Uma farmácia não fecha aos domingos. Um supermercado não interrompe o atendimento em feriados. Um posto de combustível não pode simplesmente reduzir sua operação porque a demanda continua existindo. Essa realidade ajuda a explicar por que o varejo acompanha com atenção o avanço das discussões sobre o fim da escala 6×1 no Congresso Nacional.
Enquanto parte do debate público trata a redução da jornada como uma medida aplicável de forma uniforme a toda a economia, empresas do setor já começaram a calcular os impactos de uma eventual mudança. Os efeitos projetados envolvem aumento de custos, necessidade de novas contratações, reorganização de escalas e aceleração dos investimentos em tecnologia.
O tema ganhou força nas últimas semanas com a tramitação da Proposta de Emenda à Constituição nº 221/2019 que prevê a redução da jornada semanal. Atualmente, a matéria está parada na Mesa Diretora do Senado Federal, aguardando ser formalmente enviada pelo presidente da Casa, Davi Alcolumbre, para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).
E, embora o texto ainda esteja em discussão, estudos e empresas afirmam que os reflexos para atividades que operam seis ou sete dias por semana exigem uma análise mais detalhada.
A preocupação não está apenas na quantidade de horas trabalhadas. O desafio envolve manter lojas abertas, garantir atendimento ao consumidor e preservar a competitividade em um setor conhecido por margens apertadas e alta dependência de mão de obra.
O tamanho da conta que o varejo calcula
Estudo do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e Mercado de Consumo (Ibevar) e da FIA Business School projeta impactos relevantes para o setor em caso de adoção imediata da nova jornada.
Segundo o levantamento, a perda de geração de riqueza no varejo pode variar entre 3,6% e 6,1%, dependendo do segmento e do porte da empresa. Pequenas operações de tecidos, vestuário e calçados aparecem entre as mais afetadas. Já redes estruturadas de combustíveis apresentam os menores impactos relativos.
O estudo estima ainda uma redução mínima de 0,32 ponto percentual do Produto Interno Bruto apenas considerando os efeitos diretos sobre as operações varejistas.
Para Claudio Felisoni, presidente do IBEVAR e professor da FIA Business School, a discussão precisa considerar as características operacionais do setor. “O varejo não para. Quando o funcionário folga, alguém precisa ocupar o balcão”, afirma.
A lógica é simples. Supermercados, farmácias, lojas de conveniência e postos de combustíveis mantêm operações contínuas. Quando o número de horas disponíveis diminui, as empresas precisam contratar mais profissionais ou investir em ganhos de produtividade para preservar o nível de serviço.
O estudo também simulou um cenário de transição ao longo de dez anos. Nesse caso, os impactos diminuem à medida que tecnologia, automação e produtividade avançam. Ainda assim, os efeitos não desaparecem completamente.

O desafio está na operação
Além da discussão econômica, empresas especializadas em gestão empresarial afirmam que a mudança exigiria uma revisão profunda da forma como as organizações administram jornadas de trabalho.
Marcos Alves, coordenador comercial da Areco Sistemas Empresariais, avalia que muitas companhias ainda não possuem informações suficientes para medir os impactos reais de uma eventual transição.
“O debate sobre o fim da escala 6×1 vai além da legislação. Para muitas empresas, a mudança exige uma revisão completa da forma como a operação é planejada e monitorada. Sem dados precisos sobre jornada, horas extras e banco de horas, torna-se difícil até mesmo estimar o impacto financeiro de uma eventual transição”, afirma.
Segundo o executivo, a reorganização de escalas pode exigir revisão de processos, ampliação de equipes e mudanças na formação de preços. Além disso, o aumento das contratações tende a elevar despesas com salários, encargos trabalhistas, férias e décimo terceiro salário.
Contratar mais será suficiente?
Se o desafio operacional preocupa, a questão da mão de obra também aparece no radar. A proposta de redução da jornada pode ampliar a necessidade de contratação em um mercado que já enfrenta dificuldades relacionadas à rotatividade e à escassez de profissionais.
“O varejo já tem dificuldade de contratar no volume que precisa. Rotatividade alta, poucos candidatos interessados em cargos operacionais e prazos sempre curtos. Agora soma-se a isso uma mudança de jornada que vai exigir mais gente para manter a mesma operação de pé. A conta não fecha se o processo de contratação continuar funcionando do mesmo jeito”, afirma Augusto Frazão, CEO da InHire, plataforma de recrutamento e seleção.
O peso da jornada máxima
Os dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) mostram que a jornada entre 41 e 44 horas semanais é a principal modalidade de trabalho formal no Brasil. Em 2023, essa faixa reunia 33,5 milhões de profissionais com carteira assinada. Em 2025, o contingente alcançou 35,012 milhões de vínculos formais.
A carga horária está próxima do teto constitucional da jornada semanal e representa cerca de 58% do mercado de trabalho formal brasileiro. Além disso, encontra-se fortemente concentrada nos setores de comércio e serviços, atividades que tradicionalmente operam em jornadas contínuas e escalas de plantão, como o modelo 6×1.

