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A confiança distribuída: por que o Bitcoin é uma realidade e uma transformação 

A confiança distribuída: por que o Bitcoin é uma realidade e uma transformação 

O Bitcoin não é o fim dos bancos, nem das moedas nacionais. Ele representa um novo vocabulário para falar sobre valor, riqueza e verdade.
Andrew Begin, Chief Strategy Officer da Galoy, no Money20/20.
Andrew Begin, Chief Strategy Officer da Galoy, no Money20/20.
Foto: Jacques Meir/Consumidor Moderno.
Os debates do Money20/20 mostraram que o Bitcoin e o blockchain estão redefinindo a confiança no sistema financeiro, tornando-a verificável e descentralizada. A tecnologia deixa de ser rebeldia e passa a funcionar como infraestrutura emocional, com o Brasil em posição estratégica, mas ainda carente de confiança institucional. O futuro das finanças, portanto, está em transformar transparência e rastreabilidade em novas formas de credibilidade e relacionamento com o consumidor.

Durante o Money20/20 em Las Vegas, duas conversas – uma mesa sobre pagamentos cripto e uma palestra sobre o futuro do dinheiro – pareciam tratar de assuntos distintos. Mas eram, na verdade, o mesmo diálogo em tempos diferentes. De um lado, executivos de gigantes como PayPal, Block, MoonPay e Coinbase falavam sobre a normalização das criptomoedas no sistema financeiro tradicional. De outro, Andrew Begin, Chief Strategy Officer da Galoy, narrava sua descoberta pessoal do Bitcoin, não como investimento, mas como uma experiência cognitiva que modifica o significado de confiança.

Ambos os painéis, em essência, discutiam o mesmo fenômeno: o nascimento de uma economia em que a confiança não precisa ser prometida, porque é codificada no próprio sistema.

Inteligência Artificial é uma inteligência escalável. O blockchain é a verdade escalável”, afirmou John D’Agostino, da Coinbase. O raciocínio é provocador. Afinal, a Inteligência Artificial amplia a capacidade humana de pensar; o blockchain amplia a capacidade humana de acreditar. Por onde, ao invés de entender o que é blockchain, é melhor saber que toda tecnologia vencedora só se consolida quando desaparece.

O entendimento do Bitcoin e da tecnologia que o suporta é que ele está sendo assimilado, utilizado e transacionado por pessoas que talvez nem saibam que estão usando blockchain, e isso é o fascinante. A verdadeira revolução, portanto, não é a adoção, mas a invisibilidade que a tecnologia adquire quando começa a ser utilizada de modo natural pelas pessoas. A experiência vence quando o esforço desaparece, e a confiança é sentida, não explicada.

Outro conceito que precisa ser desmistificado e foi abordado nos painéis do Money20/20, “confundir Bitcoin com stablecoin é como confundir ouro com cartão de crédito”. Essa clareza conceitual é o que permite que o blockchain se torne não apenas uma tecnologia, mas uma linguagem de design da experiência: um sistema que traduz valor em rastreabilidade, e rastreabilidade em confiança. 

O sucesso dos próximos anos, a evolução do Bitcoin será vista simplesmente como mais adoção e volume. Ou seja, as criptomoedas estão deixando de ser rebeldia e se tornando infraestrutura emocional. Uma camada invisível que faz o dinheiro circular sem atrito, constituindo uma estrada de confiança digital que funciona como ativo competitivo.

O Bitcoin como experiência de confiança

Andrew Begin, o CSO da Galoy, falou do Bitcoin como uma experiência filosófica e humana. Ele contou como, embalando sua filha recém-nascida em 2021, começou a ouvir Sapiens, de Yuval Harari, (é, audiobooks, até a leitura se desmaterializou nesses tempos estranhos) e teve um estalo: “nosso sistema financeiro foi construído para um mundo que precisava de intermediários. Só que não vivemos mais nesse mundo”. Para Begin, o Bitcoin é o momento em que a confiança deixa de ser um contrato social e passa a ser um protocolo verificável. Ele descreveu o sistema bancário tradicional como um “sistema solar”. Nos diferentes países, os bancos ficam orbitando o Banco Central, o protetor da moeda e o guardião da economia contra o dragão da inflação, enquanto um bilhão de pessoas flutua fora dessa órbita, excluída.

