/
/
Como pensa a geração da IA?

Como pensa a geração da IA?

Crianças e jovens crescem imersos em IA, o que redefine aprendizagem, criatividade, vínculos sociais e consumo; especialistas analisam impactos e os desafios dessa nova geração.
Crianças e jovens crescem imersos em IA, o que redefine aprendizagem, criatividade, vínculos sociais e consumo; especialistas analisam impactos e os desafios dessa nova geração.
Foto: Shutterstock.
A primeira geração nativa em IA cresce cercada por agentes digitais que influenciam como pensa, aprende, cria e consome. Especialistas apontam impactos na autonomia, na criatividade, no senso crítico e nos vínculos sociais, além de riscos éticos ligados à opacidade dos sistemas e à dependência tecnológica. Eles defendem ações coordenadas entre escolas, governos, famílias e empresas para garantir uso responsável, transparência e desenvolvimento saudável nessa nova era.

Eles têm crescido cercados por assistentes que respondem antes mesmo que a dúvida se forme. Isso acontece por telas que personalizam tudo o que veem e por agentes digitais que conversam, brincam, explicam, confortam e sugerem caminhos. Para a nova geração, a Inteligência Artificial (IA) não é uma tecnologia emergente.

As crianças de hoje aprendem, se divertem e até se relacionam em um ambiente no qual sistemas inteligentes moldam expectativas, eliminam esperas e antecipam necessidades. E, quando nascer dentro desse ecossistema se torna natural, compreender como isso afeta pensamento, criatividade, vínculos emocionais e consumo deixa de ser apenas uma pauta tecnológica. Torna-se uma discussão sobre o futuro da própria experiência humana.

Nova percepção de mundo da “geração IA”

De acordo com Airan Junior, especialista em IA e CEO da AI.RAN, quando uma criança tem contato com IA desde muito jovem, é bastante provável que ela comece a formar certas associações mentais, uma vez que aprende a tomar decisões com base em recomendações pré-definidas, antes mesmo de ter a oportunidade de desenvolver seus próprios critérios de avaliação.

“Embora isso possa ser benéfico para adquirir conhecimento e agilidade, pode prejudicar o senso crítico se o ambiente não estimular questionamentos genuínos. Isso pode alterar até mesmo a maneira como se lida com a dúvida e a paciência. Uma vez que o mundo se transforma em algo que pode ser rapidamente respondido, a pesquisa se torna menos espontânea e a espera por uma resposta passa a parecer uma perda de tempo”, comenta.

Assim, a convivência com sistemas inteligentes desde os primeiros anos pode alterar a maneira como crianças constroem percepção, autonomia e critérios próprios de decisão. Para Airan Junior, essa exposição precoce cria uma tendência à delegação automática do julgamento, já que a criança cresce habituada a receber respostas instantâneas e recomendações fluídas, reduzindo o espaço de dúvida e reflexão.

Uma nova arquitetura cognitiva

Ele alerta para o risco de que a velocidade das respostas limite a espontaneidade da pesquisa e transforme questionamentos em algo percebido como perda de tempo.

“Quando uma criança tem contato com IA desde muito jovem, é bastante provável que ela comece a formar certas associações mentais, uma vez que aprende a tomar decisões com base em recomendações pré-definidas, antes mesmo de ter a oportunidade de desenvolver seus próprios critérios de avaliação”, comenta.

Ariane Reiser, head de IA e Performance Digital da ConquestOne reforça essa preocupação ao afirmar que o maior perigo não é a tecnologia, mas a opacidade que cerca suas recomendações.

Ela ressalta que o senso crítico nasce justamente da tensão entre pergunta e resposta, e que a passividade diante de sistemas que já trazem tudo pronto reduz o desenvolvimento da metacognição.

“A exposição contínua à IA desde a primeira infância está criando uma geração com uma arquitetura cognitiva fundamentalmente diferente. Quando crianças crescem interagindo com sistemas que antecipam suas necessidades, personalizam respostas e oferecem gratificação imediata, desenvolvem uma expectativa de que o mundo funcione dessa maneira”, acrescenta.

