O Brasil chegou a maio de 2026 com 83,5 milhões de consumidores inadimplentes, o equivalente a 50,8% da população adulta, segundo indicadores da Serasa Experian. No ensino superior privado, esse cenário se traduz na mensalidade que concorre não apenas com o aluguel ou a conta de luz, mas também com a sobrevivência imediata. Ou seja, quando a família não encontra saída, o abandono dos estudos costuma ser a consequência mais frequente.
Essa é uma equação que o setor educacional privado tenta resolver há anos. E que, gora, a Cogna Educação, maior grupo do segmento no Brasil, busca tratar como questão central de sua operação.
Ao longo dos últimos anos, a Cogna investiu em tecnologia, análise de dados e melhoria dos processos de relacionamento e negociação com o aluno. Segundo Paulo Castilho, gerente sênior de Cobrança e Gestão Financeira da companhia e palestrante confirmado no CCX Seminário, após as mudanças, o Prazo Médio de Recebimento – indicador que mede o tempo entre a emissão e o pagamento das mensalidades – caiu de 37 para 31 dias entre o primeiro trimestre de 2025 e o primeiro trimestre de 2026. O índice de cobertura da carteira alcançou 70,4%.
“É uma evolução estrutural da operação, construída de forma consistente ao longo do tempo”, afirma Castilho.
A geração de caixa operacional após capex no primeiro trimestre de 2026 atingiu R$ 318 milhões, alta de 27% na comparação anual. A alavancagem da companhia, por sua vez, recuou de 1,28 vezes para 1,13 vezes o EBITDA, enquanto a geração de caixa livre cresceu 68,7% no período.
Para o executivo, a gestão financeira do aluno tem papel direto nesse resultado: “uma gestão financeira eficiente garante que o crescimento se traduza em caixa e sustentabilidade financeira”.
O limite da automação

Parte dessa evolução passa pela tecnologia. A Cogna utiliza alertas automáticos para vencimento de boletos, ações de cobrança automatizadas e canais digitais de renegociação, incluindo atendimento via WhatsApp. Mas Castilho é cuidadoso ao traçar os limites desse modelo.
“A tecnologia amplia nossa capacidade de analisar dados, automatizar processos e tornar a gestão financeira mais eficiente. Mas educação é uma atividade essencialmente humana”, diz o executivo. “Sempre existirão situações que exigem análise individualizada e diálogo com o aluno.”
No ensino superior, a cobrança carrega uma assimetria que outros setores não têm: a mesma instituição que cobra é aquela que forma. Manter o equilíbrio entre eficiência operacional e preservação do vínculo educacional é, ao mesmo tempo, uma questão de gestão e de responsabilidade institucional.
A 17ª edição da Pesquisa de Inadimplência no Ensino Superior Privado, do Instituto Semesp registrou inadimplência de 8,73% no ensino superior privado no primeiro semestre de 2025, dado mais recente da entidade. O número representa queda em relação ao ano anterior nos cursos presenciais, mas piora no EAD, que teve um aumento de 8,4% nos atrasos superiores a 30 dias no período. O que indica que o desafio não é homogêneo e exige abordagens distintas por modalidade.
Ainda, a pesquisa aponta que perda de emprego ou redução de renda (62,8%) e falta de planejamento financeiro (58,1%) são os dois principais motivos pelas instituições de ensino superior privado para o atraso nas mensalidades.
Educação é aposta do consumidor
O cenário macroeconômico segue pressionado. Com Selic ainda elevada e inadimplência em patamar histórico no País, o comportamento do aluno reflete as mesmas tensões do consumidor brasileiro em geral. Castilho reconhece o ambiente, mas aposta numa especificidade do setor.
“O cenário pressiona, mas a educação superior segue sendo prioridade para o brasileiro porque representa mobilidade social real”, afirma. A alavancagem da companhia caiu de 1,28 para 1,13 vezes o EBITDA no último ano, e a geração de caixa livre cresceu 68,7%. São sinais, segundo o executivo, de que a estrutura financeira da Cogna oferece fôlego para absorver esse ambiente sem abrir mão do compromisso com a permanência do aluno.
A evolução da Cogna representa uma mudança de lógica. Tratar a gestão de crédito apenas como instrumento de proteção do balanço resolve um problema financeiro. Mas, cria outro: o aluno que sai por falta de negociação acessível não volta. E o custo da evasão para a instituição, o estudante e o País raramente aparece na mesma linha do demonstrativo de resultados que registra a recuperação da dívida.
CCX Seminário
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