- 72% dos consumidores estão preocupados com a alta dos preços de produtos básicos.
- 54% compram apenas de marcas nas quais confiam completamente.
- Um em cada três prefere comprar menos produtos, desde que tenham melhor qualidade.
- Benefícios imediatos, segurança e controle devem pesar mais nas escolhas em 2027.
Em um passado não muito distante, as marcas até podiam pedir paciência aos consumidores. Compre agora, acumule pontos, mantenha a assinatura, siga o tratamento, espere os resultados e, em algum momento, a recompensa chegará.
Mas, ultimamente, o futuro anda pouco convincente.
Com o sobe e desce dos preços, produtos desaparecendo das prateleiras, serviços alterando regras e a tecnologia tomando decisões cada vez maiores, o consumidor passou a valorizar “o que eu ganho com isso agora“.
Essa busca por uma comprovação mais rápida de valor aparece no relatório Principais Tendências Globais de Consumo para 2027, da Euromonitor International. O estudo realizado com mais de 40 mil consumidores de países diversos entre janeiro e fevereiro de 2026, mostra um consumidor menos disposto a confiar apenas na promessa das empresas e mais interessado em encontrar segurança, transparência e algum controle sobre aquilo que compra.
Isso não quer dizer que todo mundo passou a pensar apenas no curto prazo. Mas esperar meses por um benefício que talvez não chegue já não parece tão interessante quanto antes.
O barato pode sair caro
O aumento do custo de vida continua no centro das decisões: 72% dos consumidores ouvidos estão preocupados com a alta dos preços de produtos básicos.
Mas o que parece barato na etiqueta pode custar caro em tempo, paciência e frustração. E isso está cada vez mais valioso.
Um produto que vive em falta, muda de qualidade a cada compra ou exige uma nova pesquisa toda vez que acaba não entrega exatamente uma boa economia. Por isso, 54% afirmam comprar apenas de marcas nas quais confiam completamente e 56% pesquisam bastante antes de escolher um produto ou serviço. Além disso, um em cada três consumidores prefere comprar menos itens, desde que sejam melhores.
A conta do valor agora inclui a disponibilidade do produto, seu funcionamento e um preço minimamente previsível. Mas existe outro custo que não aparece na etiqueta: o esforço.
Enquanto 42% dos consumidores se sentem pressionados pela quantidade de coisas que precisam realizar, 69% procuram maneiras de simplificar a vida. Assim, economizar tempo, diminuir etapas e evitar decisões desnecessárias também passam a ser formas de entregar valor.
O futuro já não parece uma boa garantia
A exigência por valor imediato nasce de uma relação mais pessimista com o futuro. Apenas 26% dos consumidores afirmam ter dinheiro disponível em uma reserva de emergência e 38% acreditam que o mundo estará mais perigoso nos próximos cinco anos. Ao mesmo tempo, 44% preferem aproveitar a vida sem se preocupar tanto com o planejamento do futuro.
Essa preferência pelo que pode ser comprovado agora já aparece nas vendas. Entre o primeiro trimestre de 2024 e o segundo trimestre de 2026, as vendas globais de produtos de consumo com promessas concretas e verificáveis no presente cresceram 33%. Já aquelas apoiadas em conceitos genéricos ou benefícios que só poderiam ser conferidos no futuro avançaram 18%.
Na prática, expressões como “resultado em sete dias”, “clinicamente testado” e “garantia de devolução do dinheiro” ganharam mais espaço do que promessas amplas como “premium”, “inovador”, “sustentável” ou “feito para durar”.
Isso muda a maneira de vender praticamente tudo. Um programa de fidelidade, por exemplo, perde força quando exige meses de compras para liberar um benefício pouco relevante. Uma assinatura parece menos atraente quando a economia só aparece depois de muito tempo. Até promessas ligadas à saúde, à carreira e ao bem-estar passam a ser avaliadas pelo que conseguem entregar no caminho, e não apenas no final.
“Os consumidores não estão mais simplesmente comprando produtos ou serviços. Eles estão procurando confiança”, afirma Ali Angus, head de Inovação da Euromonitor International.
A IA pode ajudar, mas não mandar
Essa necessidade de segurança e controle aparece inclusive na relação com a Inteligência Artificial. O uso da tecnologia disparou: 81% dos consumidores já recorrem à IA generativa para ajudar em atividades cotidianas. O tráfego enviado por essas ferramentas para páginas de produtos cresceu 376% entre janeiro de 2025 e julho de 2026.
Mesmo assim, só 19% consideram a IA uma fonte extremamente confiável para decidir uma compra. Quando o assunto é saúde, o índice cai para 12%.
O consumidor aceita usar a IA para resumir opções, comparar preços, localizar produtos e economizar alguns cliques, mas ainda não quer entregar a sua decisão.
Por isso, automatizar etapas não será necessariamente visto como avanço. O valor da IA dependerá da capacidade de explicar por que uma recomendação apareceu, quais informações foram usadas e como a pessoa pode alterar ou recusar aquela escolha.
A marca diz, mas o consumidor confere com alguém
A comprovação de valor deixou de depender da comunicação das empresas faz tempo. Segundo a Euromonitor, 72% dos consumidores confiam nas recomendações de amigos e familiares na hora de comprar.
Quase metade considera importante participar ativamente de uma comunidade e 40% pretendem aumentar esse envolvimento nos próximos anos.
Isso mostra por que grupos de mensagens, comunidades digitais, avaliações e conversas entre consumidores interferem tanto nas decisões. A empresa pode dizer que um produto funciona, mas muita gente ainda vai perguntar para alguém que já investiu o seu dinheiro ali.
Afinal, o que o consumidor entende como valor?
Em 2027, valor pode ser um desconto. Mas também será encontrar o produto sempre que precisar, receber aquilo que foi prometido, não precisar estudar um regulamento enorme e conseguir resolver rapidamente qualquer problema.
Será ter uma IA que ajude sem tomar o controle. Uma assinatura que mostre o benefício antes da próxima cobrança. Um programa de fidelidade em que a recompensa possa ser usada, uma entrega que chegue na data e uma marca que não mude as regras depois de conquistar o cliente.
A antiga fórmula de apresentar uma promessa grandiosa e pedir confiança perdeu força e deve perder ainda mais. O consumidor quer provas menores, mais rápidas e repetidas a cada contato.
Esse é o recado das tendências para 2027. Mais do que prometer, é preciso funcionar bem, explicar com clareza e entregar valor antes de pedir mais tempo, dinheiro ou fidelidade.





