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Dia Mundial da Internet: a nova disputa digital pela atenção do consumidor

Dia Mundial da Internet: a nova disputa digital pela atenção do consumidor

Dia Mundial da Internet: Pix, IA e automação transformam o consumo digital e ampliam debate sobre influência algorítmica nas compras online.
Dia Mundial da Internet: Pix, IA e automação transformam o consumo digital e ampliam debate sobre influência algorítmica nas compras online.
Foto: Shutterstock.
Pix, IA e automação estão redefinindo o consumo digital no Brasil. Especialistas analisam como pagamentos instantâneos, algoritmos e conveniência transformam a experiência de compra online.

Comprar pela internet já foi um processo marcado por boletos com compensação lenta, páginas carregando aos poucos e longas comparações de preços antes da decisão final. Hoje, em poucos segundos, consumidores recebem recomendações feitas por Inteligência Artificial, pagam instantaneamente via Pix e acompanham entregas quase em tempo real. A experiência digital ficou mais rápida, personalizada e invisível.

Mas, junto da conveniência, surgem também novos debates sobre privacidade, influência algorítmica e proteção do consumidor.

No Dia Mundial da Internet, celebrado em 17 de maio, especialistas apontam que o ambiente digital deixou de apenas conectar consumidores e empresas para assumir um papel ativo nas decisões de compra. Em muitos casos, a tecnologia já escolhe antes mesmo de o usuário pesquisar.

Conveniência digital vs. vulnerabilidade

Rafael Soares Magalhães, diretor da Comissão de LGPD da OAB-MG.

Para Rafael Soares Magalhães, especialista em Privacidade e Proteção de Dados, diretor da Comissão de LGPD da Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Minas Gerais (OAB-MG), o avanço de tecnologias como Pix, Inteligência Artificial e automação trouxe ganhos importantes de conveniência, mas também ampliou a vulnerabilidade digital dos consumidores.

“O Pix é um bom exemplo. Ele tornou as transações mais rápidas, simples e acessíveis. Ao mesmo tempo, essa velocidade reduziu o tempo de reação do consumidor diante de uma fraude”, afirma. Segundo ele, a Inteligência Artificial elevou ainda mais a sofisticação de golpes digitais, que hoje podem envolver clonagem de voz, deepfakes, mensagens automatizadas e abordagens altamente personalizadas.

Na avaliação do especialista, que também atua como e DPO no setor público e privado, cresce uma nova forma de vulnerabilidade nas relações de consumo: a vulnerabilidade digital ou algorítmica. “O consumidor não está apenas em desvantagem econômica ou informacional. Ele também se relaciona com sistemas automatizados que tomam decisões, fazem recomendações e processam dados em uma velocidade que uma pessoa comum não consegue acompanhar”, explica.

O debate ganha relevância justamente em um momento em que ferramentas inteligentes começam a participar diretamente da jornada de compra.

Pix transforma a experiência instantânea

O Pix deixou de ser apenas um novo meio de pagamento para se tornar parte da lógica de funcionamento do consumo digital brasileiro. Inclusive, um estudo da Lina Open X, especializada em soluções de infraestrutura, tecnologia e conectividade para o ecossistema de Open Finance e Open Insurance, em parceria com a MindMiners, mostra que cerca de 72% dos brasileiros acreditam que a tecnologia melhorou sua relação com o dinheiro. A instantaneidade das transações passou a impactar diretamente a experiência de compra online, reduzindo etapas entre decisão e pagamento e alterando a expectativa dos consumidores em relação à velocidade das operações. E esse mesmo levantamento aponta que 73% dos brasileiros já utilizam o recurso de forma habitual.

Dados do Banco Central mostram que o sistema somou 42,9 bilhões de operações no segundo semestre de 2025 e respondeu sozinho por 54,7% de todas as transações de pagamento realizadas no País. O volume representa um crescimento de 24,3% em relação ao mesmo período de 2024. O avanço colocou o Pix muito à frente do mercado de cartões, que registrou 23,8 bilhões de transações no período.

Na prática, a instantaneidade deixou de ser diferencial e passou a fazer parte da expectativa do consumidor digital, impactando diretamente abandono de carrinho, experiência de compra e recorrência de consumo.

Segundo Murilo Rabusky, fundador e CMO da Lina Open X, a liquidação imediata encurta o ciclo financeiro das empresas e reduz falhas operacionais. Com o avanço do Pix Automático e da estrutura de Open Finance, o sistema também começa a sustentar modelos recorrentes de cobrança, assinaturas e pagamentos automatizados. “O efeito prático é a redução de falhas de pagamento e maior previsibilidade de receita, especialmente em modelos baseados em assinaturas e cobranças periódicas”, afirma.

IA deixa de apenas ajudar

Ao mesmo tempo em que os pagamentos ficaram mais rápidos, a Inteligência Artificial começou a ocupar um papel ainda mais estratégico: intermediar decisões de compra.

Segundo levantamento da Conversion em parceria com a ESPM, 57,5% dos brasileiros já utilizaram IA para pesquisar produtos antes de comprar, enquanto 44,2% afirmam ter mudado sua decisão de compra com base em recomendações feitas por ferramentas inteligentes.

O estudo mostra ainda que 40% dos consumidores já aceitam que a IA realize compras em seu lugar. Para Thiago Muniz, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), especialista em tecnologias emergentes e CEO da Receita Previsível, a internet atravessa uma mudança estrutural. “Estamos entrando em uma fase em que a IA deixa de ser apenas uma ferramenta de apoio e ocupa o papel de intermediadora da decisão. Antes, o consumidor pesquisava, comparava e escolhia. Agora, cada vez mais, sistemas inteligentes filtram opções, antecipam preferências e sugerem caminhos antes mesmo da busca acontecer”, afirma.

