O lugar onde uma pessoa mora pode influenciar muito mais do que o endereço informado em um cadastro. Segundo o novo OECD Employment Outlook 2026, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), as diferenças entre regiões afetam o acesso ao emprego, os salários e, consequentemente, o poder de consumo das famílias.
Em outras palavras, trabalhadores com perfis semelhantes podem ter oportunidades bastante diferentes apenas porque vivem em locais distintos.
Esse efeito vai além do mercado de trabalho. A renda disponível determina quanto as famílias conseguem gastar com alimentação, moradia, educação, saúde, lazer e outros bens e serviços. Por isso, quando determinadas regiões concentram empregos de melhor qualidade e maiores salários, elas também tendem a registrar maior dinamismo econômico e maior capacidade de consumo.
Ao analisar os países membros da organização, a OCDE conclui que as desigualdades territoriais continuam exercendo forte influência sobre a economia. O relatório mostra que o crescimento do emprego, da produtividade e da renda não ocorre de forma homogênea dentro dos próprios países. O resultado é uma distribuição desigual das oportunidades econômicas, com impactos diretos sobre renda, consumo e desenvolvimento regional.
O CEP entrou na equação
Em mais da metade dos países da OCDE, a diferença entre as pequenas regiões com maior e menor taxa de emprego supera 20 pontos percentuais. Além disso, nas áreas com pior desempenho, a taxa de desemprego costuma ser mais que o dobro da registrada nas regiões mais dinâmicas.
No parecer da OCDE, esses resultados indicam que as oportunidades de trabalho também dependem das condições oferecidas por cada território, como infraestrutura, concentração de atividades econômicas, acesso ao transporte, inovação e oferta de serviços públicos.
Embora o Brasil não integre a amostra comparativa do estudo, o diagnóstico dialoga com uma realidade conhecida dos brasileiros. Diferenças históricas na distribuição das atividades econômicas e dos investimentos ajudam a explicar por que determinadas regiões concentram mais empregos, renda e potencial de consumo do que outras.
Essas diferenças não ficam restritas ao mercado de trabalho. Elas também ajudam a explicar por que alguns mercados consumidores se desenvolvem mais rapidamente do que outros.
Desigualdade molda o consumo
Para a OCDE, as diferenças regionais não representam apenas um desafio para governos ou empresas. Elas também influenciam a renda disponível das famílias e, consequentemente, a capacidade de consumo.
No Brasil, essa relação aparece nas Contas Nacionais do IBGE. O consumo das famílias responde por cerca de 60% do Produto Interno Bruto (PIB), tornando emprego e renda fatores decisivos para o crescimento econômico.
Essa relação também aparece nos indicadores do mercado de trabalho brasileiro. Dados da PNAD Contínua, do IBGE, mostram que as diferenças entre as regiões permanecem expressivas. No 2º trimestre de 2026, a taxa de desocupação variou de 3,2% na Região Sul para 7,6% no Nordeste, enquanto o Sudeste registrou 5,2%, o Centro-Oeste 3,8% e o Norte 6,1%.
As disparidades também aparecem entre os estados: Santa Catarina registrou a menor taxa de desemprego do País (2,1%), enquanto o Amapá apresentou a maior (9,8%).
Na prática, regiões que concentram mais empregos formais, maior renda e maior atividade econômica tendem a movimentar mercados consumidores mais robustos, enquanto localidades com menor dinamismo enfrentam um poder de compra mais limitado.
Isso se confirma a partir da própria distribuição da economia brasileira. Segundo o IBGE, o Sudeste concentra cerca de 53,3% do PIB nacional, seguido pelo Sul (16,6%), Nordeste (13,8%), Centro-Oeste (10,6%) e Norte (5,7%).
Embora esses percentuais não expliquem, isoladamente, as diferenças no mercado de trabalho, ajudam a compreender por que empresas, varejistas e prestadores de serviços encontram realidades de consumo bastante distintas entre as regiões.
Essa concentração econômica dita o ritmo do varejo nacional: ela define desde o mix de produtos nas prateleiras até a viabilidade de grandes investimentos em novos pontos de venda.

O território também conta
A escolaridade, a idade e o perfil das famílias ajudam a explicar parte das diferenças observadas entre as regiões. No entanto, a OCDE conclui que esses fatores estão longe de responder por toda a desigualdade existente no mercado de trabalho.
De acordo com o relatório, entre um terço e metade da diferença nas taxas de emprego entre as regiões pode ser explicada pelas características da população local. O restante está associado às condições oferecidas por cada território, como infraestrutura, concentração de empresas, oferta de serviços públicos, capacidade de inovação e dinamismo econômico.
Em síntese, investir apenas na qualificação dos trabalhadores não elimina, por si só, as disparidades regionais. Para a OCDE, ampliar as oportunidades também exige fortalecer os territórios onde essas pessoas vivem.
Na agenda
Diante desse cenário, a OCDE defende que políticas voltadas ao desenvolvimento regional deixem de focar apenas na criação de empregos.
O relatório mostra que reduzir desigualdades também exige ampliar infraestrutura, estimular investimentos, fortalecer economias locais e criar condições para que diferentes regiões ofereçam oportunidades semelhantes.
Quanto menor a distância entre o lugar onde as pessoas vivem e as oportunidades disponíveis, maiores tendem a ser os ganhos em renda, produtividade e consumo, conclui a OCDE.
Para consumidores, isso significa que o acesso a empregos, renda e serviços continua sendo influenciado pelo lugar onde vivem. Para as empresas, compreender essas diferenças deixou de ser apenas uma questão econômica e passou a representar uma estratégia para crescer em um País marcado por mercados consumidores tão distintos.





