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Inflação e juros altos são Calcanhar de Aquiles da economia do Brasil

Inflação e juros altos são Calcanhar de Aquiles da economia do Brasil

Em palestra no CCX, Fernando Honorato, economista-chefe do Bradesco, falou que economia do Brasil tem potencial para crescer, mas é fundamental evitar crises.
Em palestra no CCX, Fernando Honorato, economista-chefe do Bradesco, falou que economia do Brasil tem potencial para crescer, mas é fundamental evitar crises.
Em palestra no CCX, Fernando Honorato, economista-chefe do Bradesco, falou que economia do Brasil tem potencial para crescer, mas é fundamental evitar crises.
Foto: Douglas Lucena.

“Para tratarmos da economia no Brasil, é necessário que tenhamos um olhar atento. Isso porque não podemos esquecer que estamos em um País de renda média e que o trabalhador brasileiro recebe, em média, R$ 3.300,00. Esse ciclo nos impede de enxergar algumas realidades e gera problemas de interesse. Fato é que nós estamos passando por um momento absolutamente novo.” Essas foram as palavras de Fernando Honorato, economista-chefe do Bradesco na palestra magna do Seminário Credit & Collection Experience 2025. O seminário reuniu, no dia 29 de julho, em São Paulo, as principais lideranças e especialistas do setor para discutir as inovações em crédito.

A palestra de Fernando Honorato tratou o tema Cenário econômico atual e perspectivas para o crédito no Brasil. Ele disse que, há quase 30 anos, tem acompanhado a economia no Brasil e do mundo, mas não se recorda de ter vivenciado momentos tão difíceis e delicados. “De fato, estamos discutindo um momento sem precedentes de incerteza global.”

Ao mostrar uma tela com a tarifa média de importação dos Estados Unidos desde 1900, ou seja, um período de 125 anos, ele considera que, agora, “estamos diante do maior desafio desde a Segunda Guerra Mundial com essa estabilização”, disse.

Por que isso é importante?

Fernando então disse que a tarifa de importação, ao sair de 2,5% e ir para quase 20%, resultará em um aumento no custo que os consumidores brasileiros terão que pagar pelos produtos importados dos Estados Unidos.

Isso implica que os produtores brasileiros também terão custos maiores. No seu parecer, essa mudança representa uma grande transferência de renda entre as famílias e as empresas em todo o mundo. “Portanto, a economia global, inevitavelmente, crescerá menos em diversas áreas. É impossível não considerar que esse aumento nas tarifas de importação terá um impacto significativo”, pontuou o economista-chefe do Bradesco.

Dívida pública americana

Os participantes do CCX puderam ver que a dívida pública americana está em uma trajetória de crescimento. Todas as simulações, inclusive, indicam que essa tendência deverá continuar nos próximos anos. Em outras palavras, isso significa que há uma incerteza no ambiente de negócios, com empresas e famílias enfrentando tarifas de importação mais altas. Ademais, há dúvidas sobre onde produzir. Isso porque as empresas não têm clareza sobre o que devem fabricar devido às novas tarifas.

Por consequência, o dólar está perdendo valor consideravelmente. “Essa é a principal conclusão dessa discussão”, disse Honorato. “De um lado, acordos comerciais estão sendo negociados e firmados. Do outro, os bancos centrais ao redor do mundo estão atentos. E, por que a economia está esfriando? A explicação é simples: com tarifas mais altas, a incerteza aumenta, o crescimento econômico diminui e, consequentemente, a economia global desacelera. Os bancos centrais estão reduzindo as taxas de juros. Temos um caso específico do Brasil, onde as taxas estão subindo, entretanto, de maneira geral, o mundo todo está cortando as taxas em resposta a esse ambiente desafiador. Essa é a realidade.”

Brasil – China

Dando continuidade, Fernando explicou que o principal parceiro comercial do Brasil é a China. Ela representa 30% de nossas exportações. Nos Estados Unidos, essa participação é de 11%. Outro ponto importante, segundo o especialista, é que o Brasil mantém sua taxa de exportação em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) na faixa de 18%, o que está dentro do padrão. “Reconheço que é difícil, evidentemente, se considerarmos esses 43,3% dos Estados Unidos, haverá impacto na economia brasileira, mas são impactos de caráter mais específico. Não creio que seja motivo para preocupação excessiva.”

Empregos

Por exemplo, a indústria de madeira exporta 40% de sua produção, com 45% das exportações indo para os Estados Unidos. O açúcar também aparece de forma ilustrativa no mapa de setores impactados pelas exportações.

