Uma adolescente grava vídeos no quarto.
Um motorista de aplicativo produz conteúdo sobre educação financeira.
Uma confeiteira transforma receitas em renda e conquista clientes pelas redes sociais.
Nenhum deles trabalha em uma emissora.
Nenhum depende de um grande veículo de comunicação para alcançar audiência.
Ainda assim, todos participam de uma economia que movimenta bilhões de reais e influencia diariamente as decisões de consumo de milhões de brasileiros.
Segundo estudo da Reglab, o Brasil reúne cerca de 3,8 milhões de criadores de conteúdo, mais do que o número de médicos, advogados ou engenheiros com registro ativo no país. Juntos, eles movimentam cerca de R$ 20 bilhões por ano.
Apesar disso, o debate regulatório sobre a creator economy ainda costuma girar mais em torno de controle, responsabilização e punição do que de profissionalização, educação digital e desenvolvimento econômico.
Congresso discute riscos; mercado pede reconhecimento
Apesar da relevância econômica da creator economy, a forma como o setor aparece no Congresso Nacional ainda está fortemente associada a riscos e controle. Estudo do Reglab (Centro de Estratégia e Regulação) analisou 88 projetos de lei apresentados entre 2015 e 2025. A pesquisa “Do Feed ao Plenário” identificou que mais de 40% das propostas concentram esforços em definir quem pode ser considerado influenciador digital, enquanto quase um quarto sugere algum tipo de restrição de conteúdo para criadores.
O levantamento também aponta que existem mais iniciativas voltadas à criação de sanções e responsabilizações do que propostas relacionadas a direitos trabalhistas, capacitação ou desenvolvimento da atividade. Na análise dos discursos parlamentares, termos como “risco”, “fraude” e “vício” aparecem de forma recorrente, superando referências a educação midiática, profissionalização ou contribuição econômica do setor.
O contraste chama atenção. Para os pesquisadores, o debate legislativo tem avançado mais rapidamente na tentativa de responder a crises e problemas pontuais do que na construção de políticas voltadas ao fortalecimento de uma atividade que já influencia consumo, publicidade, empreendedorismo e geração de renda em larga escala.
O que os influenciadores enxergam que a regulação ainda não vê
Enquanto o debate legislativo se concentra principalmente em limites, sanções e formas de controle, outro estudo do Reglab, chamado “Os Criativos do Futuro”, sugere que a transformação em curso é mais complexa.
A pesquisa identificou que profissionais que incorporaram a Inteligência Artificial aos processos criativos não enxergam a tecnologia como substituta da criatividade humana, mas como ferramenta capaz de ampliar capacidades produtivas, reduzir barreiras de custo e viabilizar projetos que antes dependeriam de grandes equipes ou orçamentos elevados.
Os pesquisadores observam ainda que a agenda regulatória segue em ritmo mais lento do que as mudanças econômicas e tecnológicas já vividas por criadores, empresas e consumidores.
Quando produzir conteúdo vira trabalho
O crescimento da creator economy também está transformando a forma como brasileiros geram renda.
Se antes a produção de conteúdo era associada principalmente ao entretenimento ou à exposição nas redes sociais, hoje ela integra modelos de negócio que incluem publicidade, programas de afiliados, cursos, mentorias, comunidades digitais, transmissões ao vivo e venda de produtos e serviços.
Nesse ecossistema, criadores deixaram de atuar apenas como formadores de opinião. Muitos passaram a operar como empreendedores, administrando marcas próprias, equipes de produção, contratos comerciais e canais de relacionamento com consumidores.
O fenômeno também impulsiona uma cadeia econômica que vai além dos influenciadores. Editores de vídeo, designers, redatores, profissionais de marketing e produtores audiovisuais passaram a encontrar oportunidades em um mercado construído a partir da economia da atenção.
Por isso, a discussão sobre regulamentação não envolve apenas liberdade de expressão ou funcionamento das plataformas. Ela também alcança temas como geração de renda, empreendedorismo digital, profissionalização e desenvolvimento econômico.

O consumidor no centro da discussão
Patrícia Espíndola de Lima Teixeira é coordenadora do Observatório Juventudes PUCRS/Rede Marista. Na visão da psicopedagoga, o debate não pode ignorar o impacto que os ambientes digitais exercem sobre a formação das novas gerações.
Hoje, 42% dos usuários de internet entre 9 e 17 anos recorrem à tecnologia para buscar informações e 21% para criar conteúdos. Os dados são da pesquisa TIC Kids Online Brasil.
Dessa forma, de acordo com a especialista, a maneira como crianças e adolescentes consomem informação influencia diretamente o desenvolvimento da autonomia intelectual. Além disso, há também uma forte influência nas noções de cidadania e na capacidade de participação democrática.
“Em um cenário em que a desinformação, a polarização e o isolamento desafiam as instituições em todo o mundo, a forma como crianças e adolescentes consomem tecnologia tornou-se um debate central para o futuro da própria educação democrática e cidadã. À medida que as mediações digitais assumem crescente relevância na formação e na construção da visão de mundo e de sociedade dos jovens, as instâncias de socialização e de debate público são reconfiguradas”, diz Patrícia.
O desafio, portanto, passa a ser desenvolver pensamento crítico em um ambiente marcado por algoritmos, personalização e consumo acelerado de conteúdo.

