Imagine o seguinte cenário: você chega em uma empresa com um escritório de última geração, um espaço altamente planejado, com telas para todos os lados, mesas em configuração aberta e um jardim meticulosamente cultivado.
Você caminha pelos corredores até chegar na área de descompressão, onde encontra um spa completo, equipado até mesmo com uma banheira de hidromassagem. Na banheira, estão quatro pessoas, que, mesmo naquele momento de relaxamento, reclamam de como as condições de trabalho na empresa são péssimas.
Nesse momento, talvez você esteja se perguntando: por que temos uma banheira de hidromassagem em uma empresa? E pior, por que raios as pessoas nessa banheira estão falando mal das suas condições de trabalho?
Leia mais:
Colorama e Fini se unem em coleção que combina cores vibrantes e aroma de balas
Se você fosse se aventurar a dar uma resposta a essas perguntas, talvez diria que é um resultado de termos cada vez mais preguiçosos no mercado de trabalho. Jovens, que ainda moram na casa dos seus pais, não entendem o valor do trabalho e acham que o capitalismo é uma grande brincadeira.
Seria essa mais uma prova de que a Geração Z, aquela formada por pessoas de 22 anos ou menos, é a mais preguiçosa das gerações? Uma geração fadada a produzir pouco e a reclamar de boca cheia no Twitter?
Pois esse pitoresco caso é 100% verdadeiro, e ocorreu em uma empresa americana de tecnologia, chamada Borland, e foi presenciado por Marc Randolph, um dos fundadores da Netflix. Mas, talvez contrariando as suas expectativas, caro leitor, isso não aconteceu em 2023, mas, sim, em 1994, quando a geração Z mal tinha nascido.
Assine nossa newsletter!
Fique atualizado sobre as principais novidades em experiência do cliente
Muitas vezes taxada de preguiçosa e de reclamona, essa geração só tem um desejo: ser tratada como adulta.
Segundo uma pesquisa da consultoria Deloitte, os principais motivadores para a geração atual são as oportunidades de crescimento, a construção de relacionamentos e a remuneração.
A prestigiosa publicação Forbes atribui esses desejos ao contexto de criação desses jovens, que viram as vidas de seus pais serem altamente afetadas pela chamada grande recessão de 2008, que cresceram recebendo estímulos contínuos da internet e que encontraram grande ansiedade ao se comparar com todos os seus amigos nas redes sociais.
A conclusão de todo esse contexto e desejos pode ser resumida em uma única palavra: independência. 72% dos estudantes de ensino médio dos Estados Unidos pretendem abrir seu próprio negócio. Quase metade daqueles com menos de 22 anos tem uma fonte adicional de renda além da sua ocupação principal.
Os jovens de hoje buscam pela sua independência financeira. Mais do que isso: buscam uma situação melhor do que a que viram nas suas casas há alguns anos. Estão, o tempo todo, tentando provar a todos que não precisam provar nada para ninguém.
Diante disso, a solução é simples, apesar de não ser fácil. A principal fonte de motivação é a autonomia, tratar adultos como adultos. Muito mais frequentemente que uma hidro no escritório, horários flexíveis ou auxílio home office, a lista de desejos de um jovem profissional contém a premissa de ter participação direta no resultado da empresa, liberdade para tomar decisões e a responsabilidade por determinado processo ou equipe.
Essa é a diferença entre os chamados “fatores de higienização” e os “fatores de motivação”, trazidos pelo professor americano Clayton Christensen, no livro “Como avaliar sua vida? Em busca do sucesso pessoal e profissional”.
Salário, bônus ou banheira de hidromassagem meramente mantém o nível de satisfação de um profissional no curto prazo, sendo fatores de higienização. Em contrapartida, liberdade, autonomia e propósito no trabalho são fatores que genuinamente fazem uma pessoa levantar da sua cama motivada.
Nesse cenário, é natural que a inquietude seja vista como rebeldia, a propensão para múltiplas tarefas simultaneamente como falta de foco e a busca por liberdade como insubordinação.
Então, talvez a geração Z não seja marcada pelo mimimi, mas, sim, seja a prova de que você está completamente enganado sobre o atual mercado de trabalho.
Pedro Sant’Anna é formado em Direito pela PUC. Atualmente, é COO da Allu, maior plataforma de assinatura de iPhones e acessórios Apple.
+ NOTÍCIAS
Boomers e GenZ pesquisam mais em redes sociais do que no Google
Classe C é quem mais consome streaming de vídeo