Criatividade e autocontrole

O impacto da IA sobre habilidades socioemocionais e criativas aparece de forma ambivalente. Airan observa que a ferramenta pode ampliar a criatividade ao permitir testes rápidos de ideias. Mas também pode deteriorar o autocontrole ao oferecer distrações personalizadas que funcionam como fuga diante de tédio ou ansiedade.

Além disso, ele alerta para o risco de uma geração que inicia muitos projetos, mas encontra dificuldade em concluí-los diante da facilidade das respostas automatizadas.

“No dia a dia, a criatividade das crianças aumenta quando elas utilizam a IA para gerar opções e, em seguida, escolhem, combinam e aprimoram essas ideias de forma intencional. O autocontrole se deteriora quando a IA se transforma em uma muleta emocional para escapar do tédio, da ansiedade e do esforço, uma vez que está sempre disponível como uma distração personalizada”, explica.

Ariane destaca que a criatividade genuína nasce de restrições e erros. Porém, quando a IA oferece soluções instantâneas, corremos o risco de desenvolver uma geração que confunde facilidade com competência.

“A criatividade não está em gerar outputs, mas em navegar o processo de criação com suas incertezas. O autocontrole é particularmente preocupante. Sistemas de IA são projetados para maximizar engajamento, o que frequentemente significa minimizar qualquer fricção. Crianças que crescem em ambientes de recompensa contínua têm menos oportunidades de desenvolver a capacidade de adiar gratificação, uma das habilidades mais preditivas de sucesso em longo prazo”, frisa.

Personalização e dependência

No campo educacional, os especialistas reconhecem que a personalização pode acelerar o aprendizado. Mas alertam para os limites dessa prática.

Airan argumenta que a adaptação do conteúdo é valiosa como reforço, mas não deve substituir o contato com desafios não personalizados, essenciais para formar pensamento crítico e autonomia intelectual.

“A personalização pode ser incrível no processo de aprendizagem, adaptando ritmo, linguagem e atividades ao nível real do indivíduo. No entanto, torna-se uma dependência quando substitui a experiência por conveniência constantemente, sem o ‘tempero’ humano”, destaca.

Porém, o sinal de alerta ocorre quando o indivíduo só estuda com a IA aberta e não consegue estudar sem ela. Nesse caso, a solução é alternar sessões personalizadas com tarefas intencionalmente não personalizadas, a fim de desenvolver a transferência e a perseverança.

Ariane complementa que a personalização pode criar “bolhas cognitivas”, nas quais o estudante só é exposto ao que reforça seu conforto. Para ela, a dependência aparece quando aprender sem IA se torna impossível, exigindo sistemas com “rampas de saída” que devolvam autonomia ao estudante.

“A personalização por IA tem potencial real de melhorar o aprendizado quando usada como ferramenta diagnóstica e de adaptação pedagógica. Um sistema que identifica lacunas de conhecimento e ajusta o ritmo pode ser extraordinariamente eficaz”, reforça.

Consumo mediado por agentes

A relação dessa geração com marcas também deve ser profundamente alterada. Para Airan, quando agentes se tornam o primeiro filtro das interações comerciais, a decisão de compra passa a ser pragmática e baseada em critérios de performance organizados pelos algoritmos, reduzindo o impacto do marketing tradicional.

Na prática, o agente se torna o novo vendedor, e a marca que não for “legível” para os agentes acaba perdendo espaço.

“Essa geração vai comparar com base em critérios sintetizados, como preço total, impacto, avaliações e garantia, em vez de se basear em propaganda tradicional. A jornada de compra é reduzida porque o agente filtra, negocia e resolve questões de suporte, fazendo com que o atrito e o pós-venda se tornem parte do marketing, quer se goste ou não”, explica.

