Com 1,13 bilhão de exames realizados e faturamento conjunto de R$ 25,7 bilhões, as empresas integrantes da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed) mostram a dimensão da medicina diagnóstica no sistema de saúde brasileiro. O segmento ganha peso nas estratégias de hospitais e empresas de saúde, e concentra uma parcela relevante dos investimentos em tecnologia, equipamentos e inovação.
Para Fernando Ganem, CEO do Hospital Sírio-Libanês, a decisão sobre incorporar uma tecnologia precisa partir de uma avaliação estratégica sobre a capacidade da instituição de atender seus pacientes com qualidade e segurança.
“Se algum paciente ou algum profissional escolher não estar na nossa instituição porque nós não temos o recurso para fazer o diagnóstico ou para fazer o tratamento dele, nós temos um problema de sustentabilidade”, afirma.
Diagnóstico como unidade estratégica
No Sírio-Libanês, a demanda crescente da medicina diagnóstica levou à criação de uma estrutura específica para a área. A instituição também passou por um processo de internalização de serviços, incluindo laboratório e patologia, com o objetivo de ampliar a capacidade de resposta às demandas internas.
Segundo Ganem durante a 10ª edição do Fórum Internacional de Lideranças da Saúde (FILIS), a modernização trouxe ganhos importantes de velocidade. Um exemplo citado durante o painel foi a realização de exames laboratoriais em poucos minutos. Reduzindo, assim, o tempo de espera e alterando a dinâmica de atendimento, especialmente em áreas como pronto-socorro.
A estratégia, entretanto, não significa deixar de lado parcerias externas. Para o executivo, hospitais precisam avaliar continuamente o que faz sentido desenvolver internamente e o que pode ser obtido por meio de parceiros especializados.
“Aquilo que temos competência e condição de fazer como instituição deve ser cogitado. Mas não podemos deixar de avaliar possíveis parceiros que podem nos trazer o que buscamos do ponto de vista da qualidade, da segurança e da entrega”, explica.
Essa abertura se torna ainda mais importante diante da velocidade com que novas tecnologias chegam ao mercado. Ganem relatou ter recebido propostas de equipamentos e métodos desenvolvidos em diferentes países, incluindo uma ressonância magnética portátil apresentada por um grupo chinês.
O ponto central, segundo ele, é avaliar se a tecnologia tem potencial para resolver problemas concretos da assistência, além de verificar questões como segurança, qualidade e regulamentação. “É responsabilidade nossa fazer a triagem, alinhar a estratégia da instituição e fazer as escolhas que a gente puder implementar”, afirmou.
Einstein aposta em um ecossistema de inovação
No Hospital Israelita Albert Einstein, a estratégia de inovação também passou por uma transformação. Henrique Neves, diretor-geral da instituição, conta que, em meados da década passada, o hospital começou a questionar se o crescimento por meio de aquisições seria o único caminho possível para uma organização de saúde.
A alternativa encontrada foi investir em novas áreas e criar condições para que a inovação pudesse acontecer dentro de um ecossistema mais amplo. Entre os temas identificados como estratégicos, estavam big data e analytics, genômica, terapias celulares e saúde digital.
A partir daí, o Einstein passou a desenvolver projetos próprios, parcerias e iniciativas com startups. A experiência também levou a uma mudança na própria visão estratégica do hospital. “A gente não se vê mais como produtores de serviços na área da saúde, a gente se vê como um ecossistema que tem múltiplas facetas”, destaca.
Neves destaca, porém, que inovar dentro de uma organização de saúde não é simples. A operação cotidiana exige alto nível de qualidade, controle de custos e produtividade, o que pode dificultar que as mesmas equipes responsáveis pela assistência também tenham tempo e estrutura para desenvolver novas soluções.
Por isso, o hospital passou a trabalhar com uma incubadora, aproximando startups dos problemas concretos encontrados na assistência. “Não há uma única rota. São várias experiências que a gente vai fazendo ao longo do tempo”, disse.
Parcerias de longo prazo
A evolução do modelo também ampliou a relação do Einstein com empresas de tecnologia. Neves cita iniciativas que envolvem investimentos de aproximadamente US$ 3 milhões ao longo de cinco anos. A lógica é aproximar a indústria dos problemas reais encontrados no ambiente clínico e permitir que novas soluções sejam desenvolvidas em contato direto com profissionais e participantes.
“Esses projetos são naturalmente de longo prazo e existe um comitê operacional que executa os projetos. Então, o comitê estratégico decide quais projetos serão executados no âmbito daquela colaboração”, explica.
O hospital também criou estruturas de governança para acompanhar essas iniciativas. Um comitê de empreendedorismo e inovação reúne diferentes áreas da organização para discutir investimentos, resultados, processos e novas colaborações.
A tese é que inovação não pode funcionar como uma atividade isolada dentro de um hospital. Ela precisa estar conectada à estratégia, à governança e à capacidade financeira da instituição.