Nesse ínterim, de acordo com Frazão, o desafio não se limita à atração de candidatos. A velocidade dos processos seletivos também passa a ser decisiva.
“Quando você precisa preencher milhares de vagas ao mesmo tempo, o problema muda de natureza. Atrair candidato é uma parte. A outra, que quase ninguém resolve bem, é conseguir conduzir o processo rápido o suficiente para que o candidato não desista no meio do caminho”, diz.
Tecnologia deixa de ser diferencial
Diante desse cenário, tecnologia, automação e Inteligência Artificial aparecem como parte da resposta.
O estudo do IBEVAR aponta que grandes redes possuem maior capacidade para absorver impactos por meio de automação e ganhos de eficiência. Entre os exemplos estão caixas de autoatendimento, sistemas inteligentes de gestão e digitalização de processos.
Na área de recrutamento, por exemplo, a InHire observa avanço de ferramentas capazes de analisar currículos enviados por celular, automatizar triagens e acelerar contratações. “Tecnologia aqui não é diferencial. É infraestrutura. É o que permite contratar mais sem multiplicar o tamanho do time de recrutamento e sem perder o controle do processo quando o volume dispara”, afirma Augusto Frazão.
A tendência reforça uma transformação que já estava em curso no varejo. Em vez de substituir pessoas, a tecnologia passa a ser vista como instrumento para ampliar produtividade e preservar a operação diante de novas exigências regulatórias.
Sociedade ainda busca respostas
Enquanto empresas calculam impactos, a opinião pública continua dividida.
Pesquisa nacional do Instituto Vox Brasil, divulgada pela Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), mostra que 33,8% dos brasileiros apoiam a proibição da escala 6×1. Outros 27,6% são contrários. O dado que mais chama atenção, porém, é o percentual de 38,6% dos entrevistados que afirmam não ter opinião formada.
Para Paulo Solmucci, presidente da Abrasel, o resultado revela que a população busca compreender melhor as consequências da proposta. “O dado central não é só a queda do apoio, mas o crescimento da dúvida. Quando quase 40% dizem que não sabem, isso revela que a sociedade percebe que o tema é mais complexo do que parece”, afirma.
O erro do mesmo tratamento para setores diferentes
O debate em torno da escala 6×1 expõe uma discussão antiga da economia do desenvolvimento.
O economista chileno Aníbal Pinto Santa Cruz (1919-1996), um dos principais formuladores da teoria da heterogeneidade estrutural na Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), defendia que diferentes setores convivem com níveis distintos de produtividade, tecnologia e capacidade de adaptação.
Nessa visão, aplicar uma mesma política a atividades que operam em realidades completamente diferentes tende a produzir resultados desiguais. O economista argentino Raúl Prebisch (1901-1986) chegou a conclusão semelhante ao demonstrar que o progresso técnico não se espalha de maneira uniforme entre setores e empresas.

Sob essa perspectiva, a discussão sobre a jornada de trabalho ultrapassa o campo das relações trabalhistas. Ela passa a envolver produtividade, competitividade e as particularidades de cada atividade econômica.
Por fim, para o varejo, que opera todos os dias e depende da presença constante de profissionais nas lojas, a principal pergunta deixou de ser se a mudança acontecerá. O foco agora está em como adaptar a operação sem comprometer consumidores, empregos e resultados.





