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IA avança no setor público, mas cidadão ainda enfrenta os mesmos problemas

IA avança no setor público, mas cidadão ainda enfrenta os mesmos problemas

Pesquisa mostra que a IA está presente em seis de cada dez órgãos públicos federais e estaduais e chega a 94% no Judiciário, mas capacitação insuficiente e falta de monitoramento seguem travando a entrega de valor real para o cidadão
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Levantamento do Cetic.br/NIC.br (TIC Governo 2025) mostra que a IA já está presente em mais da metade dos órgãos públicos federais e estaduais e em 94% do Judiciário, além de 27% das prefeituras brasileiras. A automatização de processos é o uso mais comum, mas a falta de capacitação segue como principal barreira, especialmente nos municípios (40%). Menos de um terço dos governos monitora o uso ou a satisfação dos serviços digitais oferecidos, o que dificulta medir se a tecnologia está, de fato, melhorando o atendimento ao cidadão.

A IA deixou já está presente em boa parte da máquina pública brasileira – pelo menos na esfera federal, estadual e no Judiciário. É o que mostra a TIC Governo 2025, divulgada recentemente pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), departamento do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br). O documento traz, pela primeira vez, um retrato do uso da IA nas esferas públicas do País.

Os números impressionam pelo avanço de adoção. A IA está presente em seis de cada dez órgãos públicos. Mas escancaram também uma distância conhecida do consumidor brasileiro: a que separa o discurso da inovação da experiência real de quem precisa de um atendimento ou resposta rápida do poder público.

Os dados de adoção da IA de acordo com os setores:

  • Poder Judiciário: 94%.
  • Ministério Público: 92%.
  • Legislativo: 83%.
  • Órgãos federais: 70%.
  • Órgão estaduais: 58%.
  • Executivo: 55%.

Onde a IA é mais aplicada?

Entre os órgãos públicos que utilizam IA, a aplicação mais frequente é a automação de processos de fluxos de trabalho, adotada por 39% das instituições (45% na esfera federal e 38%, na estadual).

Em seguida, destacam-se a mineração de texto e a análise de linguagem, utilizadas por 35% dos órgãos (46% na esfera federal e 34%, na estadual). As ferramentas de aprendizagem de máquina para predição e análise de dados aparecem na sequência, presentes em 31% dos órgãos (39% na esfera federal e 30% na estadual).

A IA nas prefeituras brasileiras

Pela primeira vez, o estudo mapeou o uso de IA nas prefeituras brasileiras e constatou que 27% delas utilizaram a tecnologia nos 12 meses anteriores à pesquisa.

Os dados revelam disparidades importantes conforme o porte do município: a adoção alcança 85% nas cidades com mais de 500 mil habitantes e 81% nas capitais, enquanto nos municípios com até 10 mil habitantes o percentual é de 22%. Esse padrão também é observado na adoção de outras tecnologias digitais que tende a ser mais elevada entre municípios de diferentes portes.

Nas administrações municipais, as aplicações de IA mais comuns são: automatização de processos (14%) e mineração de texto (12%).

As prefeituras declararam aplicar essas tecnologias principalmente para melhorar os serviços prestados à população (17%), aprimorar as operações internas (17%), apoiar políticas públicas e atividades-fim (14%) e fiscalizar o uso de recursos públicos (10%).

Falta de capacitação e outras barreiras

A falta de capacitação desponta como a principal barreira à adoção da IA nas organizações públicas brasileiras. Esse desafio foi apontado por 19% dos órgãos federais, 21% dos estaduais e 40% das prefeituras.

Nas administrações municipais, os gestores também citaram como entraves o fato de a tecnologia não ser considerada uma prioridade de governo (36%), a ausência de necessidade ou interesse (35%), dificuldades relacionadas à disponibilidade e qualidade dos dados (35%) e custos elevados (34%).

 “Ampliar a capacitação dos servidores públicos é um passo fundamental para que essas tecnologias sejam incorporadas de forma cada vez mais qualificada e contribuam para a melhoria efetiva dos serviços públicos prestados à população”, pontua Alexandre Barbosa, gerente do Cetic.br | NIC.br.

O estudo destaca também que outras tecnologias avançadas são menos disseminadas em comparação com a IA: a Internet das Coisas (IoT) aparece em 20% dos órgãos federais e em 29% dos estaduais, enquanto o Blockchain foi citado por 25% na esfera federal e 17% na estadual.

Adoção da IA generativa

Esta edição da pesquisa apresenta também um panorama mais amplo sobre o uso de IA generativa no setor público brasileiro.

Na esfera federal, 65% dos órgãos públicos possuem iniciativas de utilização dessa tecnologia em processos internos, enquanto 29% utilizam em serviços prestados diretamente ao cidadão.

No que diz respeito ao suporte e preparo das equipes para uso de IA generativa, 59% oferecem cursos ou treinamentos, 46% contrataram ferramentas específicas para uso nos processos de trabalho e 43% estabeleceram diretrizes ou manuais de uso para os funcionários.

