- A inadimplência caiu pelo segundo mês seguido, para 29,3%, enquanto o endividamento ficou praticamente estável em 81,6%, segundo a Peic/CNC de outubro.
- Famílias com renda de até três salários mínimos foram as únicas com alta nos atrasos (38,6%), e o endividamento na faixa de 5 a 10 salários subiu 1,4 ponto em um mês.
- No primeiro mês sem as plataformas de apostas, as buscas on-line por itens de supermercado, farmácia e varejo digital cresceram, mas o impacto real no consumo só será medido em dezembro.
O orçamento das famílias brasileiras deu um pequeno respiro em outubro, mas ainda está longe de confortável. Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), 81,6% dos lares têm algum tipo de dívida a vencer. Em setembro, o número era de 81,7%. É o segundo recuo do ano, e agora o índice volta ao patamar de junho.
A inadimplência caiu pelo segundo mês seguido, de 29,6% para 29,3%, e igualou o menor nível de 2026. Já a fatia de famílias que dizem não ter como quitar as contas atrasadas passou de 12,5% para 12,2%.
Os números sugerem estabilidade. Mas a leitura por faixa de renda mostra um retrato menos uniforme. O único grupo em que a inadimplência subiu foi entre quem ganha até três salários-mínimos.
Os principais números da Peic de outubro
| Indicador | Out/2025 | Set/2026 | Out/2026 |
| Famílias endividadas | 79,5% | 81,7% | 81,6% |
| Famílias com contas em atraso | 30,5% | 29,6% | 29,3% |
| Não terão condições de pagar | 13,2% | 12,5% | 12,2% |
Na comparação com outubro de 2025, o endividamento está 2,1 pontos percentuais mais alto. A inadimplência, por outro lado, está 1,2 ponto abaixo. Ou seja, mais famílias têm dívidas, mas uma parcela menor está deixando de pagá-las.
Menos famílias “muito endividadas”
A composição do endividamento também melhorou. O grupo que se declara muito endividado recuou de 17,3% para 16,8%, o menor percentual desde abril. No sentido oposto, os que se consideram pouco endividados passaram de 34,9% para 35,8%.
A própria CNC faz uma ressalva. O indicador mede a percepção de cada família sobre a própria situação. Estar endividado, na pesquisa, significa ter compromissos financeiros a pagar, como cartão de crédito, cheque especial, carnê, consignado, empréstimo pessoal ou financiamento.
Isso, portanto, não equivale a superendividamento, situação em que a pessoa não consegue pagar o conjunto de suas dívidas sem comprometer o mínimo necessário para viver.
Atrasos mais curtos
O tempo médio de atraso de pagamentos das dívidas caiu de 65,3 para 65,1 dias. A redução se concentrou nas dívidas com mais de 90 dias de atraso, que ainda representam 48,8% do total. Na prática, quase metade das contas em atraso já passou de três meses sem pagamento.
O peso das dívidas no orçamento também diminuiu. A parcela de famílias que comprometem mais da metade da renda com dívidas caiu para 19,3%. Parte delas passou para um patamar menos apertado, em que as parcelas consomem entre 11% e 50% do que ganham.
No entanto, as dívidas de longo prazo perderam espaço. A parcela de famílias com compromissos que se estendem por mais de um ano recuou de 33,8% para 33,4%. Prazos menores reduzem o tempo de exposição à dívida, mas aumentam o valor das parcelas mensais. O que, por sua vez, aperta o orçamento no curto prazo e reduz a margem para novas compras.
O alívio não chegou
O recorte por renda revela onde a pressão continua concentrada.
- Até 3 salários mínimos: o endividamento recuou levemente (de 84,6% para 84,5%), mas a inadimplência subiu de 38,5% para 38,6%. Foi a única faixa com alta nos atrasos. Ainda assim, a fatia que diz não ter como pagar caiu de 18,5% para 18,3%. Na comparação anual, o endividamento desse grupo está dois pontos acima de outubro de 2025.
- De 3 a 5 salários mínimos: endividamento estável em 83,3% e a maior queda da inadimplência entre todas as faixas, de 27,8% para 27,1%.
- De 5 a 10 salários mínimos: o endividamento saltou de 77,9% para 79,3%, alta de 1,4 ponto em um único mês. A inadimplência, porém, caiu de 20,2% para 19,7%. É um sinal de que a classe média está tomando mais crédito, por ora sem perder a capacidade de pagamento.
- Acima de 10 salários mínimos: maior recuo do endividamento (de 71,9% para 71,5%) e inadimplência estável em 15%.
Para o economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, a vulnerabilidade é mais acentuada justamente entre as famílias de menor poder aquisitivo. Grupo em que quase uma em cada cinco admite não ter como sair do atraso.
O efeito do fim das bets
Outubro foi o primeiro mês sem as plataformas de apostas online no Brasil. Segundo a CNC, ainda não é possível medir o impacto sobre o consumo, uma vez que os dados oficiais do IBGE referentes a outubro só serão divulgados em dezembro.
No entanto, a entidade identificou sinais de mudança no comportamento de busca. Entre 6 a 24 de outubro, as pesquisas no Google por itens essenciais de farmácia e supermercado cresceram 2,4%. As buscas por plataformas de varejo digital também subiram: Magalu (7,7%), Mercado Livre (1,5%) e iFood (0,6%).
Fabio Bentes avalia que, com a Selic ainda elevada e o crédito caro, o dinheiro que deixou de ir para apostas tende a ser direcionado tanto para quitar parcelas atrasadas, o que ajuda a explicar a queda na inadimplência, quanto para o consumo.
O que esperar para o fim de 2026
As projeções da CNC indicam nova redução das contas em atraso em novembro e dezembro, com o endividamento estável em torno de 81,6%. O cenário favorece o equilíbrio do orçamento no período de maior consumo do ano, que inclui Black Friday, 13º salário e Natal.
Para o presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, a acomodação dos índices não deve ser lida como recuperação. Na avaliação dele, o orçamento doméstico continua sem fôlego para impulsionar o consumo, e a retomada depende de previsibilidade para o setor produtivo, o que inclui uma reforma tributária menos pesada para os serviços e uma transição gradual no fim da escala 6×1.





