A previsão de chuva forte para a Grande São Paulo nesta segunda-feira (15/12) voltou a acender um alerta na população. Isso por conta do temor de ficar novamente sem energia elétrica. O receio não é abstrato.
Às 11h49 desta segunda-feira, 51.436 imóveis ainda permaneciam com o fornecimento interrompido na Região Metropolitana. Você pode conferir os dados no Mapa de Estado de Fornecimento por Município da Enel. Essa quantidade de imóveis está sem energia cinco dias depois do ciclone que atingiu a capital e cidades vizinhas na última semana.

O episódio deixou marcas profundas – materiais e psicológicas. A interrupção do serviço essencial afetou diretamente mais de 2,2 milhões de pessoas. Ademais, provocou um impacto significativo no comércio justamente em um dos períodos mais importantes do ano para as vendas, o Natal.
Prejuízo de R$ 77,55 milhões

Estimativa do Instituto de Economia Gastão Vidigal da Associação Comercial de São Paulo (IEGV/ACSP) aponta que a falta de energia pode ter feito o comércio deixar de faturar até R$ 77,55 milhões. O montante se dá desde a última quarta-feira (10/12), mas não é absoluto.
Segundo o economista da ACSP, Ulisses Ruiz de Gamboa, os prejuízos são difíceis de mensurar. Isso porque os efeitos do ciclone não foram homogêneos e muitas regiões tiveram o fornecimento restabelecido de forma lenta e desigual. “O impacto ocorre principalmente pela redução das compras imediatas e das aquisições por impulso”, explica.
Para bares, restaurantes e comércios de produtos perecíveis, o dano é ainda mais sensível. Isso porque, em síntese, a perda de mercadorias e a interrupção do atendimento comprometem o fluxo de caixa. Procurada pela Consumidor Moderno sobre medidas emergenciais para esses estabelecimentos, a Enel não respondeu até o fechamento desta matéria.
Justiça impõe prazos e multa à Enel
Diante da gravidade do cenário, a Justiça de São Paulo concedeu liminar em ação civil pública. A ação foi proposta pelo Ministério Público e pela Defensoria Pública do Estado no dia 12 de dezembro. Em suma, a Justiça determinou que a Enel restabelecesse o fornecimento de energia em até 12 horas. Se não o fizesse, estaria sujeita à multa de R$ 200 mil por hora de descumprimento.
A decisão estabeleceu prioridade máxima – em até 4 horas – para serviços essenciais. São eles: hospitais, serviços de saúde, residências com eletrodependentes, delegacias, presídios, escolas, sistemas de abastecimento de água e locais com concentração de pessoas vulneráveis.
A juíza Gisele Valle Monteiro da Rocha destacou que a interrupção prolongada e a comunicação inadequada evidenciam falhas estruturais da concessionária. Na fundamentação, a magistrada, da 31ª Vara Cível do Foro Central, ressalta que eventos climáticos severos, embora previsíveis nesta época do ano, exigem:
- Preparo prévio;
- Logística eficiente;
- E coordenação com o poder público.
Para a defensora pública Estela Waksberg Guerrini, coordenadora do Núcleo Especializado de Defesa do Consumidor (Nudecon), a situação é inaceitável. “É lamentável que seja necessário recorrer à Justiça para garantir a prestação adequada de um serviço essencial, especialmente considerando o histórico da empresa”, afirma.
Trauma coletivo: quando o tempo vira gatilho
Mais do que transtornos pontuais, o apagão deixou um trauma coletivo. Em psicologia, o conceito de trauma foi inicialmente sistematizado por Sigmund Freud. Nesse ínterim, o pai da psicologia descreveu experiências que ultrapassam a capacidade do indivíduo de elaborar simbolicamente o choque vivido. Posteriormente, autores como Sándor Ferenczi e Jacques Lacan aprofundaram a ideia de que o trauma pode se manifestar como repetição, antecipação ansiosa e hipervigilância.
É exatamente esse mecanismo que parece operar agora: para muitos moradores da Grande São Paulo, qualquer previsão de chuva forte se transforma em gatilho emocional. E esse gatilho está associado à expectativa quase automática de escuridão, prejuízo e desamparo. A psicotraumatologia descreve esse fenômeno como uma resposta a eventos disruptivos que quebram a sensação básica de segurança – especialmente quando envolvem serviços essenciais, como energia, água e mobilidade.
Críticas e pressão política
O episódio também intensificou a pressão política sobre a concessionária. O governador Tarcísio de Freitas defendeu publicamente a intervenção do governo federal na Enel, classificando como “absolutamente insuficiente” o plano de contingência da empresa. “A intervenção funciona; o plano de contingência da operadora não”, afirmou, ressaltando que a responsabilidade pela distribuição de energia elétrica é federal, sob supervisão da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e do Ministério de Minas e Energia.
Enquanto a chuva volta a se aproximar, o sentimento predominante é de insegurança. O apagão deixou de ser apenas uma falha técnica episódica e passou a ocupar o imaginário coletivo como uma ameaça recorrente – com efeitos diretos sobre o consumo, o comércio e a confiança do cidadão em serviços básicos. Em um período que deveria ser marcado por compras e celebrações, o medo de “ficar no escuro” segue como um dos principais protagonistas.





