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“O futuro do varejo de moda será mais sobre fazer as coisas certas”, diz CTO do Azzas 2154

“O futuro do varejo de moda será mais sobre fazer as coisas certas”, diz CTO do Azzas 2154

No maior Grupo de moda da América Latina, inovação é acertar produto, timing e conexão com o consumidor.
“O futuro do varejo de moda será mais sobre fazer as coisas certas”, diz CTO do Azzas 2154
Maurício Bastos, CTO do Azzas 2154.
Foto: Assessoria
Para o CTO da Azzas 2154, Maurício Bastos, a inovação no varejo de moda não está no hype tecnológico, mas em acertar produto, timing e conexão com o consumidor. A tecnologia deve sustentar a estratégia, melhorar a assertividade comercial e operar de forma “invisível”, sem interferir na identidade das marcas. O futuro passa por personalização em escala, simplicidade e equilíbrio entre dados, automação e sensibilidade humana.

No varejo de moda, inovação costuma ser associada a tecnologias emergentes, novos formatos digitais e discursos futuristas. No entanto, na visão de Maurício Bastos, CTO do Azzas 2154, o impacto real da inovação continua ancorado em fundamentos clássicos do negócio, ainda que cada vez mais difíceis de executar em escala.

A capacidade de interpretar tendências, entender profundamente o comportamento do consumidor e transformar esse conhecimento em produtos relevantes é o ponto no qual a inovação deixa de ser conceito e se torna resultado prático.

“Quando falamos em inovação no varejo de moda, o que realmente gera impacto no negócio continua sendo algo aparentemente simples, mas extremamente complexo de executar: entregar o produto certo, no momento certo e, cada vez mais, para o cliente certo”, comenta.

Existe uma engrenagem estratégica que sustenta essa entrega. Ela começa pela leitura de tendências e avança pela construção de mix de produtos, profundidade e equilíbrio de coleção.

Esse processo precisa ser executado em uma rede ampla, com lojas distribuídas em diferentes regiões e perfis de consumo. Para o executivo, é nesse ponto que a inovação se materializa: quando todo esse sistema resulta em produtos desejáveis na ponta, capazes de encantar o consumidor.

Propósito em primeiro lugar

O executivo também faz um alerta sobre o excesso de discurso em torno da chamada “tecnologia pela tecnologia”.

Em um cenário marcado pelo avanço acelerado da Inteligência Artificial e de novas plataformas, Bastos defende que ferramentas só geram valor quando estão claramente conectadas a uma lógica de negócio bem definida. Sem isso, a inovação corre o risco de se tornar superficial.

“Inovação não se sustenta apenas em ferramentas: ela depende de modelo operacional, governança, processos, pessoas e cultura. A tecnologia entra como meio, não como fim”, comenta. “Inovar no varejo de moda ainda é acertar o produto, o timing e a conexão com o cliente, com consistência, escala e sem rupturas”, acrescenta.

Para o CTO do Azzas 2154, grupo que detém marcas como Farm, Reserva, Hering, Arezzo, Vans e Anacapri, o impacto real acontece quando a inovação melhora a assertividade comercial e entrega relevância para o consumidor.

Tecnologia para sustentar a estratégia

No Azzas 2154, qualquer decisão de investimento em tecnologia começa pela estratégia do negócio. Primeiro, é definido para onde o grupo quer ir e depois avaliado qual é o papel da tecnologia como viabilizadora dessa visão.

“A tecnologia não puxa a estratégia. Ela a sustenta e acelera. A partir disso, fazemos a alocação de capital dentro de ciclos bem definidos, olhando tanto para o ano corrente quanto para horizontes mais longos”, explica.

Para organizar essas decisões, o grupo estrutura seu portfólio tecnológico em três frentes complementares:

  • Tecnologia para rodar o negócio.
  • Tecnologia para crescimento.
  • Tecnologia para transformação.