Na esfera estadual, a frequência dessas iniciativas tende a ser menor. Nesses órgãos, 56% utilizam IA generativa em processos internos e 28% em serviços ao público. Quanto à capacitação, 44% promovem cursos ou treinamentos, 27% contrataram soluções de IA e 30% disponibilizaram orientações para o uso da tecnologia.

Na esfera municipal, 31% das prefeituras possuem iniciativas de uso de IA generativa em processos internos, enquanto 17% já as utilizam em serviços voltados ao público.

Por outro lado, uma proporção menor de prefeituras declarou oferecer curso ou treinamento sobre o uso dessas tecnologias (14%), contratar alguma ferramenta de IA generativa para aplicar nos processos de trabalho (10%) ou disponibilizar algum guia, manual ou diretrizes para utilização dessas tecnologias pelos funcionários (10%).

Computação em nuvem

Já a computação em nuvem está presente em parte das prefeituras. Um terço delas (33%) contrata serviços de e-mail e armazenamento de dados em nuvem, 26% utilizam a armazenamento de arquivos ou bancos de dados e 23% adotam softwares de escritório nesta modalidade. A capacidade de processamento em nuvem é o recurso menos contratado (17% no total das prefeituras).

A contratação de serviços de computação em nuvem é mais recorrente nos órgãos federais e estaduais do que nas prefeituras. O e-mail em nuvem é utilizado por 88% das instituições federais e 61% das estaduais. Os softwares de escritório em nuvem estão presentes em 83% do nível federal e a 35% do estadual, enquanto o armazenamento é contratado por 66% dos órgãos federais e 47% dos estaduais.

Monitoramento de serviços digitais

Embora 83% das prefeituras ofereçam a emissão de nota fiscal eletrônica e 69% disponibilizem a emissão de documentos online, apenas 30% delas coletam estatísticas de uso sobre os serviços que disponibilizam e só 22% medem a satisfação dos usuários.

O monitoramento é mais frequente nos órgãos federais, nos quais 63% coletam dados estatísticos do uso desses serviços e 56% medem a satisfação dos cidadãos. Na esfera estadual, 47% realizam a coleta de estatísticas de uso e 33% avaliam os serviços.

WhatsApp e Telegram

As ferramentas de mensagens instantâneas consolidaram-se como importantes canais de atendimento à população. Nas prefeituras, o atendimento para solicitação de serviços públicos via WhatsApp ou Telegram aumentou de 56% em 2023 para 64% em 2025, tornando-se o segundo canal de contato mais utilizado pelos municípios, atrás apenas do telefone convencional (83%).

Nos demais níveis de governo, 39% das organizações públicas federais e 43% das estaduais disponibilizavam recursos de envio de mensagens por dispositivos móveis em 2025.

Tecnologia avança, mas o retorno ao cidadão não

Os números da TIC Governo 2025 confirmam que a IA já é parte do dia a dia da administração pública brasileira. Mas essa modernização convive, na prática, com uma realidade que qualquer consumidor de serviços públicos conhece bem: a espera.

Um levantamento sobre o acesso a filas do SUS, publicado em janeiro de 2026 (Painel Saúde), mostra que esperas de 100 a 365 dias ou mais ainda são comuns para encaminhamentos, consultas especializadas e cirurgias, e que o tempo de espera varia mais pelo CEP do paciente do que pela gravidade do caso.

O cenário revela um contraste direto com a eficiência preditiva da IA que a própria pesquisa do Cetic.br atribui à tecnologia.

Veja esse outro dado. Um estudo do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT), com dados de 2024, mostra que o Brasil ocupa a última posição no Índice de Retorno de Bem-Estar à Sociedade (IRBES) pelo 15º ano consecutivo. O ranking que mede a relação entre a carga tributária arrecadada e a qualidade dos serviços públicos entregues à população. A conclusão é direta: a arrecadação elevada não se traduz em qualidade de vida para o cidadão brasileiro.

É nesse cenário que a própria TIC Governo 2025 acerta ao expor que menos de um terço das prefeituras monitora o uso de seus serviços digitais e apenas 22% medem a satisfação do cidadão.

“Quando o governo oferta um serviço digital, mas não monitora o seu uso ou a satisfação do usuário ao longo do tempo, ele perde a capacidade de identificar se a ferramenta de fato atende às necessidades dos cidadãos e se está sendo útil. Por isso, esse monitoramento contínuo é fundamental para produzir evidências que permitam aperfeiçoar os serviços públicos digitais para que cheguem com qualidade e eficiência a quem mais precisa.”, alerta Manuella Maia Ribeiro, coordenadora de Pesquisas TIC.

Ou seja, sem esse monitoramento, fica difícil saber se a automatização de processos, e a própria aplicação de IA, está de fato encurtando filas, agilizando exames ou simplesmente digitalizando a mesma morosidade de sempre.

Em última análise, de que adianta adotar IA para “prever” se os problemas continuam os mesmos há anos? A resposta talvez esteja menos na velocidade e quantidade de tecnologia adotada e mais em como trabalhar inovação em prol de melhorias reais para quem precisa do serviço público no Brasil.

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