Uma nova arquitetura de escolha

Segundo ele, isso altera profundamente a lógica da competição digital. “A disputa deixa de ser apenas quem aparece mais e passa a ser quem a IA considera mais relevante, confiável e compatível com aquele contexto.” O impacto já começa a aparecer no tráfego do varejo online. Um levantamento baseado no Retail Industry Outlook, da Deloitte, mostra que entre 15% e 20% do tráfego de referência de alguns e-commerces já vem de recomendações feitas por chats baseados em IA.

“Não estamos falando apenas de um novo canal de marketing, mas de uma mudança na arquitetura da escolha”, afirma Rodrigo Cruz, vice-presidente de Estratégia de Crescimento e Inovação de Portfólio da consultoria Keyrus no Brasil.

De acordo com o especialista, a lógica da visibilidade digital está mudando. “Não estamos mais na era de ‘ser encontrado’ por palavras-chave, mas de ‘ser escolhido’ por assistentes inteligentes.”

Algoritmos passam a disputar atenção e influência

Para Thiago Muniz, o avanço da IA reduz o espaço da navegação aberta e amplia o peso das recomendações algorítmicas. “No e-commerce tradicional, a marca competia por cliques, SEO e atenção visual. Com a IA, a competição começa a migrar para critérios menos visíveis, como dados de comportamento, reputação, velocidade de resposta e aderência contextual”, explica.

Na avaliação do especialista, isso concentra poder nas plataformas digitais e exige das empresas novos níveis de adaptação tecnológica. “A atenção tende a ser cada vez mais mediada por sistemas que resumem opções para o usuário.”

Esse movimento também impulsiona um novo conceito no mercado: o GEO (Generative Engine Optimization), estratégia voltada para adaptar conteúdos, catálogos e dados para ambientes de busca mediados por IA generativa. “A eficiência operacional agora é, literalmente, uma ferramenta de vendas”, acrescenta Rodrigo Cruz. “Se o estoque estiver desatualizado ou a descrição técnica for limitada, o agente de IA descarta a sua loja em milissegundos.”

Conveniência pode reduzir consciência crítica

Ao mesmo tempo em que a experiência digital se torna mais fluida, especialistas alertam para um possível efeito colateral da hiperautomação: a redução da participação ativa do consumidor nas próprias decisões. “Quanto maior for a conveniência baseada em IA, menor tende a ser o atrito da decisão. E reduzir atrito é ótimo para conversão, mas também pode diminuir o nível de consciência crítica do consumidor”, afirma Thiago Muniz.

Thiago Muniz, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), especialista em tecnologias emergentes e CEO da Receita Previsível.

Segundo ele, o risco não é apenas tecnológico, mas comportamental. “Quando algoritmos antecipam desejos, automatizam compras e personalizam recomendações de forma contínua, o consumidor passa a decidir menos ativamente e a aceitar mais passivamente os caminhos sugeridos.”

Para Rafael Soares Magalhães, diretor da Comissão de LGPD da OAB-MG, a discussão jurídica acompanha exatamente essa transformação. Ele afirma que o Código de Defesa do Consumidor continua sendo uma base relevante para lidar com práticas automatizadas, mesmo diante da velocidade da tecnologia. “O desafio hoje não é apenas saber se o consumidor recebeu informações claras sobre um produto, mas entender se ele consegue compreender por que determinada oferta apareceu para ele, se houve personalização de preço ou se o sistema foi desenhado para induzir uma decisão de compra”, explica.

Segundo o advogado, temas como publicidade algorítmica, manipulação comportamental e “padrões obscuros” devem ganhar cada vez mais espaço nas discussões regulatórias.

Frete grátis redefine expectativa dos consumidores

Kenneth Corrêa, professor de MBA da FGV.

A transformação digital não passa apenas pelos pagamentos e pela inteligência artificial. A logística também ganhou protagonismo nas decisões de compra. Segundo levantamento da Opinion Box, 60% dos consumidores desistem da compra quando o frete é maior do que o esperado.

Para Thiago Muniz, o frete grátis atua diretamente na percepção de valor do consumidor. “Enquanto o desconto exige comparação e cálculo, o frete zero elimina um custo percebido como algo adicional. Isso ajuda a explicar por que muitos consumidores preferem um produto mais caro com entrega gratuita do que o inverso”, afirma.

A pressão por conveniência também foi impulsionada por marketplaces internacionais, que elevaram o nível de exigência dos consumidores em relação à velocidade e ao custo das entregas. “O ponto não é apenas replicar o modelo desses players, mas entender o efeito que eles criam no mercado”, afirma Kenneth Corrêa, especialista em dados e Inteligência Artificial e professor de MBA da FGV. “Eles acabam redefinindo o nível de exigência do consumidor.”

Transparência algorítmica entra no debate

Com algoritmos influenciando pagamentos, recomendações e logística, cresce também a discussão sobre transparência digital.

Por fim, na visão de Rafael Soares Magalhães, plataformas e marketplaces precisarão oferecer explicações mais claras sobre os critérios utilizados por sistemas automatizados. “Quando um algoritmo define quais produtos aparecem primeiro, quais ofertas serão destacadas ou até qual preço será exibido, ele influencia diretamente a decisão do consumidor”, afirma.

Segundo ele, a transparência não exige revelar códigos-fonte ou segredos comerciais, mas sim permitir que o usuário compreenda minimamente os critérios envolvidos nas recomendações digitais. “Em um mercado cada vez mais automatizado, transparência não é apenas uma boa prática. É condição para que o consumidor possa tomar decisões de forma livre e consciente”, conclui.

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