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Automedicação: alívio rápido pode custar caro à saúde

Automedicação: alívio rápido pode custar caro à saúde

Dados apontam alta no consumo de remédios sem prescrição, impulsionada pela facilidade de acesso, mas especialistas alertam para os perigos de uso prolongado e sem orientação profissional.
Dados apontam alta no consumo de remédios sem prescrição, impulsionada pela facilidade de acesso, mas especialistas alertam para os perigos de uso prolongado e sem orientação profissional.
Foto: Shutterstock.
A automedicação cresce no Brasil impulsionada pela facilidade de acesso a farmácias, mas especialistas alertam para riscos como irritação gastrointestinal, problemas renais e mascaramento de doenças. O uso abusivo de analgésicos, anti-inflamatórios e relaxantes vem aumentando junto ao consumo de medicamentos para saúde mental. Telemedicina e educação em saúde são apontadas como caminhos para reduzir o uso inadequado e incentivar orientação profissional.

A expansão do consumo de medicamentos de venda livre, como analgésicos, anti-inflamatórios e relaxantes, e sua popularização por meio das farmácias de bairro e drogarias, desperta um debate urgente sobre os limites entre a automedicação responsável e o uso abusivo.

Para Dr. Alvaro Pulchinelli, médico toxicologista e diretor técnico da Toxicologia Pardini do Grupo Fleury, o uso correto deve se restringir a sintomas simples e eventualidade, sempre seguindo a bula e, idealmente, com orientação de um profissional de saúde.

“Apesar de se tratar de um medicamento de venda livre ou isento de prescrição, ele tem bula disponível na farmácia ou nas drogarias. O uso conforme as instruções recomendadas pelo laboratório e sob a supervisão de um profissional farmacêutico presente nesses estabelecimentos caracteriza o uso responsável”, comenta.

Mas esse cenário muda quando o uso se torna constante, prolongado ou com doses acima do recomendado o que, segundo Pulchinelli, caracteriza o abuso. Ele ressalta que muitos pacientes recorrem repetidamente aos mesmos fármacos sem buscar a causa raiz dos sintomas.

O uso abusivo também se dá nas quantidades maiores do que aquelas preconizadas em bula”, explica.

O impulso do mercado

Parte do que explica essa escalada é uma conjunção de fatores: desde a vasta rede de farmácias associada a dificuldades de acesso a médicos, tanto no sistema público quanto privado. Segundo o Sebrae, a partir de dados da Receita Federal, há atualmente 122 mil farmácias no País. A comodidade de conseguir um alívio imediato acaba tornando a automedicação um recurso frequente.

Segundo dados da InterPlayers, as vendas de analgésicos cresceram 42% em 2022, ante o ano anterior. Esse tipo de remédio é um dos mais procurados sem prescrição, especialmente para tratar dores comuns como cólicas, dores musculares e cefaleias.

Além disso, o consumo de medicamentos para saúde mental, sendo muitos deles sujeitos a prescrição, mas em um contexto de automedicação crescente, subiu 18,6% entre 2022 e 2024 no País, de acordo com levantamento da empresa Sandbox, que analisou mais de 616 mil pacientes.

Os riscos à saúde

O problema é que mesmo remédios considerados “leves”, como anti-inflamatórios e analgésicos, têm efeitos colaterais potencialmente graves quando usados de forma inadequada.

De acordo com Pulchinelli, eles podem irritar o trato gastrointestinal, causar sangramentos, alterar a coagulação do sangue e até comprometer a função renal, especialmente em quem já tem predisposição.

“Eles podem causar irritação do trato gastrointestinal, levando eventualmente até a sangramento. Pessoas que são mais sensíveis podem ter crise de asma”, frisa.

No caso dos relaxantes musculares, o especialista também alerta para a sonolência, o que torna o consumo incompatível com a operação de máquinas e veículos.

O problema se agrava quando a automedicação mascara quadros mais complexos. Usar analgésicos para dor persistente, febre ou sintomas adicionais, como mal-estar, falta de ar ou sangramentos, pode esconder sinais de doenças que exigem atenção médica.

“Se o problema não foi resolvido em um período curto, com poucas doses, continuou persistindo ou com a presença de outros sintomas, além da dor, por exemplo, febre, a avaliação por médico ou profissional de saúde é fundamental”, destaca. “O paciente deve estar atento a esses sinais e sintomas, além daquele específico do medicamento.”

Telemedicina como alternativa

Nesse contexto, a expansão da telemedicina aparece como uma possibilidade concreta de reduzir a automedicação e promover uso mais consciente. Pulchinelli defende que consultas virtuais permitem ao médico avaliar o quadro, acompanhar a evolução e decidir se há necessidade de atendimento presencial.

A telemedicina é um grande avanço. A orientação que o médico vai fazer por esse mecanismo vai fazer, sim, com que haja um uso mais responsável e que se evite que quadros mais graves tenham atraso devido ao atendimento presencial”, relata.

