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O rock sequencial da IA e a despedida de um verdadeiro rockstar

O rock sequencial da IA e a despedida de um verdadeiro rockstar

O que o fim da carreira do Black Sabbath e a chegada de bandas de rock de IA nos dizem sobre a experiência musical do futuro?
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Foto: Zamrznuti tonovi / Shutterstock.com

“Coisas estranhas sempre aconteciam em Aston. Faz todo o sentido que o Black Sabbath tenha nascido lá.” Essas são as palavras de Geezer Butler, baixista e cofundador da banda Black Sabbath, no início da sua autobiografia, Into The Void.

Ler sobre histórias e as lendas por trás dos meus grandes ídolos do rock é uma das minhas predileções literárias – assim como ouvir seus álbuns. Em tempos em que novas tecnologias, como a Inteligência Artificial (IA), desafiam nosso gosto musical e nos sugerem bandas criadas por máquinas, fico me perguntando como fica essa narrativa de músicos e seres humanos incríveis em meio ao mercado sugestionado das plataformas de streaming para comercialização de música.

Eu mesmo adoro o Spotify. Já fui diversas vezes impactado por algum artista novo que ele me recomendou. No entanto, nos últimos meses, tenho sido impactado por algo novo: bandas de IA. The Velvet Sundown e Flaherty Brotherhood são alguns exemplos de projetos de sucesso que criam canções através de Inteligência Artificial.

Fica evidente como a tecnologia passou a ser parte integrante do processo criativo de alguns estúdios comerciais, e não apenas uma ferramenta de distribuição. Mas, é difícil comparar quando se tem na história do rock tantas mentes brilhantes, como a de Geezer Butler, por trás de canções que não envelhecem. Aliás, envelhecer parece ser o desafio do rock – e de todos nós. O Black Sabbath deu seu adeus oficial dia desses, num show épico que reuniu seus fundadores e artistas convidados na sua cidade natal Aston, distrito de Ladywood, em Birmingham, Inglaterra. Ozzy Osbourne, vocalista da banda, estava lá e nos deu seu último adeus também. Alguns dias depois, faleceu.

Mas Ozzy e o Sabbath deixaram seu legado. Sua obra está aí, registrada, digitalizada e disponível no Spotify. Claro, para ser ouvida, celebrada e, por que não, emulada via IA. Já a performance de Ozzy e seu carisma saíram de cena. Para os fãs do rock, da música como encontro, artistas desse calibre sempre farão falta. Me pergunto: ficará o rock relegado a plataformas digitais cheias de canções e bandas baseadas em IA para as futuras gerações?

Não sei. O que sei é que o roqueiro de carne e osso tem no suor, no dom, na coragem e, com todos os seus defeitos, uma força irreplicável de criar significados profundamente humanos. Esse é o verdadeiro propósito do artista: fazer do seu próprio corpo e da sua vivência um caminho para algo tão singular, profundo e generoso.

Enfim, esse apanhado rebuscado de palavras aqui não tem a mínima pretensão de ir contra a inovação. Na própria história da música, a tecnologia foi determinante na produção, na criação de estilos e até na consagração de artistas. Para plataformas como Spotify e para alguns produtores interessados no mercado de streaming, talvez a IA seja aquele artista perfeito: sem ego, sem loucura, sem atrasos ou ressentimentos, sem imperfeições. The Velvet Sundown ultrapassou 1,4 milhão de ouvintes mensais no Spotify. Tem dois álbuns lançados em 2025. O sonho de mercado de qualquer agente.

Mas, até quando uma banda emulada por algoritmos definirá uma era da história do rock, ou aquilo que buscamos para momentos nos quais a música nos traga algum alento? Faz sentido ouvir uma canção que nunca foi sentida, de fato, por quem a criou? É estranho pensar a partir dessa espiral. Mas é mais estranho ainda saber que isso agrada. E sim, The Velvet Sundown é agradável. Mas, é só isso. E isso não basta para o rock.

No rock, é preciso ir além daquilo que as pessoas esperam. Durante anos, o Black Sabbath foi duramente criticado e odiado. Foi uma banda mal administrada, e foram roubados. Como conta Geezer, “houve mais mudanças na formação da banda do que a maioria das pessoas já jantou fora”. A crítica e o mercado presumiram que a banda se tornaria obsoleta por causa de todas as outras vertentes e artistas do rock que foram surgindo – assim como pensamos isso tudo agora com a chegada da IA. Mas, para o Black Sabbath, tudo isso é parte daquilo que a banda se tornou. Imensa!

Novamente, esse não é um voto contra a tecnologia e sua incrível capacidade de criar oportunidades. É apenas um sincero alerta para você buscar nessas figuras como Ozzy e as canções do Sabbath – ou até mesmo no show daquela banda de garagem do seu amigo – uma conexão e significado mais humanos com a música. Algo mais profundo e verdadeiro dentro dessa sinfonia sugestionada de máquinas que também buscam na obra desses ícones uma referência. Só que nesse caso, o caminho mais fácil para a criação e rentabilidade.

Ao contrário daquilo que o título da autobiografia de Gezzer Butler incita – é também título de uma canção do Black Sabbath –, o vazio da IA na música não nos dá arrepios, não causa estranheza, ou agitação. É apenas sequencial.

*Foto: Zamrznuti tonovi / Shutterstock.com.

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