Ricardo Trevisani, nome reconhecido no cenário gastronômico brasileiro, construiu sua carreira a partir de uma paixão despertada ainda na adolescência. Com mais de 20 anos de experiência no renomado Grupo Fasano, ele fundou o Gruppo Trevisani. A rede de restaurantes prima pela excelência e hospitalidade afetiva baseada na filosofia do fatto con affetto, como define Ricardo. “Aprendi a importância da consistência, do respeito ao cliente e de liderar equipes com humanidade. Quando decidi abrir meu próprio grupo, levei comigo essa base sólida para criar algo mais autoral”, completa.
Em entrevista exclusiva à Consumidor Moderno, Ricardo compartilha memórias importantes da sua carreira, os desafios da liderança, e analisa a evolução do consumidor brasileiro. Além disso, revela as perspectivas de crescimento sustentável para seus empreendimentos. Confira!
Aprendizado dentro e fora da cozinha
CM: Ricardo, quando você percebeu que a gastronomia era a sua paixão? Teve algum momento específico ou influência que te marcou nessa escolha?
Ricardo Trevisani: A faísca surgiu quando eu tinha 15 anos. Eu trabalhava como office boy no escritório de contabilidade da minha tia Gilda e, certa vez, fui encarregado de entregar documentos no restaurante Dom Fabrizio. Entrei pela porta da frente, já que não havia acesso de serviço, e dei de cara com o Guilherme Arantes almoçando. Aquela cena, o ambiente, o movimento do restaurante, a atmosfera, tudo me encantou de imediato. Eu pensei: ‘quero trabalhar aqui’. Fui atrás disso, pedi para minha tia intermediar e consegui uma vaga no próprio Dom Fabrizio. Depois, aos 16 anos, entrei no restaurante Tatini como cumim. E nunca mais larguei.
CM: Como foi o início dessa trajetória profissional na gastronomia? Por que decidiu sair do Brasil tão jovem para trabalhar na Itália? O que essa experiência moldou em você?
Minha trajetória começou cedo e já com bastante intensidade. Depois de dois anos no Grupo Fasano, ainda muito jovem, surgiu a oportunidade quando a unidade da rua Mauri foi fechada. Eu e o chef Luciano Bosseja fomos para a Itália e vivi lá por dez anos. Essa imersão me permitiu aprender com a tradição e a técnica da verdadeira culinária italiana, além de refinar meu olhar para a hospitalidade. Essa experiência moldou minha visão de excelência, de respeito aos ingredientes e aos detalhes. Foi um aprendizado dentro e fora da cozinha, sobre pessoas, cultura e propósito.
CM: Você trabalhou no Grupo Fasano por mais de 20 anos antes de fundar o Gruppo Trevisani. Quais foram os maiores aprendizados que trouxe dessas duas décadas e te fizeram abrir o seu próprio restaurante?
No Fasano, percorri todos os degraus: de garçom a maître, gerente do Gero e diretor de novos negócios, liderando aberturas importantes. Aprendi a importância da consistência, do respeito ao cliente e de liderar equipes com humanidade. Quando decidi abrir meu próprio grupo, levei comigo essa base sólida para criar algo mais autoral e intimista, com a minha visão pessoal de hospitalidade e experiência.
Consistência e atenção aos detalhes
CM: Quando decidiu criar o Gruppo Trevisani, o que queria entregar de diferente ao mercado de gastronomia brasileiro?
Queria criar lugares que fossem a extensão da minha casa, com personalidade e acolhimento. Algo mais próximo, mais afetivo, sem abrir mão da sofisticação. A filosofia ‘fatto con affetto’ traduz exatamente isso: cada detalhe pensado com carinho para proporcionar uma experiência memorável. E também queria formar equipes alinhadas a essa filosofia, para que cada casa tivesse alma e não apenas padrão.
CM: Os restaurantes do Gruppo Trevisani se destacam pela experiência entregue aos clientes. Para você, o que define uma experiência gastronômica premium? Qual a importância disso?
Uma experiência premium vai muito além do prato. É o conjunto entre ambiente, hospitalidade genuína, curadoria de vinhos e ingredientes, precisão na execução da cozinha e, acima de tudo, um atendimento atencioso e leve. Cada detalhe conta. A iluminação, o som ambiente, a forma como o cliente é chamado pelo nome. São essas pequenas coisas que transformam a visita em algo para ser lembrado.
CM: Pode compartilhar um exemplo de como um detalhe no atendimento ou no ambiente impacta a percepção do cliente sobre a experiência e sobre o restaurante?
O Lassù é um bom exemplo. Além da gastronomia bem executada, oferecemos uma vista panorâmica de 270º da cidade, com piso giratório e um rooftop com piano bar. Esse cuidado com a atmosfera, com os sentidos, transforma o jantar em uma experiência única e memorável, que transcende o prato e fica para sempre na memória do cliente.



Liderança e o futuro dos negócios
CM: Liderar equipes em um segmento tão competitivo e dinâmico como a gastronomia exige equilíbrio entre criatividade, rigor de operação e hospitalidade. Como manter o equilíbrio no dia a dia? Qual o estilo de liderança que você adota para garantir isso?
Gosto de acompanhar de perto o dia a dia das casas, entender os detalhes da operação e estar ao lado das equipes. Claro que, sempre que possível, procuro delegar e dar espaço para que cada profissional se desenvolva. Mas, dentro de processos bem definidos, com orientação clara e alinhamento constante. Acredito que consistência se constrói com atenção aos detalhes, e isso exige acompanhamento. Não acredito em liderança distante. Faço questão de estar por perto, orientar, corrigir quando necessário e reforçar os valores que sustentam o Gruppo Trevisani.
Para mim, liderar é estar junto, dar o exemplo e garantir que todos caminhem na mesma direção – com excelência, responsabilidade e compromisso com a experiência do cliente.
CM: Na sua visão, o que mudou no perfil do consumidor brasileiro de gastronomia nos últimos anos, e como o Gruppo Trevisani se adaptou a essas mudanças?
O consumidor brasileiro hoje busca mais do que boa comida. Ele quer uma experiência completa, com autenticidade, ambiente agradável e informalidade elegante. Isso é cada vez mais evidente. As pessoas valorizam ser bem recebidas, querem sentir que aquele momento foi feito para elas, e não apenas consumir um prato bem executado. Essa sempre foi a essência do Gruppo Trevisani e continua nos guiando na adaptação às novas expectativas do público.
CM: Para finalizar, quais são os planos do Gruppo Trevisani para os próximos anos?
Acreditamos que o crescimento é importante, mas ele só faz sentido quando é sustentável, criterioso e fiel aos nossos valores. Mais do que multiplicar endereços, queremos consolidar os pilares que nos trouxeram até aqui – a hospitalidade calorosa, o respeito absoluto à equipe e o cuidado em cada detalhe da experiência. Nosso olhar para o futuro, portanto, é de expansão responsável, passo a passo e com ‘pé no chão’. Avaliamos cada nova praça, cada parceria e cada oportunidade à luz de três critérios inegociáveis: qualidade, identidade e viabilidade de longo prazo.
Assim, continuaremos criando oportunidades, gerando empregos de qualidade e contribuindo para o desenvolvimento do setor, mas sempre preservando o DNA do ‘fatto con affetto’. Queremos levar essa filosofia a novos clientes e cidades, sem nunca abrir mão da excelência que define o Gruppo Trevisani, e nem do cuidado que transforma cada casa em uma extensão da nossa própria história.






