/
/
CM Teste: quando falta luz, os canais de atendimento se entendem?

CM Teste: quando falta luz, os canais de atendimento se entendem?

CM Teste avalia o atendimento da Energisa durante uma falta de energia de 28 horas e revela desencontros entre WhatsApp, URA e atendimento humano
CM Teste avalia o atendimento da Energisa durante uma falta de energia de 28 horas e revela desencontros entre WhatsApp, URA e atendimento humano.
Mulher sentada no sofá usa o celular em uma casa sem energia elétrica, iluminada por velas.
Shutterstock
Uma falta de energia de cerca de 28 horas deu início a uma jornada por diferentes canais de atendimento da Energisa, entre WhatsApp, URA e atendentes humanos. Ao longo do percurso, o CM Teste registrou prazos que mudaram, ligações interrompidas, dificuldades no atendimento e informações que nem sempre convergiam entre os canais. A Consumidor Moderno reconstrói essa experiência para entender o que acontece quando o consumidor precisa de uma resposta clara justamente no momento em que um serviço essencial falha.

Às 6h30, em uma área da Mantiqueira mineira, o canto das siriemas acompanha uma ligação para a Energisa. Para conseguir sinal de celular, foi preciso percorrer cerca de 2,5 quilômetros montanha acima.

A residência estava sem energia elétrica desde aproximadamente 14h do dia anterior. Além disso, a interrupção deixou o imóvel sem internet e sem sinal de telefonia utilizável, já que a comunicação no local depende de Wi-Fi Calling.

A ligação fazia parte de uma jornada iniciada mais de 16 horas antes e marcada por tentativas de contato pelo 0800, WhatsApp, atendimento automatizado e atendentes humanos. A Consumidor Moderno documentou chamadas, protocolos, mensagens e horários para reconstruir, neste CM Teste, a experiência do consumidor pelos canais da Energisa.

“Já estamos trabalhando”

A falta de energia começou por volta das 14h de 1º de setembro. A partir das 15h30, três tentativas de contato pelo 0800 não resultaram em atendimento humano.

Às 16h45, o WhatsApp da Energisa identificou um desligamento na região que poderia estar afetando o imóvel e informou:

“Já estamos trabalhando para que a sua energia seja reestabelecida o mais rápido possível.”

A mensagem indicava, portanto, que a concessionária reconhecia a interrupção e atuava para restabelecer o fornecimento. No entanto, a energia não voltou durante a tarde, a noite ou a madrugada. Na manhã seguinte, já fora da propriedade para conseguir sinal, uma nova ligação foi feita ao 0800. A assistente virtual identificou a instalação e reconheceu a interrupção:

“Parece que a sua região está sem energia. Já estamos avaliando o que pode ter acontecido.”

A URA informou ainda que as equipes trabalhavam para solucionar o problema, mas que nem o atendimento automatizado nem os atendentes tinham previsão de restabelecimento. Em seguida, recomendou o WhatsApp como um canal “mais fácil, rápido” e sem espera na linha.

Após quase cinco minutos entre menus, espera e mensagens sobre os serviços da Energisa, veio o atendimento humano: “Energisa, (‘atendente1’), bom dia”.

O sistema sabia. Mas onde estava a ocorrência?

A consumidora relatou a interrupção desde as 14h do dia anterior e informou que o WhatsApp e a própria URA já reconheciam o problema. Após solicitar CPF e endereço, a atendente consultou o sistema e afirmou:

“Não consegui localizar essa ocorrência em que foi registrado mais cedo.”

A ‘atendente 1’ explicou que havia falta de energia em diferentes pontos e que outros clientes já haviam registrado ocorrências. Segundo ela, por isso, as equipes estavam cientes da situação. No entanto, não havia um chamado anterior vinculado àquela unidade. A ‘atendente 1’, então, informou:

“Vou aproveitar a sua ligação para abrir o registro […] relatando a falta de energia e pedindo uma urgência.”

Ao ser questionada sobre a diferença entre as mensagens anteriores da concessionária e a abertura daquele registro, ela esclareceu:

“Estou abrindo o primeiro chamado referente ao atendimento da sua unidade.”

Assim, embora os canais automáticos já reconhecessem a interrupção e informassem que as equipes atuavam no restabelecimento, o primeiro chamado associado especificamente à unidade foi aberto somente naquela ligação, na manhã seguinte.