Ariane vê esse movimento como transformador. Ao crescerem confiando em seus assistentes pessoais, jovens podem transferir a lealdade das marcas para os próprios agentes. Com isso, empresas precisam não apenas convencer consumidores, mas convencer os algoritmos, criando um novo campo competitivo e ético.

A lealdade à marca pode ser substituída por lealdade ao agente de IA que ‘conhece você melhor’. Para as empresas, isso representa uma mudança estratosférica. Não basta conquistar o consumidor, é preciso conquistar os algoritmos que mediam suas escolhas. Mas isso levanta questões éticas profundas sobre manipulação, transparência e autonomia real de decisão”, comenta.

Ética, transparência e futuro

Ao olhar para o que escolas, governos e famílias precisam fazer hoje, Airan Junior aponta que a construção de uma geração saudável em meio à IA não depende de proibições, mas de uma alfabetização crítica que acompanhe o ritmo do mundo real.

Ele reforça que a tecnologia não pode ser tratada como disciplina isolada, mas deve atravessar todas as áreas do aprendizado. Moldando, assim, a capacidade de fazer perguntas, comparar fontes e identificar vieses nos sistemas. Para ele, é o ambiente que forma o comportamento das crianças.

“A escola deve ensinar a formular boas perguntas, verificar fontes, comparar diferentes pontos de vista, reconhecer limitações e identificar viés no sistema. O governo deve assegurar não apenas infraestrutura, conectividade e dispositivos, mas também normas claras de privacidade infantil e aquisições públicas com critérios de segurança. É necessário que as famílias estabeleçam limites realistas para o uso de telas e IA de acordo com cada contexto”, sugere.

Ariane Reiser complementa essa análise trazendo a urgência de tratar a literacia em IA como alfabetização obrigatória. Para ela, não se trata apenas de aprender a usar ferramentas, mas de compreender a lógica que as sustenta, seus limites, riscos e impactos sociais. Essa formação deve ocorrer desde cedo, preparando crianças para um mundo onde agentes digitais farão parte de decisões cotidianas.

Humano vs. IA

Como complemento às discussões sobre alfabetização digital e responsabilidade institucional, Ariane Reiser alerta que o maior dilema não está apenas na regulação das tecnologias, mas na capacidade das crianças de reconhecer o que é humano em um cenário de convivência constante com agentes artificiais.

Para ela, a indistinção entre interações reais e simuladas ameaça valores fundamentais das relações sociais, como confiança, intimidade e vulnerabilidade. Ariane lembra que vínculos humanos carregam peso emocional justamente porque envolvem autonomia, limites e a possibilidade real de afetar e ser afetado. Algo que nenhum sistema artificial possui, por mais convincente que seja a simulação.

“Quando tratamos IAs como se tivessem essas qualidades, ou quando deixamos de valorizar essas qualidades em humanos porque IAs simulam algo parecido, corremos o risco de uma erosão fundamental no tecido social”, comenta. “Precisamos de transparência obrigatória sobre quando estamos interagindo com IA, mas também precisamos de educação desde cedo sobre o que distingue Inteligência Artificial de consciência, simulação de experiência.”

Compartilhe essa notícia:

Recomendadas

MAIS +

Veja mais noticias

"Sim, senhor": IA pode ser bajuladora e falar tudo o que você quer ouvir
Estudo de Stanford mostra que chatbots concordam até 50% mais que humanos e podem reforçar decisões erradas, sem questionar o usuário.
O total de impostos, taxas e contribuições pagos pelos contribuintes brasileiros aos governos federal, estaduais e municipais cresceu 2,9% em comparação com 2025.
Brasileiros já pagaram R$ 1 trilhão em impostos em 2026
O total de impostos, taxas e contribuições pagos pelos contribuintes brasileiros aos governos federal, estaduais e municipais cresceu 2,9% em comparação com 2025.
Estudo inédito no Brasil identificou três perfis de apostadores no País, que enxergam as bets como uma forma de obter renda extra.
49% dos apostadores enxergam as bets como uma forma de obter renda extra
Estudo inédito no Brasil identificou três perfis de apostadores no País, que enxergam as bets como uma forma de obter renda extra.
Para a GenZ e a Gen Alpha, a fidelidade virou dinâmica contínua, baseada em experiências, comunidade, personalização útil e conexão.
SXSW: O que sustenta a lealdade entre os consumidores das novas gerações?
Para a GenZ e a Gen Alpha, a fidelidade virou dinâmica contínua, baseada em experiências, comunidade, personalização útil e conexão.
SUMÁRIO – Edição 296