O desafio de financiar a inovação
A necessidade de investir em tecnologia, porém, esbarra em um dos principais desafios do setor: a sustentabilidade financeira. Júlio Vieira, CEO do Hcor, destaca que a medicina diagnóstica demanda investimentos elevados e ocupa uma posição relevante dentro da estrutura econômica dos hospitais.
Segundo ele, o levantamento apresentado durante o painel aponta que os associados da Abramed investiram cerca de R$ 900 milhões em CAPEX em medicina diagnóstica em 2025, principalmente em radiologia e medicina laboratorial.
Para Vieira, o desafio é conciliar investimentos necessários para manter o parque tecnológico atualizado com recursos limitados e margens pressionadas. “Como é que a gente gera resultado para suportar a minha depreciação e investimento em tecnologia, e como a gente coloca essa discussão na concorrência do meu crescimento?”, questionou.
Vieira explica que hospitais precisam primeiro gerar recursos para repor ativos depreciados e, ao mesmo tempo, disputar capital com projetos de expansão e inovação.
“Quando falamos em investimento em equipamentos, pensamos muito na compra de uma ressonância, de uma tomografia ou de um ultrassom. Só que esse investimento não vem sozinho. Ele também exige investimentos em infraestrutura para suportar e acomodar esse equipamento, além de um custeio adicional para mantê-lo em operação”, explica Vieira.
No caso dos equipamentos médicos, o investimento também vai muito além da aquisição. Uma nova ressonância, tomografia ou ultrassom exige infraestrutura adequada, contratos de manutenção, reposição de peças, mão de obra e outros custos recorrentes. Ainda assim, Vieira avalia que a medicina diagnóstica tende a ganhar importância nos próximos anos, principalmente diante da transição para uma assistência mais preventiva.
Diagnóstico ganha importância na prevenção
A mudança de uma medicina predominantemente reativa para uma abordagem mais preventiva aumenta o peso estratégico do diagnóstico. O desafio, no entanto, não está apenas na tecnologia. Também envolve a criação de modelos de remuneração capazes de sustentar essa transformação.
“Vejo que ainda é um grande desafio que temos no setor, porque não sabemos muito bem como remunerar uma medicina preventiva”, afirma Vieira. Para ele, a medicina diagnóstica tem uma dupla função dentro dos hospitais: é uma importante geradora de resultado e, ao mesmo tempo, uma porta de entrada para pacientes, além de uma ferramenta essencial para a tomada de decisão clínica.
A demanda por exames também é impulsionada pela mudança demográfica e pelo aumento da prevalência de doenças crônicas.
Para Milva Pagano, diretora-executiva da Abramed, a inversão da pirâmide etária ajuda a explicar esse movimento. “É natural que as pessoas precisem de mais exames, porque você tem um aumento na prevalência e na incidência de doenças crônicas, e você acaba precisando de mais exames. E a cultura do cuidado também mudou. As pessoas estão mais conscientes, mais empoderadas sobre a sua saúde”, diz.
Anvisa busca acelerar inovação
No campo regulatório, a discussão sobre inovação ganha outra dimensão. Diogo Pena Soares, diretor adjunto da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), afirma que o papel da agência é acompanhar a evolução tecnológica sem permitir que a regulação se transforme em um obstáculo ao desenvolvimento.
Com 21 anos de experiência na Anvisa e passagem pela área de serviços de saúde, Soares explica que a agência atua em diferentes etapas da cadeia da medicina diagnóstica, desde autorização de funcionamento e licenciamento até certificação de boas práticas, registro de dispositivos médicos e regulação de insumos e equipamentos.
Para ele, o foco da Anvisa não é simplesmente regulamentar produtos ou processos, mas reduzir riscos à saúde. “O objeto da Anvisa é risco à saúde”, resume.
O desafio está justamente em encontrar o ponto de equilíbrio entre uma barreira sanitária necessária e uma exigência que passe a impedir o desenvolvimento de novas tecnologias.
Inovações como desenvolvimento
Soares afirma que a Anvisa precisa acompanhar os avanços científicos e tecnológicos desenvolvidos no País. Segundo ele, o Brasil já tem capacidade para desenvolver tecnologias sofisticadas, como terapias avançadas, e a agência precisa dar respostas ágeis e seguras a essas inovações.
Entre as inovações da Anvisa, ele cita a iniciativa de um Comitê de Inovação, que reúne alta gestão, áreas técnicas e profissionais responsáveis pelas avaliações regulatórias para buscar soluções para tecnologias emergentes.
A agência também abriu um edital para selecionar dez projetos inovadores em dispositivos médicos e acompanhar seu desenvolvimento desde etapas iniciais. A proposta é permitir que o regulador compreenda melhor tecnologias que ainda estão em desenvolvimento e, ao mesmo tempo, identifique caminhos regulatórios adequados.
Para Soares, essa mudança é fundamental para que a Anvisa deixe de ser vista apenas como uma barreira. “A Anvisa tem que fomentar, ser uma indutora de inovação”, afirma.





