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Do futebol à gestão: o Brasil precisa aprender com sua maior habilidade

Do futebol à gestão: o Brasil precisa aprender com sua maior habilidade

"Nossas mazelas econômicas seriam consequência de uma visão voltada para aproveitar uma combinação de eventos ao invés de nos dedicarmos a um projeto de país?"
Legenda da foto

Uma das características mais curiosas do futebol atualmente jogado em nosso País é um exemplo de como estamos nos acostumando a abrir mão do que é essencial em busca de resultados imediatos – insustentáveis no médio prazo: nossos times não sabem mais jogar com a bola. O drible, a troca de passes que envolve o adversário, a armação de jogadas que desconcerta defesas cedeu lugar a um jogo de espera, no qual um contra-ataque veloz ou jogada fortuita pode decidir um jogo. A consequência dessa proposta medíocre é ver nossos times, com orçamentos de padrão milionário em comparação com seus pares da América do Sul serem sistematicamente eliminados nas competições continentais, dando vexames homéricos e despertando a ira dos torcedores.

O nosso futebol ganhou hegemonia e projeção global por décadas porque acreditava em uma ideia central: jogar bem. Um jogo técnico, no qual a criatividade passava pela posse da bola e consequentemente sobre o que fazer com ela, era o que fazíamos melhor.

Esse breve interlúdio ludopédico ajuda a refletir sobre a ideia de País que queremos: reativo, esperando um movimento contrário para tomar uma atitude, sem saber o que fazer quando temos de tomar a iniciativa ou um país disposto a propor o jogo, dar as cartas no mercado global, exibindo nossas competências e qualidades?

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Nossas recentes mazelas econômicas não seriam também consequência de uma visão voltada excessivamente para aproveitar uma combinação fortuita de eventos – boom das commodities, cenário global favorável – ao invés de nos dedicarmos a pensar em um projeto de país, em uma ideia de jogo? Não nos reconfortamos com um populismo vulgar ao invés de criar mecanismos para tornar nossa democracia imune a projetos corruptos de poder? Não cedemos nossos ideais em troca de prazeres efêmeros?

Projetando essa ideia para o mercado corporativo, no âmbito das empresas, não seria justamente essa ênfase reativa, de aguardar um momento “propício” para investir, jogar na defesa para buscar um resultado imediato que as tornou tão despreparadas para suportar um mundo em mudança acelerada?

O fato é que o jogo mudou. Ele está mais competitivo e veloz, dinâmico e intenso, estratégico e maleável. É por isso que vemos surgir tão variadas alternativas e metodologias para tornar mais ágeis e fluidas organizações tradicionais, acostumadas a um modelo no qual o cliente era apenas um ente sem rosto e com vontade. Alguém que exercia o seu direito de escolha com base no que havia disponível e que não possuía voz ou capacidade de expressão.

Mas é evidente que o cenário mudou. As empresas precisam repensar os seus modelos e agir no sentido de realmente se exporem ao diálogo e a interação com seus consumidores. No entanto, ainda vemos predominar antigas práticas de costas para a evolução incessante. Jogar na defensiva diante de clientes mais exigentes e empoderados é um bom exemplo. A tática passa pelo litígio e pelo apoio incondicional à solução jurídica como forma de combater clientes. Há uma lógica perversa aqui: por conta de desajustes localizados e comportamentos ladinos de lado a lado – de empresas e clientes – a solução jurídica passa a ser a única alternativa viável. Os custos dessa insanidade recaem sobre toda a sociedade na forma de falta de confiança e regras e letras miúdas que proliferam como pragas. Perdemos então o gosto de jogar no ataque?

Felizmente, um novo contingente de inconformados – os Millennials – estão trazendo ideias e práticas mais arejadas para nossa sociedade. Sua inquietação nunca foi tão bem-vinda, como pudemos constatar na 15ª edição de nosso CONAREC, ocorrida neste mês de setembro. O evento dedicou-se a explorar todas as facetas, impactos e influências desta geração com DNA e chip orientado a mudanças. Esse sentimento e essa ansiedade tão característicos desses jovens refletem seu sofrimento diante de um legado visto como injusto, assimétrico deixado pelas gerações anteriores. Como bem definiu o geógrafo Demétrio Magnoli no painel de encerramento do CONAREC, o sofrimento é o que une as diferentes gerações. A natureza do sofrimento é que as distingue.

Pois bem, enfrentar nossas angústias significa retomar o que sabemos fazer melhor. Sabemos sim dialogar, atender e interagir. Sabemos usar a criatividade para inovar e gerar valor. Sabemos ser protagonistas. A hora é deixar o jogo de espera por soluções milagrosas de lado, trabalhar, empreender e superar expectativas.

A bola está conosco. Precisamos saber o que fazer com ela.

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