Esse modelo permite equilibrar eficiência operacional, expansão e inovação sem perder o foco estratégico. “Só ganham escala e investimento recorrente aquelas iniciativas que demonstram impacto real, aderência estratégica e capacidade de gerar valor de forma consistente”, complementa.

O varejo mora entre a arte e a ciência

No equilíbrio entre automação e sensibilidade humana, Bastos enxerga o varejo de moda como a intersecção entre arte e ciência. Enquanto dados, BI e automação ajudam a reduzir incertezas e apoiar decisões, a criação, o design e a construção de marca permanecem essencialmente humanos e insubstituíveis.

“A construção de marca, o imaginário, o design de produto, a experiência e a expressão de identidade são, essencialmente, arte. É onde o fator humano é insubstituível”, destaca.

Na prática, a tecnologia e a automação têm um papel claro: simplificar rotinas, dar mais fluidez à operação e apoiar os times no dia a dia.

“O artesanato, o cuidado com o produto, a curadoria e a sensibilidade continuam no centro do negócio. A tecnologia atua para tornar esse trabalho mais eficiente, mais assertivo e mais sustentável”, diz. “Equilibrar automação e sensibilidade humana, portanto, significa usar a tecnologia para potencializar o que a moda tem de mais valioso: criação, desejo e conexão genuína com o consumidor”, completa.

Os bastidores

Ao abordar o risco de padronização da experiência do consumidor, o CTO reforça que a tecnologia só se torna um problema quando passa a ditar a lógica do negócio.

“Temos muita clareza sobre o papel de cada marca, seus públicos, códigos culturais e territórios de atuação. A tecnologia atua de forma ‘invisível’, como uma camada de eficiência e fluidez, facilitando a jornada do consumidor sem interferir na identidade de cada marca”, comenta.

Na prática, a empresa pode até utilizar plataformas e tecnologias equivalentes entre diferentes marcas, mas a experiência na ponta é completamente distinta. Ao entrar em uma loja física, em um e-commerce ou em um aplicativo, o consumidor percebe universos, linguagens e sensações diferentes, porque cada marca é pensada e operada a partir de seus próprios territórios, identidade e público.

“O que faz mais sentido integrar e estruturar está nos bastidores: processos, infraestrutura, dados e eficiência operacional. Já a experiência, a narrativa e a relação com o consumidor são intencionalmente únicas. É esse equilíbrio que permite ganhar escala sem perder identidade”, pontua.

Cultura de inovação contínua

Criar uma cultura de inovação em um grupo de grande escala, segundo Bastos, exige que a inovação não fique restrita a laboratórios ou áreas específicas. Ela precisa fazer parte da forma como a organização pensa e opera, com times funcionando como núcleos de experimentação conectados entre si.

“No Azzas 2154, temos a visão de que, apesar da escala, operamos como um ecossistema de múltiplas unidades empreendedoras. As marcas e os times funcionam como pequenos núcleos de experimentação, testando soluções, aprendendo rápido e compartilhando o que gera valor com o restante da organização”, destaca.

Do ponto de vista de tecnologia, isso se traduz em modelos de trabalho colaborativos e transversais, que conectam diferentes áreas e disciplinas. Foram criados espaços estruturados de troca, nos quais ideias circulam, são debatidas e evoluem além dos silos tradicionais. O objetivo é fazer com que boas ideias não fiquem restritas a um único time ou contexto.

Para que isso funcione, é criado um ambiente seguro para experimentação, aberto ao erro e que estimula a curiosidade e valoriza iniciativas que buscam resolver problemas reais do negócio. Essas ideias passam por ciclos claros de validação e priorização e, à medida que demonstram impacto, ganham escala e chegam à ponta da operação.

“Evitar que a inovação fique isolada é, no fundo, uma questão de cultura, governança e intencionalidade. Quando a inovação é tratada como processo contínuo – e não como evento ou vitrine – ela se propaga naturalmente pela organização, reduz barreiras, aproxima pessoas e mantém a agilidade mesmo em contextos de grande escala”, reforça.

