Os resultados do segundo trimestre de 2026 do Mercado Livre consolidam uma tese que a empresa defende há um bom tempo. Investimento pesado em frete grátis, crédito, sortimento e Inteligência Artificial ajudam a aprofundar o engajamento do consumidor dentro do ecossistema do grupo.
A receita líquida e os rendimentos financeiros do trimestre somaram US$ 10,2 bilhões, alta de 50% na comparação anual. Trata-se do ritmo de crescimento mais acelerado em quatro anos. Além disso, é a primeira vez que o Mercado Livre supera a marca de US$ 10 bilhões em um único trimestre.
O lucro operacional foi de US$ 683 milhões, com margem de 6,7%, e o lucro líquido chegou a US$ 466 milhões, com margem de 4,6%.
Apesar dos números acima das projeções de mercado, o lucro líquido caiu na comparação com o mesmo período do ano anterior. Essa é a terceira queda trimestral consecutiva. Já a margem operacional recuou em relação ao histórico recente da companhia.
A pressão sobre a rentabilidade no curto prazo tem justificativa: o aumento dos custos de aquisição de usuários, a expansão do frete grátis no Brasil e as provisões associadas ao crescimento acelerado da carteira de cartões de crédito.
O usuário como termômetro de CX
Segundo a companhia, os chamados “usuários ecossistêmicos” – ativos tanto no marketplace quanto no Mercado Pago – cresceram 37% na comparação anual. Trata-se do segmento mais valioso e de maior crescimento da base.
Esses usuários geram 70% mais volume de vendas por pessoa do que quem usa apenas o marketplace, e quase 90% mais volume de pagamentos do que quem usa somente a fintech.
Na prática, o resultado reforça que a jornada integrada – comprar, pagar, parcelar e ser recompensado dentro do mesmo ambiente – é o que retém o consumidor e amplia o quanto ele gasta na plataforma.
O CFO Martín de los Santos reforça essa leitura: “os usuários que interagem com múltiplos produtos compram mais, poupam mais” do que aqueles que utilizam apenas uma parte do ecossistema. Para o executivo, cada investimento em frete grátis – que já se tornou uma nova régua de experiência para o consumidor brasileiro –, no programa de fidelidade MELI+ ou no cartão de crédito tem como objetivo reforçar esse ciclo de engajamento.
Frete grátis, cartão de crédito e recorrência
Segundo a companhia, o volume de vendas brutas no País cresceu 39% em moeda constante no trimestre, com o número de itens vendidos avançando 56% na comparação anual. Esse é um desempenho superior ao de México e Argentina, ainda que ambos os mercados também tenham registrado crescimento de dois dígitos.
O resultado chega um ano após a redução do valor mínimo para o frete grátis no Brasil. Segundo o Mercado Livre, a proporção de usuários ativos diários em relação aos mensais tem crescimento mais rapidamente a cada trimestre. Ainda, os compradores que chegaram ao ecossistema após a mudança adquirem mais itens, em mais categorias e com maior retenção do que os anteriores.
No braço financeiro, o Mercado Pago superou, pela primeira vez, US$ 100 bilhões em volume total de pagamentos em um trimestre, alta de 56% em dólares. Os usuários ativos mensais somaram 88 milhões, crescimento de 30% na comparação anual, com Brasil e México puxando a aceleração. A carteira de crédito avançou 75% em dólares, superando US$ 16 bilhões. Ela foi impulsionada pela emissão de 2,6 milhões de cartões no trimestre, ante 1,6 milhão um ano antes.
Os indicadores de inadimplência de 15 a 90 dias ficaram próximos das mínimas históricas, tanto no cartão de crédito (4,6%) quanto na carteira total (7,0%). A empresa atribui esses dados a uma mudança deliberada e plurianual em direção a tomadores de crédito de menor risco.
IA como infraestrutura
Outro pilar do ecossistema do Mercado Livre é a Inteligência Artificial, que funciona como uma infraestrutura de operação. Segundo a companhia, o volume de códigos escritos por humanos se tornou uma exceção. Já o volume de código enviado para produção cresceu 90% na comparação anual. Nesse novo cenário, produtos e funcionalidades estão sendo desenvolvidos e lançados com mais velocidade para os usuários.
Assim, agentes de IA revisaram de forma autônoma mais de meio milhão de submissões e migraram cerca de 9 mil serviços ao longo do último ano. Segundo a empresa, este é ganho estrutural de produtividade que, por sua vez, está acelerando o roadmap de produto.
No marketplace, o Mercado Livre concluiu o rollout de uma arquitetura de busca baseada em IA nos sites dos cinco maiores países onde opera. O resultado são ganhos em conversão e em taxas de clique que, segundo a companhia, mais do que compensaram o custo de usar modelos de linguagem de terceiros.
Já o Mercado Ads conta com um assistente de IA que chega aos vendedores pelo WhatsApp. A solução oferece recomendações automatizadas de orçamento e retorno sobre investimento em publicidade, e já alcança dezenas de milhares de vendedores por mês, segundo a empresa. O que, por sua vez, está reduzindo a barreira de entrada de vendedores menores, permitindo investimentos maiores em publicidade.
A receita de publicidade cresceu 73% na comparação anual. O Mercado Livre ultrapassou 10% de participação no mercado de publicidade digital da América Latina pela primeira vez. A companhia atribui parte desse avanço à adoção de ferramentas de IA pelos próprios vendedores e à expansão do crescimento para além do canal de autoatendimento, com maior contribuição dos canais de comércio internacional e de grandes marcas.
Ecossistema entrega engajamento
Após a divulgação do balanço do trimestre, as ações chegaram a subir na Nasdaq. Mas poucas horas depois veio a queda, com uma desvalorização passou de 8% nesta quinta-feira (6).
Os números do segundo trimestre confirmam que a estratégia de experiência do cliente do Mercado Livre está atuando, principalmente, na profundidade de engajamento do consumidor. Mais usuários compram, pagam e se relacionam com múltiplas frentes do ecossistema simultaneamente, que crescem em ritmo acelerado.
Mas, a apreensão do mercado é sobre quanto tempo esse ciclo leva para se converter em rentabilidade.