Ao analisar quantos empregos esses setores geram no Brasil e multiplicar pelo número de empregos ligados às exportações para os Estados Unidos, o especialista do Bradesco contabilizou cerca de 270 mil empregos. “Para as pessoas, regiões e setores, é uma situação complicada. Porém, do ponto de vista macroeconômico, a perda seria de apenas 0,4% ou 0,3%, o que representa uma quantidade reduzida. Nas interações do dia a dia, especialmente nos próximos meses, é fundamental que vocês estejam cientes de quanto seus clientes dependem de suas operações. Isso será crucial para decisões sobre a concessão ou não de crédito“, aconselha Fernando Honorato.

Brasil versus Estados Unidos

Ainda sobre a taxação de Donald Trump, na visão de Honorato, o Brasil tem bastante espaço para negociar. A tarifa média de importação do país está na casa de 14% a 15%. Antes, a tarifa era de 2,5% antes do aumento sob a administração do presidente americano. E agora ela está na faixa de 20%. Portanto, o Brasil já tinha tarifas em torno de 14% a 15% e, atualmente, cobra cerca de 5% a 6% ao ano.

“O que estou apresentando leva em conta a possibilidade de diálogo entre os dois presidentes, mas não posso afirmar se esse espaço realmente existirá. Também não tenho certeza se o que está em jogo é uma disputa comercial, política ou geográfica. E, nesse contexto, o diálogo pode ser desafiador”, enaltece, considerado que, se o pensamento for sobre um confronto comercial entre os Estados Unidos e o Brasil, o Brasil, mais uma vez, se destaca.

Isso ocorre porque o País aplica uma taxa de 14%. Em outras palavras, 3,5% em relação aos preços dos Estados Unidos, enquanto, antes da verificação, os EUA impunham apenas 2%. “Os números indicam então que o Brasil tem grande potencial para avançar ou ceder se realmente quiser progredir nas relações comerciais. Pessoalmente, acredito que não teremos um diálogo até sexta-feira, 1 de agosto”, enfatiza Honorato.

Veja abaixo as taxas de importação aplicadas pelo Brasil aos seus principais parceiros comerciais:

Comportamento do real

Uma das boas novas apresentadas pelo especialista é que, apesar do cenário desafiador, a moeda brasileira vem se comportando bem. Afinal, o real está se mantendo estável. Isso, segundo Honorato, se deve a múltiplas razões. Uma delas é a possibilidade de um acordo, o que abre espaço para que Brasil e Estados Unidos alcancem um consenso comercial.

Outro fator é que ambos os lados podem optar por recuar, cedendo sem uma agenda específica. “Contudo, a razão estrutural por trás disso é que o dólar está fraco. Se hoje considerássemos o real e o comparássemos ao dólar em relação a outras moedas, ele deveria estar em torno de R$4,60, e não R$5,60. Se considerássemos uma cesta de moedas emergentes, a expectativa seria que o real estivesse em R$ 5. Portanto, existe uma força global a favor da estabilidade da moeda brasileira, com o mundo reduzindo as taxas de juros e um dólar mais fraco, o que contribui para a boa performance do real”, pontuou Fernando.

Cotação do real

A saúde das contas públicas, na opinião do palestrante, é um dos fatores que fazem com que o real esteja cotado a R$5,60, e não a R$5,00. Ele considera que, se o país galgasse uma melhor gestão das contas públicas, o valor estaria em R$5,00 e não em R$5,60. Contudo, ele ressaltou que, enquanto perdurar esse ambiente global de dólar fraco, exacerbado pela confusão gerada pelo governo americano, isso paradoxalmente beneficia países como o Brasil.

O resultado será: em primeiro lugar, produtos mais acessíveis. Em segundo lugar, uma diminuição nos custos.

Em paralelo a isso, a economia brasileira está em boa forma e demonstra resiliência. Prova disso está no agronegócio, que deve gerar cerca de 1 trilhão e 500 bilhões de reais em renda. Ademais, o leste do Brasil, especialmente na região em torno de São Paulo, assim como o sul do País – com destaque para Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul –, apresenta um crescimento extraordinário. “Crescimento esse que está intimamente ligado à expansão do crédito”, cita o palestrante.

Regionalidade

Em um cenário econômico onde as variações regionais desempenham um papel fundamental, ele ainda examinou a situação do desemprego em diferentes estados. Fernando Honorato destacou que, em Santa Catarina, a taxa de desemprego se apresenta em 2,5%, configurando-se como uma exceção em relação ao panorama nacional. Contudo, ele considera crucial reconhecer que há diferenças marcantes entre as regiões do Brasil. Compreensão essa que é fundamental para a análise macroeconômica.

