A moda sempre andou em círculos. O que ontem foi ultrapassado, hoje ressurge com um novo significado. E a Geração Z entendeu isso como ninguém. Ao mesmo tempo em que resgata visuais dos anos 1990 e 2000 com personalidade e criatividade, nomeando de estética Y2K, esses jovens também repensam como consomem e o que esse consumo representa em suas vidas. É como se cada peça, cada look e cada acessório se tornassem uma ponte entre tempos distintos, unindo memórias coletivas e experimentações individuais.
A moda sempre foi uma ferramenta de expressão e tem se tornado cada vez mais poderosa. O resgate de tendências como calças cargo, óculos retangulares e peças oversized não é apenas nostalgia, é um reflexo de uma geração que vive de forma intensa, hiperconectada e consciente. Até porque essa nostalgia para a GenZ é sentir saudades daquilo que viu, mas que não viveu. Conseguir se deslocar no tempo, com a esperança de viver eras menos cheias de tensões e policrises. Esse movimento também revela uma curiosidade profunda: como seria viver em uma época em que a internet não ditava cada microtendência? Essa busca imaginária por “tempos mais simples” é, paradoxalmente, alimentada pela própria velocidade das redes sociais, que permitem revisitar estéticas antigas com um clique.
Mas essa liberdade de estilo também levanta uma preocupação: até que ponto estamos nos expressando ou apenas respondendo a um novo tipo de pressão social? Será que a autenticidade ainda é genuína, ou virou um produto cuidadosamente embalado para likes e engajamento?
É uma linha tênue. Por mais que o resgate de estéticas antigas seja uma forma legítima de afirmação, ele vem acompanhado de um modelo de consumo que ainda carrega os vícios do passado: a necessidade de estar sempre atualizado, de performar autenticidade o tempo inteiro e de comprar cada vez mais para sustentar esse ritmo, ainda mais num contexto efêmero, em que produtos como Labubu, morango do amor e Bobbie Goods saturam em poucos meses, ou até semanas. Essa velocidade cria um efeito curioso: o “novo” nasce com data de validade, e a ansiedade por acompanhar tudo vira parte da experiência de consumo.
Por outro lado, o comportamento de compra também está mudando e rápido. A Geração Z tem mostrado que quer conveniência, agilidade e praticidade, inclusive na hora de pagar. O crescimento do Pix como meio de pagamento, como destacou recentemente a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), é um bom exemplo disso. Tornou-se uma ferramenta cotidiana, desafiando o varejo a repensar jornadas de compra. Quem não se adapta, fica para trás. Ao mesmo tempo, as operadoras de cartão ganham o desafio de agregar mais valor a serviços como o débito, trazendo benefícios e recompensas para obterem relevância entre as novas gerações. Nesse cenário, a tecnologia não é apenas um facilitador, mas também um formador de hábitos: pagamentos instantâneos moldam expectativas de atendimento e entregas cada vez mais rápidas.
Estamos diante de uma geração que se contradiz, e tudo bem. São consumidores exigentes, críticos, imediatistas e, ao mesmo tempo, mais engajados com causas sociais e ambientais. Querem consumir moda, mas também gostam de brechós. Também adoram lançamentos, mas cobram transparência e propósito das marcas. Buscam diferenciação, mas valorizam pertencimento. São influenciáveis e consumistas. Pesquisa do InstitutoZ, da Trope, feita em parceria com a YOUPIX, revelou que 89% da GenZ já foi foi influenciada por criadores de conteúdo a consumir certos produtos. Nesse sentido, o papel do influenciador digital é o de um curador cultural, capaz de lançar tendências instantaneamente e, ao mesmo tempo, de reforçar valores identitários para nichos específicos.
É uma tensão e dicotomia que é reflexo do que outras gerações também viveram. Também é a lógica dos Millennials adeptos do movimento alimentos 100% orgânicos, versus os adictos de ultra industrializados, em prol da cultura de performance do Vale do Silício. É um acontecimento cíclico, e vemos sintomas daqui, que vieram como herança de outras gerações. É a reinvenção da forma, mas com os mesmos dilemas. Essa repetição histórica mostra que a mudança de linguagem não significa necessariamente mudança de essência, o consumo continua sendo uma forma de comunicação social.
Uma coisa é fato: a GenZ é uma geração com nuances, como todas as demais. E para quem trabalha com moda, comunicação e cultura, entender toda essa geração é o primeiro passo para criar conexões futuras reais. E esse futuro já começou a ser escrito, com referências do passado, sim, mas com olhos bem atentos ao presente. As marcas que ignorarem esse mosaico de contradições correm o risco de se tornarem irrelevantes, pois o consumidor de hoje sabe que pode trocar de ídolo, produto ou tendência com a mesma rapidez em que troca de aba no celular.
Nos últimos anos, as discussões sobre o consumo consciente têm ganhado proporções inéditas, e parte desse movimento vem sendo impulsionada pela própria creator economy. Ao amplificar vozes independentes e diversificadas, as plataformas digitais permitiram que consumidores comuns se tornassem criadores de conteúdo. Essa mudança coloca o indivíduo no centro do debate, não apenas como receptor de mensagens publicitárias, mas como produtor ativo de narrativas que questionam excessos, cobram responsabilidade corporativa e promovem práticas mais sustentáveis. É um cenário em que cada post, vídeo ou thread pode mobilizar comunidades inteiras em torno de causas e valores, acelerando a conscientização coletiva. E é nesse ponto que a moda se cruza com a política, a tecnologia e a economia, transformando-se em um campo de disputa simbólica sobre o que realmente importa.
Ao mesmo tempo, esse avanço do discurso consciente se choca com um mercado global ainda marcado pelo consumo excessivo, pela produção em larga escala e pelo agravamento de crises ambientais. O contexto geopolítico coloca mais urgência no tema. A tensão entre o apelo à redução e a lógica de crescimento econômico cria um campo fértil para embates narrativos, em que marcas, governos e consumidores disputam espaço e legitimidade. Assim, a moda torna-se mais do que um setor econômico: é também um termômetro social e cultural, refletindo as tensões e aspirações de cada época.
Por isso, por mais que a forma de consumir mude, a crítica ao novo modelo encontrado de hipnotizar o consumidor também entrará em discussão, e agora é a vez da Geração Z exigir e criticar. A história mostra que cada geração repete o fluxo e discute se há meios para haver o equilíbrio entre desejo e responsabilidade, até que um novo ciclo comece e o jogo se reinvente mais uma vez.

Luiz Menezes é fundador da Trope, uma consultoria de Geração Z que ajuda marcas a rejuvenescerem suas estratégias de negócio. Luiz é nativo digital, creator, apresentador, empresário e empreendedor.





