Parece que o Vale do Silício deixou de ser o lugar onde gênios dos negócios produzem o que de mais moderno irá impactar os outros, para se tornar o centro das maiores polêmicas ligadas ao uso duvidoso (para dizer pouco) da tecnologia nos últimos tempos. Invasão de privacidade, coleta ilegal de dados dos usuários, impulsionamento de propaganda baseada em fake news e vigilância corporativa são alguns dos graves acontecimentos ligados à grandes empresas tech como Facebook, Uber, Google ou Apple.
É por esses e outros acontecimentos recentes que a conceituada revista norte-americana online Slate (se você ainda não conhece, vale a pena), que cobre política, artes, cultura e, claro, tecnologia, resolveu fazer um levantamento anual dos impactos que megacorporações causaram no andamento do mundo.
A pesquisa é feita da seguinte forma: a redação envia cédulas de votação para jornalistas, advogados, acadêmicos e outros especialistas no assunto que têm um olhar crítico diante da atuação das gigantes tech. Cada um deles colocou suas preocupações principais e apontou as dez empresas (e suas subsidiárias) que representam esses receios. A lista total traz 30 nomes (e pode ser lida aqui), mas elencamos as cinco principais. Veja abaixo:
1. AMAZON
Eleita a empresa que mais causa dano ao mundo atualmente, segundo a Slate, ela começou como uma livraria virtual e hoje vende basicamente tudo. Criticada duramente por ter criado um monopólio de varejo online que acabou com diversos tipos de lojas locais, a empresa do bilionário Jeff Bezos já foi acusada de manter jornadas exaustivas de trabalho e de deixar seus funcionários em péssimas condições.
Seu lucro é gigante, mas é notório também que não paga os impostos na quantidade que deveria (a Amazon está, inclusive, na mira das reformas propostas pelo candidato democrata Bernie Sanders na disputa pela indicação do partido nas eleições deste ano).
A diretoria também faz vistas grossas para a questão da poluição ambiental, principalmente no que se refere ao impacto dos seus serviços de entrega e do que é gasto com o armazenamento em nuvem. Anunciou o compromisso de se tornar carbono neutro somente em 2040.
A mão gigante da empresa chega a tantas áreas – do streaming, a entrega de comida ou a criação de gadgets domésticos inteligentes como a Alexa – que fica difícil não deixar algum dado preso em sua plataforma como cliente. Se esses dados ficam seguros? Esta é outra questão levantada por seus críticos. Com grandes fortunas vêm grandes responsabilidades e a Amazon parece ignorar isso, segundo a Slate.
2. FACEBOOK
De mocinho que conectou o mundo todo em uma única plataforma a bandido responsável por enriquecer a base de fake news, conteúdo extremista e vazamento de dados. A trajetória do Facebook, empresa criada por Mark Zuckerberg, bem merecia um novo filme, com o update dos últimos acontecimentos bem ao estilo ascensão e queda. Mesmo envolvida em todos os escândalos ligados à Cambridge Analytica (falamos muito sobre isso por aqui. Clique para ler) e à eleição norte-americana de 2016, e com seu CEO dando depoimento tanto ao Parlamento no Reino Unido como a deputados americanos, a empresa do like azul segue faturando alto.
Com bilhões de usuários registrados em sua plataforma no mundo todo, a Slate qualifica o Facebook como alguém que tem mais poder do que qualquer governo. Seus produtos hoje são tão variados que apenas alguém muito, muito entendido no assunto consegue rastrear o alcance da publicidade na plataforma. Mesmo diante de tantos escândalos de vazamento de dados, a prioridade da empresa parece continuar sendo crescer, e não rever a forma como isso vem sendo feito. E essa atitude a coloca em segundo lugar no ranking.
3. ALPHABET
Talvez você não conheça a corporação por esse nome, mas ela é a dona do Google e de diversas outras empresas ligadas a ele. Criada em 1998 por Larry Page e Sergey Brin, esse megazorde tech também controla tantas áreas de atuação quanto consegue – com destaque para os sistemas de buscas, anúncios patrocinados, mercado de telefonia móvel através do Android, armazenamento em nuvem, geolocalização (alô, Google Maps). Basicamente, é capaz de ter ainda mais informações nossas do que o próprio Facebook. E de acordo com a Slate é mais uma marca que só se responsabiliza pelo que faz quando pressionada pela opinião pública ou a insatisfação de seus funcionários.
Vale lembrar que a Alphabet começou a fazer fortuna mesmo vendendo a anunciantes nossos hábitos de consumo, quando ainda nem nos dávamos conta de quanto valiosas eram essas informações. Recentemente, o atual CEO da Aphabet – Sundar Pichai – diminuiu a importância dada à reuniões que tratavam do descontentamento dos usuários com relação às práticas da empresa, focando seu tempo, única e exclusivamente, em “negócios e estratégia”. Pela enorme influência que tem tanto na vida pública das pessoas, quando no ambiente virtual, por conta de suas variadas marcas, a Alphabet não parece se furtar a deixar o Google usar nossos dados pessoais para criar sistemas que podem marginalizar certos grupos. A iniciativa do Google Health é um desses exemplos.
4. PALANTIR TECHNOLOGIES
Criada em 2003, é uma empresa norte-americana de software e serviços de informática especializada em serviços para o governo dos Estados Unidos – e que desde 2010 atua também na área financeira. Onde está a parte maligna disso? Pois os experts da Slate explicam: no governo de Donald Trump, a atuação da empresa está diretamente ligada à coleta de dados de agências governamentais, inclusive aquelas relacionadas à casos de deportação de pessoas por conta da política de imigração. É o que explica Ryan Calo, especialista da Faculdade de Direito da Universidade de Washington, e um dos que participou do ranking da revista. Ter uma empresa privada envolvida em vigilância de cidadãos pode ser perigoso e essa atuação precisa ter um limite claro. Para a Slate a relação próxima da Palantir com a Casa Branca pode fazer a empresa descumprir essa regra.
5. UBER
Seria difícil mesmo a empresa que criou o aplicativo mais usado no compartilhamento de transporte ficar de fora desse top 5. As críticas aqui são muitas a começar pelo modelo de negócio que trata trabalhadores não como empregados, mas como clientes, se isentando, portanto, de qualquer responsabilidade diante da mão-de-obra que utiliza sua plataforma. A empresa também era vista como um lugar tóxico para se trabalhar durante a gestão do CEO Travis Kalanick, que saiu fora para entrada de Dara Khosrowshahi, empresário americano-iraniano, de 50 anos.
A Slate indica que a Uber usa de lobby para poder aprovar sua existência nas cidades e, em 2018, na Califórnia, coletou dados dos usuários de scooters sem autorização. A ideia, segundo a revista online, era saber como as pessoas se moviam para, depois investir no mercado de micromobilidade (motos, patinetes, etc) de maneira mais certeira. Os críticos da Uber são categóricos em sua decisão final sobre o comportamento da empresa: “É difícil pensar em uma empresa que tenha demonstrado mais desdém pela autoridade governamental ou pela segurança e bem-estar de seus motoristas, motociclistas e funcionários”. Ou seja, há bastante espaço para melhorar.
Ficou curioso para ver a lista completa? Então clique aqui.
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