O futuro próximo do varejo de moda

Ao olhar para os próximos cinco anos, o executivo aponta transformações profundas na forma como o varejo entende e atende o desejo do consumidor.

“A moda continuará lidando com algo essencialmente humano: o desejo de expressão e identidade. Essa essência não muda. O que muda de forma profunda nos próximos cinco anos é a maneira como o varejo será capaz de entender, estimular e atender esses desejos de forma muito mais fluida, precisa e conectada”, prevê.

A primeira grande transformação é a personalização em escala real. Será possível ter um varejo que dialoga com milhões de pessoas, mas de forma individualizada, através de dados e IA para entender preferências, contexto, estilo e momento de cada consumidor.

A segunda mudança está na forma de experimentar e decidir. Tecnologias como provadores virtuais, simulações assistidas por IA e novas interfaces vão reduzir fricções e tornar a jornada mais imersiva, mesmo fora da loja física.

A terceira transformação é a evolução do e-commerce para modelos mais inteligentes e assistidos. Segundo Bastos, conceitos como o agentic commerce, em que agentes digitais atuam como curadores ou personal stylists, tendem a ganhar espaço. Eles ajudarão o consumidor a navegar em um universo cada vez maior de ofertas, com menos esforço cognitivo e mais assertividade.

“Por trás de tudo isso, existe um princípio central: simplicidade. Em um cenário de excesso de informação, estímulos e opções, as marcas que conseguirem tornar a experiência mais clara e acessível terão uma vantagem competitiva enorme. O futuro do varejo de moda será menos sobre fazer mais coisas e mais sobre fazer as coisas certas, com precisão e propósito”, aponta.

Hype tecnológico

Ao falar sobre tendências superestimadas, Bastos volta a reforçar que nenhuma tecnologia é capaz de transformar um negócio por si só.

Um exemplo é pensar que a IA, sozinha, pode resolver problemas estruturais do varejo. Quando na verdade, sem dados bem organizados, processos claros, governança e times preparados, ela se torna mais promessa do que resultado.

Outra tendência frequentemente superestimada, segundo o CTO, é a obsessão por experiências excessivamente complexas ou futuristas para o consumidor final.

“Nem toda jornada precisa ser imersiva, gamificada ou altamente tecnológica. Muitas vezes, o que o cliente realmente valoriza é clareza, velocidade e simplicidade, e não mais uma camada de complexidade digital”, comenta.

Há também uma supervalorização de modelos que tentam replicar inovação sem conexão com o contexto local ou com a identidade da marca. Copiar soluções globais, sem adaptação à realidade do negócio, do consumidor e da operação, costuma gerar mais frustração do que impacto real.

“No fim, a tecnologia gera valor quando resolve problemas concretos, melhora a experiência e sustenta a estratégia. Quando está desconectada desses pilares, corre o risco de ser supervalorizada”, frisa.

Inovação no Brasil

Por fim, o CTO avalia que o Brasil já atua como um importante laboratório global de inovação no varejo, impulsionado por um ambiente competitivo, por uma cultura digital avançada e pelo fator humano.

Segundo Bastos, o consumidor brasileiro é exigente, ávido por novidades e valoriza experiências relevantes. Ao mesmo tempo, somos reconhecidos globalmente pelo calor humano, pela empatia e pela capacidade de criar conexões genuínas, algo cada vez mais raro em um mundo que caminha para interações mais automatizadas e potencialmente frias.

“Essa combinação de alta pressão competitiva, capacidade tecnológica, criatividade cultural e forte sensibilidade humana coloca o Brasil em uma posição privilegiada para experimentar, aprender rápido e gerar modelos de inovação que podem, sim, inspirar cada vez mais o varejo global”, finaliza.

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