Educação como pilar

Para o toxicologista, a chave para reduzir os riscos da automedicação passa pela educação em saúde. Quanto maior o nível de instrução da população, maior a percepção sobre os próprios sintomas e os perigos do uso indiscriminado de medicamentos.

O uso equilibrado e racional está ligado diretamente ao nível educacional da população. Quanto mais instruída for a população, mais racional e mais seguro são o uso de todas as ferramentas de acesso à saúde”, reforça.

Sem esse entendimento, há risco duplo: de uso abusivo de remédios e de sobrecarga dos serviços de saúde, seja por automedicação irresponsável, seja por agravamento de quadros.

Panorama do mercado

O mercado farmacêutico brasileiro voltou a crescer em 2024 e trouxe novos alertas sobre o comportamento de consumo dos brasileiros. Segundo o Anuário Estatístico do Mercado Farmacêutico 2024, publicado pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED), o setor faturou R$ 160,7 bilhões no último ano, uma alta de 12,8% em relação a 2023. O volume de embalagens vendidas também cresceu, alcançando 6,07 bilhões de unidades, um aumento de 5,3%.

Dentro desse cenário, os Medicamentos Isentos de Prescrição (MIPs), usados para tratar sintomas comuns como dor, febre, alergia e resfriados, mostraram estabilidade em faturamento, mas recuo no volume de vendas. Em 2024, os MIPs movimentaram R$ 14,1 bilhões, ou seja, 8,12% do faturamento total do mercado. Apesar disso, foram comercializadas 1,2 bilhão de embalagens, queda de 1,2% ante 2023.

A dipirona se mantém como o principal destaque entre os medicamentos sem prescrição: segue líder tanto em faturamento quanto em volume entre os MIPs, refletindo seu uso massivo entre os consumidores brasileiros.

Os dados mostram também que o setor de MIPs é fortemente concentrado: grandes fabricantes respondem por 93% do faturamento total da indústria farmacêutica, e 266 empresas registraram vendas no período. O faturamento dessas grandes empresa representa R$ 149,7 bilhões do total.

Ainda assim, apenas 1.961 apresentações de MIPs tiveram comercialização ativa em 2024, um recuo de 5,4%, indicando possível racionalização de portfólio por parte das indústrias.

Consumo de medicamentos ancorado no balcão

Entre os tipos de registro sanitário, os MIPs classificados como Novos lideram o faturamento da categoria, com R$ 4,89 bilhões. Em seguida vêm os Similares, com R$ 3,52 bilhões, e os Genéricos, que somaram R$ 2,08 bilhões e se destacaram pelo crescimento em volume: alta de 6,06%, alcançando 338 milhões de unidades.

Enquanto medicamentos de uso contínuo e tratamentos complexos impulsionam grande parte do faturamento total, exemplificados pelos biológicos, que cresceram 25,9% e somaram R$ 48,5 bilhões, o consumo cotidiano dos brasileiros permanece fortemente ancorado nos remédios de balcão.

O desempenho dos MIPs reforça discussões sobre automedicação e uso seguro desses produtos. Embora sejam considerados seguros quando usados corretamente, o consumo elevado e recorrente, especialmente quando sem orientação profissional, continua sendo um ponto de atenção para especialistas em saúde pública.

O limite dos remédios livres

Embora os medicamentos de venda livre façam parte da rotina de grande parte dos brasileiros, eles não devem ser vistos como solução definitiva para problemas de saúde. O Dr. Alvaro Pulchinelli destaca o papel desses produtos no funcionamento do sistema de saúde, mas alerta que o uso precisa ser orientado e limitado.

“As pessoas devem saber que o medicamento de venda livre não é uma solução definitiva”, afirma. Segundo ele, esses fármacos têm uma função importante para aliviar sintomas leves e evitar uma demanda ainda maior nos serviços médicos, especialmente em um sistema já sobrecarregado. “Se temos um sistema de saúde pressionado, imagine sem o uso desses medicamentos. Se as pessoas não tivessem acesso a esse tipo de remédio, o sistema seria mais sobrecarregado ainda e geraria mais transtorno e sofrimento à população.”

Apesar da relevância, Pulchinelli reforça que o uso responsável é essencial. Isso significa seguir exatamente as orientações da bula, respeitar as doses e, sempre que possível, pedir auxílio ao farmacêutico.

“O medicamento de venda livre deve ser usado conforme a orientação do profissional de saúde, seja a bula, seja o farmacêutico presente na drogaria”, ressalta. O que não se pode, segundo ele, é fazer uso prolongado sem investigar a causa do sintoma.

O especialista explica que reações inesperadas podem ser um sinal claro de que o medicamento está causando mais danos do que benefícios.

“Se houver qualquer efeito colateral anormal, como tontura, náusea, vômito ou perda de sangue pela urina, isso pode ser um sinal de que a automedicação está sendo prejudicial”, finaliza.

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