, incluindo tendências, experiência,
jornada do cliente, tecnologias, defesa do
consumidor, nova consciência, gestão e inovação.

PUBLICIDADE
Anuncie na Consumidor Moderno e tenha
o melhor retorno de leitores qualificados
e informados do Brasil.

PARA INFORMAÇÕES SOBRE ORÇAMENTOS:
[email protected]