Nunca houve tantas marcas disputando atenção ao mesmo tempo e tanta informação disponível na palma da mão de cada um de nós. E, paradoxalmente, nunca foi tão difícil ser lembrado. O consumidor atual vive em estado permanente de excesso. Excesso de conteúdo, de estímulos, de notificações e de escolhas. Nosso cérebro toma milhares de microdecisões todos os dias, numa velocidade que o mercado talvez ainda não tenha compreendido completamente. O problema é que boa parte das marcas continua reagindo a esse cenário, produzindo ainda mais ruído.
A economia digital acelerou uma lógica da obsessão pela presença constante. Toda marca quer aparecer, quer viralizar e entrar na trend da semana. Mas poucas conseguem responder à pergunta mais importante de todas: alguém realmente vai lembrar disso daqui a um mês?
Talvez esse seja um dos maiores dilemas do marketing contemporâneo. As marcas nunca produziram tanto conteúdo, mas raramente produziram tão pouca memória. Existe uma diferença brutal entre alcance e lembrança.
O mercado entrou numa espécie de corrida coletiva pela próxima tendência. Ontem era a paleta mexicana. Depois veio o cupcake gourmet, o frozen yogurt, o poke, o pistache em tudo, o TikTok Shop, os ovos de Páscoa “edição limitada”, os copos colecionáveis, os produtos feitos para render vídeo curto. O problema não está na tendência em si. Tendências sempre fizeram parte do consumo. O problema começa quando todas as marcas passam a falar igual, se comportar igual e copiar a mesma estética, a mesma linguagem e os mesmos códigos culturais.
A lógica das plataformas digitais ajudou a acelerar isso. Os algoritmos premiam repetição, velocidade e adaptação rápida. Quando um formato funciona, milhares de empresas o reproduzem imediatamente. Quando um meme viraliza, ele se espalha em questão de horas. Quando um produto explode no TikTok, dezenas de concorrentes aparecem quase instantaneamente oferecendo versões parecidas.
A consequência é um mercado visualmente saturado e emocionalmente genérico.
E a Inteligência Artificial está ampliando ainda mais esse fenômeno. Hoje é possível gerar nome, slogan, identidade visual, textos, campanhas, anúncios, vídeos e até posicionamento em poucos minutos. O ganho de produtividade é impressionante; o problema é que ele não significa originalidade.
Assim, a IA começa a criar um oceano de marcas extremamente eficientes, mas perigosamente parecidas. Porque os modelos generativos aprendem justamente com padrões de sucesso já existentes. Eles reproduzem o que funciona. E quando milhares de empresas usam as mesmas referências, os mesmos prompts e os mesmos atalhos criativos, o resultado tende naturalmente à padronização.
As empresas que conseguem permanecer no imaginário popular normalmente fazem algo muito mais difícil do que viralizar: elas constroem coerência ao longo do tempo. Elas possuem símbolos reconhecíveis, narrativa clara, identidade consistente e uma proposta de valor que não muda a cada novo algoritmo.
O consumidor pode até entrar em contato com centenas de conteúdos por dia, mas ele ainda guarda espaço mental para poucas marcas. E essas marcas raramente são as mais barulhentas. São as mais distintas. São aquelas que entendem sua real necessidade, fazem parte de seu cotidiano, memórias mais íntimas, e ocupam um espaço emocional desproporcionalmente maior que o espaço racional.
Talvez a provocação mais importante para as empresas hoje seja justamente essa: sua marca está construindo memória ou apenas ocupando espaço no feed? E isso talvez seja justamente o que o mercado mais corre o risco de perder na era da Inteligência Artificial e da hiperaceleração digital: a capacidade de construir marcas humanas, memoráveis e verdadeiramente únicas.

Fernando Moulin é CEO & Founder da Polaris Group, aceleradora estratégica de negócios, professor e palestrante internacional, especialista em transformação digital e experiência do cliente e coautor dos best-sellers “Inquietos por natureza”, “Você brilha quando vive sua verdade” e “Foras da curva”.





