Empreender nunca foi uma atividade estática, mas as novas gerações, criadas em meio às redes sociais, ao acesso instantâneo à informação e, mais recentemente, à Inteligência Artificial (IA), mudaram a velocidade com que novas ideias chegam ao mercado. Ao mesmo tempo, décadas de experiência oferecem aprendizados que não podem ser simplesmente substituídos por ferramentas digitais.
Para Theo Braga, fundador da PIB, a principal contribuição da nova geração está na combinação entre informação, velocidade e disposição para experimentar. O acesso digital ampliou as possibilidades de aprendizado, mas não eliminou a importância da experiência prática, construída a partir de erros, acertos e situações que não podem ser reproduzidas integralmente em livros ou ferramentas de Inteligência Artificial.
“A velocidade, a ousadia e a inquietude da Geração Z não se ensina em nenhuma sala de aula. Você pode até tentar ensinar, pode recorrer ao ChatGPT, aos livros, mas nada supera a experiência prática. É uma intersecção entre a visão, a ousadia da nossa geração, com a experiência e a resiliência de uma geração que veio antes”, comenta.
O tempo que o empreendedorismo exige
Se a juventude traz velocidade, ela também enfrenta uma expectativa de resultados rápidos. A facilidade para acessar histórias de sucesso nas redes sociais pode criar a percepção de que construir uma empresa é um processo mais curto do que realmente é.
Para Caito Maia, CEO e fundador da Chilli Beans, essa é uma das principais ilusões que precisam ser enfrentadas por quem está no começo: confundir a velocidade para iniciar um negócio com a velocidade necessária para fazê-lo crescer.
“Vejo muita geração nova achando que vai fazer acontecer um negócio em um ano, dois anos, e as coisas não acontecem assim. É uma semente que você vai plantando, que você vai regando, que ela vai crescendo”, relata Caito.
Essa diferença na percepção sobre o tempo também foi associada por Theo à própria relação da geração mais jovem com o excesso de estímulos. A disponibilidade permanente de conteúdo pode alimentar a expectativa de que conhecimento e sucesso estejam disponíveis de maneira instantânea.
“Só o esforço vence, mas o que eu vejo muito é ‘fique rico online rápido’. A única maneira de ficar rico é trabalhando duro e sendo uma pessoa de valor. Vejo uma geração que, muitas vezes, pela facilidade dos 40 segundos da dopamina barata, acha que é tudo muito fácil”, complementa Theo.


IA acelera, mas não substitui pessoas
A Inteligência Artificial aparece como uma das principais diferenças entre o ambiente em que empreendedores de gerações anteriores começaram e o cenário atual. Para Caito, a tecnologia deixou de ser apenas uma promessa e passou a integrar decisões concretas da operação.
Na Chilli Beans, a IA é utilizada para auxiliar pedidos de franqueados, expansão de lojas e outras decisões relacionadas ao negócio. “Quando usamos essa tecnologia, o estoque do franqueado caiu de cinco meses para três semanas. A IA já percebe e lê a venda do franqueado”, relata.
Ao mesmo tempo, a ferramenta aparece integrada a profissionais que interpretam os resultados e utilizam essas informações para tomar decisões. Nessa combinação, Caito identifica uma das diferenças entre simplesmente adotar tecnologia e incorporá-la à estratégia empresarial.
“Da mesma maneira que temos toda a tecnologia, temos o material humano. E é a combinação dessas frentes que faz a diferença. Hoje, 30% da nossa venda é online, mas dentro do ponto físico. Colocamos a tecnologia para que o vendedor faça o cliente ir até a loja ou fazer essa venda no digital”, destaca.
Para Theo, a Inteligência Artificial deve provocar mudanças relevantes no mercado de trabalho, principalmente em atividades repetitivas e técnicas. Isso não significa, porém, o desaparecimento dos empregos ou do trabalho humano. A transformação tecnológica desloca parte da vantagem competitiva para a capacidade de distribuir produtos, serviços e marcas.
“Construir um produto, uma marca, não é mais a barreira de entrada. A grande barreira é a distribuição. Quem detém a distribuição detém a maior força e poder. Se você tem uma distribuição, seja de mídias digitais, base de cliente ou de cadeia logística, você vai vencer o concorrente”, defende.
O consumidor também compra a história
Além de acontecer dentro das empresas, a transformação tecnológica também modifica a relação entre marcas e consumidores. Com redes sociais e plataformas digitais, o público passou a ter acesso mais direto aos fundadores e às histórias por trás das companhias. Nesse cenário, a figura do empreendedor pode deixar de ser apenas uma representação institucional e se transformar em um elemento de conexão com o consumidor.