E é justamente aí que começa o principal questionamento deste teste: o que significa, para o consumidor, receber de um canal oficial a informação de que a concessionária conhece a interrupção e já trabalha para solucioná-la? E qual é a diferença, na prática, entre a empresa reconhecer uma ocorrência na região e existir um registro associado à unidade consumidora afetada?

Prazo para o restabelecimento

Depois de abrir o primeiro chamado vinculado à unidade, a ‘atendente 1’ consultou o sistema e informou um prazo de cinco horas para atendimento. A consumidora confirmou:

São 6h30 da manhã agora. A previsão é que restabeleçam em cinco horas, então até 11h30?

É, exatamente. Baseado nesse horário, sim, respondeu a colaboradora.

A atendente também registrou a urgência e o fato de que a residência estava sem energia desde as 14h do dia anterior. Às 11h30, porém, a energia não havia voltado.

Ligue, espere, tente novamente

Às 12h43, uma nova ligação ao 0800 trouxe outra informação. Embora reconhecesse automaticamente a instalação e a falta de energia, a URA afirmou:

“Eu e os atendentes não temos um prazo de retorno, mas nossas equipes estão trabalhando para solucionar a situação o mais rápido possível.”

Horas antes, porém, o atendimento humano havia confirmado o prazo de cinco horas. A URA voltou a recomendar o WhatsApp, apresentado como um canal “mais fácil, rápido” e sem espera na linha. Ainda assim, a consumidora optou por tentar o atendimento humano novamente.

“Aguarde que retornaremos o contato”

Às 12h46, uma nova chamada foi transferida para a atendente 2. Antes da transferência, a URA avisou:

“Caso esta chamada seja interrompida, por favor, aguarde que retornaremos o contato.”

A consumidora informou CPF, nome e endereço, explicou que buscava uma previsão para o restabelecimento e recebeu um protocolo. Antes da conclusão do atendimento, a ligação caiu.

O retorno anunciado pela URA não aconteceu. Foi preciso ligar novamente. Na tentativa seguinte, o caminho se repetiu: identificação da instalação, reconhecimento automático da falta de energia, informação de que não havia prazo e recomendação para utilizar o WhatsApp. A chamada foi interrompida novamente.

Cinco tentativas e nenhuma resposta

Às 13h, havia sido iniciada a quinta tentativa telefônica daquele período. A mensagem era novamente conhecida: a região estava sem energia; as equipes trabalhavam na solução; os atendentes não tinham prazo; e o WhatsApp permitiria resolver a demanda de maneira mais fácil e rápida.

Em uma das tentativas, o atendimento humano não conseguiu localizar a consumidora no sistema, mesmo após a informação de CPF, endereço, código do imóvel e código do cliente.

O contraste começava a formar um ciclo: o sistema reconhecia a instalação e a interrupção automaticamente, mas obter uma informação atualizada sobre o restabelecimento exigia sucessivas tentativas (sem que os diferentes canais apresentassem ao consumidor uma resposta coerente sobre o prazo). E a interrupção já se aproximava de completar 24 horas.

A previsão que já havia passado

Enquanto o telefone se transformava em uma sucessão de tentativas, o WhatsApp oferecia outra peça do quebra-cabeça. Às 14h12, o canal informou: “Vi aqui que já existe um registro de falta de energia para o seu imóvel.”

Na sequência, apresentou um protocolo e uma previsão de restabelecimento: 2 de setembro de 2026, às 11h07min34s.

O problema estava no relógio. A consulta ocorria às 14h12. A previsão fornecida pelo próprio sistema havia vencido mais de três horas antes.

Questionado pelo fluxo automatizado sobre se o imóvel continuava sem energia, a consumidora confirmou que sim. A resposta informou que fatores como alta demanda e complicações externas poderiam contribuir para o atraso, afirmou que a equipe atuava para restabelecer o serviço e pediu: “Por favor aguarde mais um pouco.”

O canal não forneceu uma nova previsão.

Mais de 24 horas sem energia

No decorrer da tarde, a interrupção ultrapassou a marca de 24 horas.

Em uma nova ligação para a Energisa, o atendimento finalmente assumiu outro grau de urgência. O ‘atendente 3’ informou que abriria um “serviço emergencial” e explicou o motivo: “Estou gerando um serviço emergencial, onde eu vou estar repassando para o pessoal que seria um serviço com urgência, porque já se encontra com mais de 24 horas com falta de energia, reportou o problema e até agora ninguém foi ao local”.