A confiança virou moeda
Se a creator economy cresce, cresce também a preocupação com autenticidade.
A popularização de ferramentas capazes de reproduzir vozes, imagens e vídeos com alto grau de realismo tem ampliado os desafios relacionados à transparência e à confiança nas relações digitais. Para consumidores, identificar o que é real, patrocinado ou artificialmente produzido tornou-se uma tarefa cada vez mais complexa.
Nesse cenário, a discussão sobre influência digital ultrapassa o campo da tecnologia e alcança aspectos jurídicos, reputacionais e econômicos.
Vanessa Pirro é sócia da área de Inteligência Artificial do b/luz. Em seu parecer, o avanço das ferramentas de geração de conteúdo exige uma atualização das práticas adotadas por marcas, plataformas e criadores.
“O Brasil ainda não tem um marco legal geral e unificado sobre deepfakes, mas isso não significa ausência de proteção jurídica. Diversas normas já oferecem instrumentos para responsabilizar quem usa a imagem, a voz ou a identidade de uma pessoa sem autorização, inclusive quando o conteúdo é gerado por Inteligência Artificial”, afirma.
Segundo ela, o mercado de influência e entretenimento precisará se adaptar rapidamente a essa nova realidade. “Contratos de licenciamento de imagem e voz que não preveem, de forma clara, o uso por sistemas de IA já correm o risco de estar desatualizados. Marcas que utilizam ferramentas de geração de conteúdo precisam ter clareza sobre os direitos que estão ou não autorizadas a usar. O mesmo vale sobre eventuais deveres de transparência em relação ao público.”
Mais do que uma questão tecnológica, a especialista avalia que o tema envolve credibilidade. Em um ambiente digital inundado por conteúdos sintéticos, a confiança tende a se tornar um dos ativos mais valiosos para criadores, empresas e consumidores.

Influência, publicidade e responsabilidade
A discussão sobre confiança alcança diretamente as relações de consumo.
Em um mercado no qual recomendações e conteúdos patrocinados exercem influência crescente sobre decisões de compra, especialistas alertam para a importância da transparência na comunicação entre marcas e consumidores.
Aryell Lustosa é advogada especialista em Direito Digital e Propriedade Intelectual. Ela observa que associações indevidas entre marcas e grandes eventos podem levar consumidores a acreditar que existe uma relação oficial de patrocínio ou autorização. Entretanto, essa autorização, na prática, não existe.
“Os dados mais recentes mostram que a associação entre marcas e grandes eventos esportivos influencia efetivamente a percepção e as escolhas de consumo. Quando essa associação é legítima, ela fortalece a relação entre marca e consumidor. Quando é artificial ou enganosa, pode gerar consequências jurídicas e reputacionais que superam qualquer ganho momentâneo de visibilidade.”
Segundo Aryell, o problema não afeta apenas organizadores de eventos ou patrocinadores oficiais. “O combate a essas práticas não protege apenas as empresas que investiram para se tornar patrocinadoras oficiais. Ele também protege o próprio consumidor, que tem o direito de receber informações claras e verdadeiras sobre as marcas com as quais se relaciona.”

A reflexão extrapola o universo esportivo. Em uma economia cada vez mais baseada na atenção, a credibilidade passou a influenciar diretamente três fatores. Em primeiro lugar, a percepção de valor. Na sequência, a reputação das marcas. E, em terceiro, mas não menos importante, as escolhas de consumo.
O futuro da creator economy
O Brasil já ultrapassou a fase em que a creator economy podia ser tratada como um fenômeno de nicho.
Milhões de brasileiros produzem conteúdo, movimentam recursos, criam negócios, influenciam decisões de compra e participam ativamente da economia digital. Ao mesmo tempo, consumidores recorrem cada vez mais a criadores para descobrir produtos, comparar serviços e formar opiniões.
O desafio que se impõe agora é outro.
Como construir um ambiente capaz de proteger consumidores sem sufocar a inovação? Como garantir transparência sem inviabilizar novos modelos de negócio? E como reconhecer o peso econômico de uma atividade que já movimenta bilhões de reais e influencia o cotidiano de milhões de pessoas?
As respostas ainda estão em construção. Mas uma conclusão parece inevitável: discutir creator economy já não significa apenas falar sobre redes sociais. Significa discutir consumo, trabalho, educação digital, confiança e o futuro das relações econômicas em uma sociedade cada vez mais conectada.





