A expansão da medicina diagnóstica no Brasil traz um desafio que vai além de crescer. Afinal, como manter a qualidade e a segurança do paciente em operações cada vez maiores e mais espalhadas pelo país? Com aquisições, diferentes marcas, milhares de unidades, hospitais parceiros e tecnologias cada vez mais complexas, Sabin, Fleury e Dasa precisam encontrar um equilíbrio entre padronizar processos e respeitar as particularidades de cada região.
O tema foi discutido durante a 10ª edição do FILIS (Fórum Internacional de Lideranças da Saúde), em painel que reuniu, além de executivos das empresas, representante da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A conversa colocou em evidência o papel da governança, dos indicadores, da tecnologia e da cultura organizacional na construção de uma operação capaz de manter padrões de segurança mesmo diante de diferentes realidades regionais.
Para Lídia Abdalla, vice-presidente do Conselho de Administração da Abramed e CEO do Sabin, a segurança do paciente e a qualidade são premissas das quais a organização não abre mão durante processos de expansão. Segundo ela, a escolha de mercados e parceiros passa também por um alinhamento cultural.
“Quando a gente fala de segurança do paciente, de qualidade, de investimento, de gestão de pessoas, formação de pessoas, capacitação e formação de lideranças, isso tudo é cultura organizacional”, afirmou.
Abdalla explica que, após uma aquisição ou parceria, o grupo realiza um diagnóstico da operação e estabelece um cronograma de integração. Entre os elementos que passam por padronização estão parque tecnológico, sistemas informatizados e processos operacionais.
Um dos pilares é a integração dos dados dos pacientes. Segundo Lídia, o grupo utiliza um sistema informatizado único, com prontuário eletrônico integrado, permitindo que o histórico de exames acompanhe o paciente independentemente da unidade em que o atendimento seja realizado.
Ao mesmo tempo, a estratégia não elimina as particularidades regionais. O Grupo Sabin, como explica Abdalla, prioriza lideranças locais justamente para preservar características de cada região e, simultaneamente, disseminar a cultura organizacional. “Não chegamos e implementamos uma cultura do Sabin pronta. Nós conectamos essa cultura com a cultura local”, explicou.
Governança para uma operação nacional
No Grupo Fleury, a expansão também aumentou a necessidade de uma estrutura de governança técnica. A CEO Jeane Tsutsui destacou que a qualidade precisa acompanhar toda a jornada diagnóstica, desde o preparo do paciente à coleta, transporte, processamento e entrega do resultado.
O Grupo, que neste ano completa 100 anos, possui 584 unidades de atendimento em 14 Estados, além de interação com 9,3 mil laboratórios parceiros e presença em mais de 35 hospitais, segundo dados apresentados pela executiva durante o painel.
Nesse contexto, a padronização ganha importância especialmente em um país de dimensões continentais. “A parte de rastreabilidade, de gestão de risco e governança de ponta a ponta é muito importante porque nos dá, ao longo do tempo, toda a segurança de poder oferecer ao paciente, que está no centro da nossa estratégia, qualidade e segurança”, explicou.
Para a CEO, a alta liderança precisa acompanhar de perto indicadores de desempenho, qualidade assistencial e segurança do paciente. Mas, além dos números, existe um componente organizacional considerado essencial: a capacidade de transformar o conhecimento dos especialistas em processos institucionalizados e replicáveis.
“Acredito muito que a alta liderança precisa ter visibilidade dos indicadores de performance. Ela precisa ter uma mudança estrutural muito voltada para pessoas. Então, o treinamento contínuo das equipes é fundamental”, destaca Jeane.
Além disso, Jeane defendeu maior aproximação entre empresas e órgãos reguladores. Na avaliação dela, a experiência acumulada pelos grandes grupos de medicina diagnóstica pode contribuir para a construção de indicadores e para uma maior previsibilidade regulatória.
Escala exige dados e resposta rápida
Na Dasa, a escala operacional também é apontada como uma vantagem competitiva, mas somente quando acompanhada de integração e controle. Rafael Lucchesi, CEO da companhia, afirmou que a empresa já processou mais de 300 milhões de exames no ano e passou por anos de trabalho para integrar sistemas e processos.
Hoje, segundo ele, 100% dos exames são processados em um único sistema, com indicadores comuns de qualidade. “Quando você tem padrão, quando você tem integração, quando você tem processo, quando você tem indicadores, quando você consegue colocar os seus indicadores na ponta de forma rápida e transparente, isso é uma vantagem competitiva”, afirmou.
O executivo explicou que a companhia trabalha com diferentes painéis para acompanhar a operação, incluindo indicadores financeiros, de experiência do cliente e de qualidade assistencial. Este último, porém, recebe tratamento prioritário quando há desvios.
Segundo Lucchesi, existem protocolos que permitem interromper imediatamente uma produção diante de qualquer problema, além de processos de rechecagem, testes e validações.
Outro ponto destacado pelo executivo foi a segurança digital que também passou a fazer parte desse monitoramento. O CEO apontou a cibersegurança como uma prioridade que vem ganhando espaço na agenda da alta liderança das empresas de saúde. “É um desafio para todos nós, inclusive da agência e do governo, de como a gente também se prepara para esse mundo novo que vem da inteligência artificial”, disse.
Anvisa busca fortalecer pós-mercado
Do lado regulatório, Tiago Lopes Cardoso Campos, diretor da 5ª Diretoria da Anvisa, destacou que a agência vem buscando fortalecer o monitoramento dos produtos depois que eles chegam ao mercado.
Segundo ele, historicamente a Anvisa concentrou parte relevante de sua atuação no registro e na avaliação prévia dos produtos. O desafio agora é ampliar a atenção ao chamado pós-mercado, quando os produtos passam a interagir com uma população maior e podem surgir novas variáveis e riscos.
O diretor também defendeu uma atuação regulatória baseada em diálogo com o setor e afirmou que a agenda de segurança e qualidade dos serviços de saúde vem sendo construída a partir das próprias necessidades identificadas no sistema.
“Temos feito esforço para também fazer o fortalecimento daquilo que é talvez o mais importante do ciclo de vida dos produtos: quando eles, de fato, vão ao mercado”, afirmou.
Outro ponto levantado por Campos foi a necessidade de ampliar a convergência regulatória internacional. Para ele, o Brasil já apresenta forte atuação internacional em diferentes áreas da Anvisa, mas ainda existem segmentos nos quais a análise comparativa com outros países pode avançar.