A providência não pararia ali. Segundo o atendente, o caso também seria encaminhado ao supervisor: “Vou encaminhar também para o meu supervisor para verificar com as equipes de plantão e saber o porquê de não ter ido até o local”.

A fala acrescentava uma nova informação à jornada: mais de 24 horas após o início da interrupção e horas depois do vencimento do prazo informado pela manhã, o próprio atendimento buscava saber por que ninguém havia ido ao local.

A luz volta. As perguntas ficam

Às 18h16 de 2 de setembro, a Energisa finalmente restabeleceu o fornecimento. Até então, a residência havia permanecido cerca de 28 horas sem energia elétrica.

A energia voltou, mas a jornada pelos canais da Energisa deixou questões sem resposta. Ao longo do período, WhatsApp, URA e atendimento humano reconheceram a falta de energia, mas apresentaram informações diferentes sobre o registro da ocorrência e a previsão de restabelecimento.

A Consumidor Moderno procurou a Energisa para entender como esses canais se comunicam e esclarecer os desencontros registrados durante o teste.

O que diz a Energisa

De acordo com a Energisa, seus sistemas identificam automaticamente uma interrupção regional. Assim, os consumidores afetados não precisam registrar individualmente a falta de energia. Segundo a concessionária, equipamentos de monitoramento remoto também permitem detectar falhas em tempo real. O registro individual, porém, continua importante para identificar ocorrências restritas a uma unidade ou a pequenos grupos de clientes.

Sobre a diferença encontrada neste CM Teste entre o reconhecimento da interrupção pelos canais digitais e a ausência de registro anterior associado à unidade, a Energisa afirmou que “avalia os motivos que levaram à não atualização da situação da ocorrência online no sistema de atendimento e fará as correções necessárias”.

A concessionária acrescentou que, nos dias 1º e 2 de setembro, fortes chuvas provocaram ocorrências simultâneas em vários municípios da região. Segundo a empresa, quedas de árvores, galhos e outros objetos sobre a rede, além do difícil acesso a alguns locais, aumentaram a complexidade dos trabalhos e exigiram ajustes nos prazos de restabelecimento.

Informações desencontradas

Em relação às diferentes previsões apresentadas ao longo da jornada, a Energisa explicou que os horários são estimados com as informações disponíveis no momento e podem mudar conforme o trabalho das equipes em campo. A empresa não detalhou, porém, por que o WhatsApp ainda apresentava, às 14h12, uma previsão de restabelecimento para 11h07min34s, horário já ultrapassado havia mais de três horas.

A Energisa também informou que a queda de uma ligação sem o retorno anunciado e a dificuldade de localização do cadastro estão sendo verificadas internamente. Sobre o “serviço emergencial” mencionado por um atendente após mais de 24 horas de interrupção, esclareceu que toda ocorrência de falta de energia é classificada como emergencial. A concessionária afirmou ainda que seus canais utilizam a mesma base de informações operacionais e que atuará para corrigir eventuais divergências na comunicação.

Medidas na rede

Por fim, a Energisa informou ter realizado inspeções técnicas na rede da região para identificar oportunidades de melhoria. Segundo a concessionária, intervenções preventivas estão em planejamento e serão executadas nos próximos dias, com o objetivo de ampliar a confiabilidade e a resiliência do sistema elétrico local.

Compartilhe essa notícia:

Recomendadas

MAIS +

Veja mais noticias

Gabriela Glinternik analisa 23 anos de transformação nas relações de consumo e aponta os desafios para unir tecnologia, atendimento humano e resolutividade.
“A IA reflete a cultura da organização que a adota”, diz diretora da ABRAREC
Gabriela Glinternik analisa 23 anos de transformação nas relações de consumo e aponta os desafios para unir tecnologia, atendimento humano e resolutividade
ACP pede limite de tempo, restrição de acesso noturno, feed cronológico e mudanças no uso de dados de menores no Instagram e Facebook.
Ação contra Meta pede mudanças para menores e R$ 3 bilhões
ACP pede limite de tempo, restrição de acesso noturno, feed cronológico e mudanças no uso de dados de menores no Instagram e Facebook
Declaração do Secretário Nacional do Consumidor marcou a abertura da comissão que formulará, ao longo de um ano, novas regras e ferramentas de fiscalização para o e-commerce. 
Defesa do consumidor foi ‘apagada’ do debate digital, diz Morishita
Declaração do Secretário Nacional do Consumidor marcou a abertura da comissão que formulará, ao longo de um ano, novas regras e ferramentas de fiscalização para o e-commerce
Jornada de 40 horas avança no Senado e coloca empresas diante de desafios de produtividade, custos e novas expectativas dos trabalhadores.
Fim da escala 6x1 entra na reta decisiva e pressiona empresas a rever custos
PEC que reduz jornada para 40 horas aguarda Plenário do Senado; apoio popular, produtividade, automação e novas expectativas dos trabalhadores colocam empresas diante de uma equação que vai além das horas trabalhadas

