Novembro chegou e, em muitas empresas, as decisões para 2027 estão sendo tomadas. Metas, orçamentos, Inteligência Artificial, produtividade, inovação e crescimento ocupam as reuniões de planejamento estratégico. São escolhas que precisam se transformar em resultados já no próximo ano.
Mas existe uma pergunta que merece entrar nessas conversas: quem está sendo considerado quando a empresa decide onde investir, como inovar e para quem criar valor?
Ao longo da minha trajetória trabalhando com comportamento humano, insights e inovação, aprendi que compreender pessoas não é uma etapa complementar da estratégia. É parte da própria construção da estratégia.
E quando observo como as organizações lidam com a diversidade geracional, encontro uma contradição: temos cada vez mais experiências e idades convivendo no trabalho, mas nem sempre essa diversidade chega às decisões que orientam os negócios.
Uma empresa pode ser diversa na composição, limitada na escuta e homogênea nas decisões.
Os números já estão na mesa
Em artigo publicado pela Fiocruz em 2026, o demógrafo José Eustáquio Diniz Alves destaca que, em 2029, a população brasileira com 60 anos ou mais deverá superar a de crianças e adolescentes de até 14 anos. Mas a transformação que esse número representa já está acontecendo nas empresas, nas famílias e no mercado consumidor.
O que chama minha atenção é a distância entre essa realidade e as decisões organizacionais. Uma pesquisa divulgada em setembro de 2026 pela Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV), com representantes de 110 organizações brasileiras, revelou que apenas 7,3% das participantes afirmaram ter integrado a longevidade à estratégia. Em 38,2%, o assunto sequer havia sido discutido.
Os resultados se referem às empresas pesquisadas, mas trazem uma provocação relevante
para qualquer organização que esteja planejando 2027.
Se a sociedade já mudou, por que continuamos planejando como se as pessoas fossem as mesmas?
Três perguntas para 2027
Quando falamos em diversidade geracional, muitas vezes começamos pela convivência entre profissionais de diferentes idades. É importante, mas insuficiente. O impacto dessa diversidade vai muito além das relações internas.
Por isso, proponho olhar para três dimensões que deveriam atravessar as decisões estratégicas: quem trabalha, quem decide e quem consome.
QUEM TRABALHA? As empresas investem em contratação, desenvolvimento e retenção, mas quanto conhecimento deixam de aproveitar por não reconhecerem diferentes repertórios? A pesquisa da ABQV mostrou que apenas 15,5% das organizações participantes possuíam programas de mentoria ou transferência de conhecimento entre gerações. Em um cenário de pressão por produtividade, aproveitar melhor as competências que já existem pode ser tão importante quanto buscar novas habilidades no
mercado.
QUEM DECIDE? Uma organização pode ter profissionais de diferentes gerações e continuar tomando decisões a partir das mesmas perspectivas. Isso acontece quando experiências são desconsideradas, quando a escuta é apenas formal ou quando a idade se transforma em um atalho para julgar competências. A diversidade, sozinha, não garante melhores decisões. É preciso criar condições para que diferentes pontos de vista sejam considerados.
QUEM CONSOME? Quantas oportunidades de crescimento podem estar sendo ignoradas porque as empresas continuam interpretando consumidores a partir de perfis etários simplificados? Pessoas da mesma idade não necessariamente compartilham comportamentos, desejos ou necessidades. Compreender essas diferenças permite identificar mercados pouco explorados, desenvolver produtos e serviços mais relevantes e criar experiências que realmente correspondam às expectativas das pessoas. A idade pode orientar uma segmentação, mas não substitui o conhecimento sobre comportamento.
A idade nos oferece uma informação. Não nos conta a história inteira.
Essas três perguntas conectam gestão de pessoas, cultura, experiência do cliente, marketing e inovação. E permitem identificar onde a diversidade geracional pode contribuir para decisões mais consistentes, melhor aproveitamento de recursos e novas oportunidades de negócio.
O que realmente entra na estratégia?
Não acredito que toda empresa precise criar um novo programa de diversidade geracional para 2027. Talvez a mudança mais importante seja incorporar essa perspectiva aos investimentos que já estão sendo planejados.
Ao desenvolver uma solução com Inteligência Artificial, estamos considerando como pessoas com diferentes experiências vão utilizá-la? Ao lançar um produto, estamos ouvindo consumidores que representam a diversidade do mercado? Ao revisar a estratégia de talentos, estamos reconhecendo competências ou reproduzindo estereótipos sobre idade?
É aqui que meus cinco territórios de estudo e atuação se encontram. O comportamento humano nos ajuda a compreender escolhas. As gerações ampliam os repertórios. A empatia nos permite questionar nossas próprias certezas. A inovação transforma essa compreensão em soluções. E a longevidade amplia os contextos e as oportunidades em que tudo isso acontece.
Não basta reunir gerações. É preciso transformar diferenças em colaboração.
E colaboração não significa pensar igual. Significa criar espaço para que diferentes experiências influenciem as decisões e contribuam para resultados.
O que fica para depois também custa
O planejamento de 2027 está sendo definido agora. E toda decisão sobre onde investir também revela quais perspectivas uma empresa escolheu considerar e quais deixou de fora.
A diversidade geracional não precisa ser mais uma linha no orçamento. Precisa ser uma lente para avaliar a qualidade das decisões que já estão sendo tomadas.
Porque ignorar diferentes comportamentos, experiências e necessidades pode custar talentos, conhecimento, oportunidades comerciais e investimentos em soluções que não conversam com a realidade das pessoas.
O que deixamos para depois também faz parte da estratégia.
E talvez a pergunta que devesse encerrar uma reunião de planejamento seja esta: Estamos investindo para crescer em 2027. Mas será que estamos considerando todas as pessoas que podem fazer esse crescimento acontecer?