O Bitcoin seria o “detrito espacial”, o meteoro que atravessa essa estrutura e cria uma nova gravidade, atraindo pessoas, capital e significado. Por isso, “Bitcoin é um ativo e uma rede”, explicou o executivo. O ativo é escasso, o que lhe dá previsibilidade; a rede é descentralizada, o que lhe dá resiliência. Essa dupla condição o torna uma das tecnologias mais antifrágeis (na concepção criada por Nassim Taleb, curiosamente um dos antagonistas das criptomoedas) já criadas: quando governos o proíbem, ele se multiplica. Begin destacou que, há 4 anos, o banimento da mineração na China correspondeu a uma queda do poder computacional do Bitcoin da ordem de 50%. Parecia o começo do fim, mas em apenas 4 anos, a cripto se recuperou e cresceu sete vezes.

“Um sistema sem país e sem CEO ficou mais forte depois de ser atacado por uma superpotência. Isso é biológico, não financeiro”, afirmou Begin, com entusiasmo. A imagem que melhor traduz seu argumento é quase poética de tão reveladora: um garoto de escola pública em Jericó do Pará comprando uma banana com Bitcoin, pagando dez satoshis por NFC via software livre. Você leu direito, um garoto comprou bananas com Bitcoins. Nesse sentido, não estamos falando de uma moeda. Estamos vivenciando uma alfabetização da confiança.

Quando o banco deixa de mediar e passa a validar

A adoção do Bitcoin parece apontar para um futuro em que o sistema financeiro deixa de distinguir entre “bancarizados” e “não bancarizados”.

Num mundo em que qualquer pessoa pode enviar ou receber valor com um celular, o papel dos bancos muda radicalmente. Está aí o Pix que não nos deixa mentir, fraudes e golpes à parte. É bem possível afirmar que em uma ou duas décadas, os líderes financeiros vão estabelecer e valorizar pontes com o sistema de criptoativos. Quem sabe o papel dos bancos, de distribuidores de pagamentos e de fluxos financeiros não venha a se tornar o de mediadores de confiança? Imagine, no lugar da intermediação burocrática, a validação inteligente, no lugar do sigilo, a transparência auditável.

Se você dúvida, veja o exemplo de Larry Fink, CEO da BlackRock, que há oito anos chamava o Bitcoin de “instrumento criminoso” é que há 3 anos lançou o maior ETF da história dos EUA baseado nele e hoje o recomenda como reserva de valor. PayPal, SoFi e Square já incorporam pagamentos em Bitcoin em suas plataformas.

A revolução não está mais nas margens, ela está sendo absorvida pelo centro.

Para o Brasil, esse debate tem implicações diretas.

Temos o sistema financeiro mais digitalizado entre os emergentes, DREX, Pix, Open Finance, carteiras instantâneas, mas também uma das sociedades mais desconfiadas institucionalmente do mundo. E, novamente, os golpes do Pix estão aí para mostrar nosso desleixo com a segurança digital. A cada avanço tecnológico, cresce o ceticismo: “quem está ganhando com isso?”

O blockchain, nesse contexto, é mais que uma inovação – é um antídoto cultural, porque oferece um modelo de confiança comprovável, em que o rastro da ação substitui o discurso da intenção.

Aplicado à experiência do cliente, esse princípio muda a lógica da interação entre empresas financeiras e consumidores: a marca deixa de ser uma autoridade e passa a ser um ecossistema rastreável de coerência, em que a chamada “fé pública”, se transforma em transparência e, vejam só, tornam a confiança, finalmente, mensurável.

O blockchain e o Bitcoin como seu símbolo mais radical, mas também Etherium, Solana e outras criptos não desafiam a economia tradicional; elas a convidam a evoluir. Para bancos e empresas de qualquer setor, o desafio agora não é entrar no mundo cripto, mas reaprender a ser confiável.

O futuro do CX e do sistema financeiro se encontram no mesmo ponto: quando a verdade deixa de ser um valor simbólico e passa a ser uma experiência programada. E, nesse sentido, o Bitcoin é menos uma moeda e mais um espelho que devolve à economia algo que ela vinha perdendo: a legitimidade de ser acreditada.

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