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E se redes de pesca que seriam descartadas, virassem bolsas?

E se redes de pesca que seriam descartadas, virassem bolsas?

Conheça a história da Redinha, um exemplo de economia circular que reaproveita redes de pesca as transformando em bolsas

Ao começar a estudar o lixo flutuante da Baía de Guanabara para minha tese de mestrado, o lixo passou e me incomodar ainda mais. Virei “a tia chata do lixo” dizendo para as pessoas não utilizarem tantos descartáveis, não comprarem enfeites de festa que virarão lixo e até fiz placas para a Dona Maria, uma senhora com quem compro ovos há anos na feira no meu bairro, incentivando seus clientes a devolverem embalagem do ovo, ao invés de jogá-las fora.

Eis que um dia fui remar em Jujuruba, uma pequena praia da Baía de Guanabara, que tem uma colônia de pescadores. Antes de ir para a areia da praia, para entrar na canoa, passei por um espaço que tem uma verdadeira montanha de redes de pesca. Quando estava indo embora, perguntei para os redeiros (pessoas que costuram furos das redes), o que eles faziam com aquele material que não poderia ser consertado, eles responderam o famoso: “jogamos fora”. Indaguei: Mas é um mundo de redes! E eles reiteraram: “Sim, mas jogamos fora!”.

A “tia do lixo aqui” tinha acabado de ganhar de presente aquelas sacolas com telinhas brancas, que substituem a sacola de uso único. Quando eu avistei essas sacolas em casa, na hora me veio o estalo: vou fazer igual, só que aproveitando as redes de pesca que seriam “jogadas fora”. Entrei em contato com o Marquinhos, pescador de Jurujuba há 40 anos, que juntou algumas redes para me dar.

Isso foi em agosto de 2020, minha sogra tinha feito várias peças de crochê durante a quarentena e era exatamente essa mão-de-obra que eu precisava para viabilizar o modelo. Nascia então a Redinha, um projeto que transforma redes de pesca em bolsas, num processo totalmente artesanal, desde a lavagem, até a colocação da etiqueta. O nome no diminutivo foi de propósito, para pegar intimidade logo de cara.

De lá para cá treinamos artesãs, buscamos costureiras para fazer outros modelos e vendemos mais de mil peças, apesar da pandemia. Hoje, temos quatro modelos de bolsas diferentes. Cada pessoa que compra uma Redinha muda o olhar sobre o lixo, contribui para a renda de artesãs, e do Marquinhos, que também ganha com as vendas. Para quem quiser conhecer mais é só seguir o @minharedinha no Instagram. Acreditamos que mudanças são viáveis através da formação de redes, mesmo que pequenas como a Redinha.

*Maria Fernanda Bastos é engenheira civil e do meio ambiente, mestre em Gestão de Recursos Hídricos e  educadora ambiental sobre economia circular e redução do lixo. É também idealizadora e fundadora do projeto @minharedinha, que transforma redes de pescas que seriam descartadas, em bolsas.


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