Caito relaciona esse movimento à própria experiência à frente da Chilli Beans e à exposição proporcionada pelo Shark Tank. Para ele, quando o fundador assume publicamente a identidade da marca, cria-se uma relação diferente com o público, que passa a observar não apenas o produto, mas também quem está por trás dele, seus valores e sua forma de pensar.
“A cara do dono faz total diferença para a decisão de consumo do cliente, para o bem e para o mal. Por que isso? Porque o dono tem verdade, porque ama o que faz, tem paixão”, reforça.
A construção de uma marca pessoal, no entanto, também apresenta um risco: tornar a empresa dependente demais da figura do fundador. Theo Braga diferencia esses dois movimentos e pontua que o empreendedor pode funcionar como um canal de aquisição e contribuir diretamente para a geração de negócios, mas a empresa precisa ter uma estrutura própria para sobreviver além de sua imagem pessoal.
“Hoje eu sou um dos canais de aquisição e represento 30% dos leads gerados para a minha empresa, mas ela tem que ser maior do que o Theo. Diria que isso é um veneno e um antídoto. Se a empresa depender sempre disso, não é uma empresa. Mas, se você for um dos canais, pode ser uma baita de uma solução”, reforça.

Conhecer o cliente antes de buscar outro
A clusterização é uma das estratégias utilizadas pela Chilli Beans para adaptar preços e ofertas de acordo com o perfil de cada loja. A lógica parte do reconhecimento de que consumidores de regiões e estabelecimentos diferentes podem apresentar padrões distintos, mesmo quando pertencem a faixas etárias semelhantes.
“Temos aumentado em quase 20% a venda quando colocamos o preço certo. Por exemplo, em lojas de classe C, colocamos produtos de R$ 299 para baixo, e a venda aumenta quase 40% quando a gente coloca o preço certo para o consumidor”, explica.
A relação com quem já é cliente também aparece na estratégia de Caito. Em vez de concentrar todos os esforços na aquisição de novos consumidores, o empresário defende o uso da base existente para construir novas oportunidades de venda e relacionamento.
“Em vez de eu ficar buscando cliente, pagando caro pelos clientes, eu vou falar com o cliente que já é meu, e isso também está trazendo venda e fluxo para a companhia”, frisa.
Começar antes da perfeição
Apesar das diferenças de idade, experiência e contexto tecnológico, há uma convergência: empreender exige disposição para começar.
Para Paulo Opice Blum, essa lógica esteve presente na criação do Protagonistas Jovens. O projeto começou antes de ter uma estrutura consolidada e foi desenvolvido a partir da prática, da constância e da disposição para continuar mesmo quando os resultados ainda não estavam claros.
“Feito é melhor que perfeito. Quando, no ano passado, estava sem ideia e sem propósito de verdade, passei a gravar meus vídeos e estava tudo errado, porque eram de uma qualidade péssima e ninguém acreditava no projeto. Com constância e, acima de tudo persistência, conseguimos”, conta. “Tenho certeza que o empreendedorismo é a chave do Brasil”, acrescenta.
Theo segue uma linha semelhante ao defender que o excesso de planejamento pode se transformar em uma barreira para a execução.
“O mundo é dos inquietos, daqueles que acreditam e dão uma dose de loucura. Muitas vezes, sonhamos em ter algo perfeito, mas nunca estará. No dia em que estiver perfeito, pode vender o negócio. Na vida, você tem que só começar, ter atitude, ousadia, te e inquietude. Para quem sonha muito, planeja muito, uma ideia sem execução é só uma alucinação”, ressalta.
Caito reforça que a permanência no mercado depende da capacidade de reconhecer mudanças, corrigir caminhos e continuar aprendendo. É uma perspectiva que aproxima a experiência de quem está há décadas no mercado da inquietude defendida pelos empreendedores mais jovens.
“O empreendedorismo não é fácil, porque você tem os seus momentos de up, os seus momentos de down, mas está sempre aprendendo, evoluindo e construindo para ir para frente”, diz. “O Brasil dessa geração radical. Eu peço, por favor, para as pessoas não ficarem igual a todo mundo. Tenha coragem e atitude. Não copia, não coloca sua roupa cinza, preto e branco. Coloca a roupa colorida, arrisca, tenha personalidade”, finaliza.