Webstories

SUMÁRIO – Edição 297

A evolução do consumidor traz uma série de desafios inéditos, inclusive para os modelos de gestão corporativa. A Consumidor Moderno tornou-se especialista em entender essas mutações e identificar tendências. Como um ecossistema de conteúdo multiplataforma, temos o inabalável compromisso de traduzir essa expertise para o mundo empresarial assimilar a importância da inserção do consumidor no centro de suas decisões e estratégias.

A busca incansável da excelência e a inovação como essência fomentam nosso espírito questionador, movido pela adrenalina de desafiar e superar limites – sempre com integridade.

Esses são os valores que nos impulsionam a explorar continuamente as melhores práticas para o desenho de uma experiência do cliente fluida e memorável, no Brasil e no mundo.

A IA chega para acelerar e exponencializar os negócios e seus processos. Mas o CX é para sempre, e fará a diferença nas relações com os clientes.

CAPA: Camila Nascimento
IMAGEM: IA Generativa | Runway


Publisher
Roberto Meir

Diretor-Executivo de Conhecimento
Jacques Meir
[email protected]

Diretora-Executiva
Lucimara Fiorin
[email protected]

COMERCIAL E PUBLICIDADE
Gerentes

Daniela Calvo
[email protected]

Elisabete Almeida
[email protected]

Érica Issa
[email protected]


Leandro Carvalho
[email protected]

Marcelo Malzoni
[email protected]

Rodrigo Santinelo
rodrigo.santinelo@gpadrao.com.br

NÚCLEO DE CONTEÚDO
Head de Conteúdo
Larissa Sant’Ana
[email protected]

Editora do Portal 
Júlia Fregonese
[email protected]

Produtores de Conteúdo
Bianca Alvarenga
Carolina Paes
Danielle Ruas 
Marcelo Brandão
Victoria Pirolla

Head de Arte
Camila Nascimento

Revisão
Elani Cardoso

COMUNICAÇÃO E MARKETING
Gerente
Leonam Dias

TECNOLOGIA
Gerente

Ricardo Domingues


CONSUMIDOR MODERNO
é uma publicação da Padrão Editorial Ltda.
www.gpadrao.com.br
Rua Ceará, 62 – Higienópolis
Brasil – São Paulo – SP – 01234-010
Telefone: +55 (11) 3125-2244
A editora não se responsabiliza pelos conceitos emitidos nos artigos ou nas matérias assinadas. A reprodução do conteúdo editorial desta revista só será permitida com autorização da Editora ou com citação da fonte.
Todos os direitos reservados e protegidos pelas leis do copyright,
sendo vedada a reprodução no todo ou em parte dos textos
publicados nesta revista, salvo expresso
consentimento dos seus editores.
Padrão Editorial Ltda.
Consumidor Moderno ISSN 1413-1226

NA INTERNET
Acesse diariamente o portal
www.consumidormoderno.com.br
e tenha acesso a um conteúdo multiformato
sempre original, instigante e provocador
sobre todos os assuntos relativos ao
comportamento do consumidor e à inteligência
relacional, incluindo tendências, experiência,
jornada do cliente, tecnologias, defesa do
consumidor, nova consciência, gestão e inovação.

PUBLICIDADE
Anuncie na Consumidor Moderno e tenha
o melhor retorno de leitores qualificados
e informados do Brasil.

PARA INFORMAÇÕES SOBRE ORÇAMENTOS:
[email protected]

Prime Video aposta em vídeos curtos e amplia funções do streaming Do clique ao dano: quem responde nas novas relações de consumo? Menos estímulos, mais experiência? Quando o tempo perdido vira indenização