A evolução do consumidor traz uma série de desafios inéditos, inclusive para os modelos de gestão corporativa. A Consumidor Moderno tornou-se especialista em entender essas mutações e identificar tendências. Como um ecossistema de conteúdo multiplataforma, temos o inabalável compromisso de traduzir essa expertise para o mundo empresarial assimilar a importância da inserção do consumidor no centro de suas decisões e estratégias.

A busca incansável da excelência e a inovação como essência fomentam nosso espírito questionador, movido pela adrenalina de desafiar e superar limites – sempre com integridade.

Esses são os valores que nos impulsionam a explorar continuamente as melhores práticas para o desenho de uma experiência do cliente fluida e memorável, no Brasil e no mundo.

A IA chega para acelerar e exponencializar os negócios e seus processos. Mas o CX é para sempre, e fará a diferença nas relações com os clientes.

CAPA: Rhauan Porfírio
IMAGEM: IA Generativa | ChatGPT


Publisher
Roberto Meir

Diretor-Executivo de Conhecimento
Jacques Meir
[email protected]

Diretora-Executiva
Lucimara Fiorin
[email protected]

COMERCIAL E PUBLICIDADE
Gerentes

Daniela Calvo
[email protected]

Elisabete Almeida
[email protected]

Érica Issa
[email protected]

Gustavo Bittencourt
[email protected]

Juliana Carvalho
[email protected]

Marcelo Malzoni
[email protected]

NÚCLEO DE CONTEÚDO
Head de Conteúdo
Larissa Sant’Ana
[email protected]

Editora do Portal 
Júlia Fregonese
[email protected]

Produtores de Conteúdo
Bianca Alvarenga
Danielle Ruas 
Jéssica Chalegra
Marcelo Brandão
Victoria Pirolla

Head de Arte
Camila Nascimento
[email protected]

Revisão
Elani Cardoso

COMUNICAÇÃO E MARKETING
Coordenadoras
Nayara Manfredi
Paula Coutinho

TECNOLOGIA
Gerente

Ricardo Domingues


CONSUMIDOR MODERNO
é uma publicação da Padrão Editorial Ltda.
www.gpadrao.com.br
Rua Ceará, 62 – Higienópolis
Brasil – São Paulo – SP – 01234-010
Telefone: +55 (11) 3125-2244
A editora não se responsabiliza pelos conceitos emitidos nos artigos ou nas matérias assinadas. A reprodução do conteúdo editorial desta revista só será permitida com autorização da Editora ou com citação da fonte.
Todos os direitos reservados e protegidos pelas leis do copyright,
sendo vedada a reprodução no todo ou em parte dos textos
publicados nesta revista, salvo expresso
consentimento dos seus editores.
Padrão Editorial Ltda.
Consumidor Moderno ISSN 1413-1226

NA INTERNET
Acesse diariamente o portal
www.consumidormoderno.com.br
e tenha acesso a um conteúdo multiformato
sempre original, instigante e provocador
sobre todos os assuntos relativos ao
comportamento do consumidor e à inteligência
relacional, incluindo tendências, experiência,
jornada do cliente, tecnologias, defesa do
consumidor, nova consciência, gestão e inovação.

PUBLICIDADE
Anuncie na Consumidor Moderno e tenha
o melhor retorno de leitores qualificados
e informados do Brasil.

PARA INFORMAÇÕES SOBRE ORÇAMENTOS:
[email protected]