“Quando olho para a renda disponível para consumo, que resulta da soma da renda do trabalho e das transferências previdenciárias, noto que, em 2025, essa renda deve alcançar R$ 5,5 trilhões. Essa quantia representa um montante considerável de recursos que poderão ser utilizados para crédito e vendas”, disse.

Mais relevante ainda, espera-se que essa renda disponível cresça 4,7% acima da inflação em 2025, seguido de um crescimento robusto de 7% ao ano nos três anos anteriores. Portanto, ele julga essencial que todos os envolvidos no cenário econômico estejam atentos a essas variações e tendências, pois elas moldarão não apenas as oportunidades de emprego, mas também o comportamento do consumo e do crédito no Brasil.

Taxa de juros

Os participantes do CCX tiveram a oportunidade de ver ainda que o brasileiro está enfrentando a maior taxa de juros reais desde 2006, um período marcado por crises significativas. Ele então apresentou um gráfico, no qual a linha vermelha representa a Selic, enquanto a linha cinza reflete a inflação, cuja discrepância é sentida pelo mercado diariamente.

Ao analisar os juros reais, há uma confiança de 10%. Existem muitos aspectos relacionados aos juros reais, entre eles, dois componentes principais:

  • Dificuldades financeiras enfrentadas pelas famílias, nas quais a inflação (na casa de 5,%%) frequentemente é a raiz do problema.
  • Renovação de créditos, sejam eles imobiliários ou de consumo, onde as taxas de juros estão altas. Quando essas taxas aumentam, as pessoas são forçadas a ajustar seus orçamentos para manter a saúde financeira.

Selic aumenta = Vendas caem

Observando, fica evidente que, à medida que a Selic aumenta, historicamente, as vendas do varejo tendem a cair. Este processo ainda começará a se manifestar, na visão de Fernando Honorato. Do ponto de vista empresarial, ele analisou a porcentagem de companhias que estão gerando um retorno sobre o capital acima do custo da dívida. Entretanto, atualmente, apenas 39% das empresas listadas na B3 conseguem isso.

A questão refere-se ao comprometimento da renda. “Ou seja, isso representa o quanto estamos gastando em juros e principal em relação à nossa renda. Assim, o que é passível de percepção que a desaceleração econômica se acentuará, mesmo que o impacto macroeconômico seja menor”, comenta o especialista.

Portanto, qual é a combinação final?

O dólar está fraco, enquanto o real mantém um nível razoável de estabilidade. A boa notícia é que a taxa de juros está aumentando a probabilidade de queda. “O Banco Central acompanha isso com muita atenção na hora de decidir sobre a Selic. O mercado financeiro indica que, sim, a Selic deve cair. No final do próximo ano, as projeções do mercado apontam para uma Selic em torno de 13%. O Bradesco, por sua vez, estima que a Selic pode ficar em 11,75% no próximo ano, um valor significativamente abaixo do atual, especialmente considerando o comportamento do mercado de ações”, afirma Honorato.

Conselhos do economista

Para as empresas, é fundamental prestar atenção nos impactos setoriais, especialmente para empresas que dependem dos Estados Unidos, pois isso pode trazer consequências consideráveis.

Em segundo lugar, se atentar à previsão de esfriamento do PIB no segundo semestre, o que tornará desafiador manter um relacionamento próximo com os clientes, negociando e interagindo para que eles consigam sobreviver a essa fase difícil. Com a redução da Selic, espera-se que haja um alívio para todos, permitindo um respiro no mercado, algo que os analistas veem com otimismo.

Por fim, o Brasil enfrenta um acúmulo de dívidas que compromete a valorização do real e gera incertezas sobre a economia futura.

Evitar crises é essencial

A resolução dessa questão, segundo Fernando Honorato, é vista como essencial para a estabilidade financeira e deve ocorrer após as eleições de 2026. Embora a dívida global tenha aumentado, a situação brasileira é mais complicada e não deve levar a uma crise fiscal aberta. “Historicamente, o Brasil cresceu 2% ao ano nos últimos 45 anos, abaixo da média mundial de 3%. O desempenho se agrava em anos de crise local, mas evitando crises o crescimento pode ser estável”, disse.

Por fim, existe potencial para um aumento expressivo no emprego público até 2026, o que poderia impulsionar um crescimento consistente entre 3% e 3,5% ao ano na próxima década. Em relação ao crédito, as taxas atuais são altas e o setor imobiliário tem espaço para expansão. Se o cenário fiscal se materializar, o crédito pode crescer significativamente nas próximas décadas, criando mais oportunidades de negócios.

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